ZZH coupling : A probe to the origin of EWSB ?
Choudhury, Debajyoti
2003-02-17
Identidade associada ao lugar: conteúdos identitários e percepção de qualidade ambiental em localidades de diferente dimensão 
Creator
Contributor
Date
2002-01-01
Description
Nos últimos anos tem crescido o interesse pelo estudo da identidade associada aos lugares.
Um dos aspectos que tem sido negligenciado pela literatura sobre o tema é a análise dos
conteúdos subjacentes à identidade associada ao lugar, ou seja, das características atribuídas
pelos indivíduos ou grupos ao seu ambiente que são incorporadas nos seus auto-conceitos.
Neste projecto de investigação procurou-se identificar os conteúdos subjacentes à identidade
associada ao lugar, atendendo nomeadamente à força da identidade associada ao lugar e à
dimensão do lugar de identificação. Dado existir suporte empírico para a influência da
identidade associada ao lugar sobre a percepção de qualidade ambiental, procurou-se ainda
analisar, em primeiro lugar, a relação existente entre identidade, conteúdos e qualidade
ambiental percebida, e em segundo, a capacidade preditiva dos conteúdos identitários sobre a
qualidade ambiental percebida por indivíduos com diferente nível de identidade.
Desenvolveram-se dois estudos exploratórios, o primeiro de natureza qualitativa junto de
estudantes universitários, e o segundo de natureza correlacional junto de uma amostra de
residentes do Grande Porto, cujos resultados apontam para a existência de cinco grandes
dimensões de conteúdo: instrumental, estética, histórico-cultural, resposta a necessidades
básicas e problemas ambientais e sociais. A utilização das mesmas na descrição dos lugares de
residência é influenciada positivamente pela identidade dos indivíduos e pela dimensão do
lugar, sendo que no segundo caso a influência não é linear. Relativamente à relação entre
identidade, conteúdos e percepção de qualidade ambiental, verificou-se existir uma associação
positiva entre as variáveis. A capacidade preditiva dos conteúdos relativamente à qualidade
ambiental percebida por sujeitos com baixa vs. alta identidade é todavia diferente. A
qualidade ambiental percebida pelos indivíduos menos identificados com o lugar onde vivem
é explicada pela percepção de funcionalidade, beleza, capacidade de resposta a necessidades
básicas e existência de problemas ambientais e sociais. No caso de indivíduos mais fortemente
identificados, apenas as dimensões funcional e problemas ambientais e sociais contribuem
para a explicação da variância na percepção de qualidade ambiental. Em ambas as situações,
os julgamentos relativos à riqueza histórico-cultural do lugar não apresentam qualquer valor
preditivo. Os resultados são discutidos à luz da literatura relevante. Apontam-se algumas
linhas de futura investigação.
Um dos aspectos que tem sido negligenciado pela literatura sobre o tema é a análise dos
conteúdos subjacentes à identidade associada ao lugar, ou seja, das características atribuídas
pelos indivíduos ou grupos ao seu ambiente que são incorporadas nos seus auto-conceitos.
Neste projecto de investigação procurou-se identificar os conteúdos subjacentes à identidade
associada ao lugar, atendendo nomeadamente à força da identidade associada ao lugar e à
dimensão do lugar de identificação. Dado existir suporte empírico para a influência da
identidade associada ao lugar sobre a percepção de qualidade ambiental, procurou-se ainda
analisar, em primeiro lugar, a relação existente entre identidade, conteúdos e qualidade
ambiental percebida, e em segundo, a capacidade preditiva dos conteúdos identitários sobre a
qualidade ambiental percebida por indivíduos com diferente nível de identidade.
Desenvolveram-se dois estudos exploratórios, o primeiro de natureza qualitativa junto de
estudantes universitários, e o segundo de natureza correlacional junto de uma amostra de
residentes do Grande Porto, cujos resultados apontam para a existência de cinco grandes
dimensões de conteúdo: instrumental, estética, histórico-cultural, resposta a necessidades
básicas e problemas ambientais e sociais. A utilização das mesmas na descrição dos lugares de
residência é influenciada positivamente pela identidade dos indivíduos e pela dimensão do
lugar, sendo que no segundo caso a influência não é linear. Relativamente à relação entre
identidade, conteúdos e percepção de qualidade ambiental, verificou-se existir uma associação
positiva entre as variáveis. A capacidade preditiva dos conteúdos relativamente à qualidade
ambiental percebida por sujeitos com baixa vs. alta identidade é todavia diferente. A
qualidade ambiental percebida pelos indivíduos menos identificados com o lugar onde vivem
é explicada pela percepção de funcionalidade, beleza, capacidade de resposta a necessidades
básicas e existência de problemas ambientais e sociais. No caso de indivíduos mais fortemente
identificados, apenas as dimensões funcional e problemas ambientais e sociais contribuem
para a explicação da variância na percepção de qualidade ambiental. Em ambas as situações,
os julgamentos relativos à riqueza histórico-cultural do lugar não apresentam qualquer valor
preditivo. Os resultados são discutidos à luz da literatura relevante. Apontam-se algumas
linhas de futura investigação.
In the last years, the interest in the study of place related identity has been grown. One of the
aspects that has been neglected by the literature in this area is the identity contents analysis or
those features attributed by the individuals or groups to their environment which are
incorporated in their self or group-concepts. In this investigation project the aim was to
identify the place identity contents, taking into account the strength of the place identity and
the dimension of the places. Since there is empirical support for the influence of place identity
in the perception of environmental quality, it was also aim first to analyse the relationship
between place identity, identity contents and perceived environmental quality, and second to
evaluate the predictive value of the identity contents concerning the environmental quality
perceived by subjects with different degrees of place identity. Two exploratory studies were
developed, the first was a qualitative one, with university students, and the second a
correlacional, with a sample of residents living nearby Oporto. The results indicate that there
are five big dimensions of identity contents: instrumental, aesthetic, historic and cultural
dimension, basic necessities and environmental and social local problems. The way the
subjects use those dimensions to describe or evaluate the places where they live is positively
influenciated by the strength of their place identities and the by the dimension of the places,
but in the second case the influence is not linear. The results also show that there is a positive
relation between place identity, identity contents and perceived environmental quality. The
predictive value of each identity content relatively to the environmental quality perceived by
subjects with low vs. high place identity is different. The environmental quality perceive by
individuals with low place identity is explained by their perceptions of place instrumentality,
beauty, ability to satisfy their basic necessities and existence of environmental and social
problems. In the case of subjects with high place identity only the dimensions instrumental
and environmental and social local problems contribute to explain the variance in perception
of environmental quality. In both situations, the judgements related to the historic and cultural
richness of place don’t have any predictive value. Results were discussed in the light of
relevant literature. Some lines for future investigation were drawn.
aspects that has been neglected by the literature in this area is the identity contents analysis or
those features attributed by the individuals or groups to their environment which are
incorporated in their self or group-concepts. In this investigation project the aim was to
identify the place identity contents, taking into account the strength of the place identity and
the dimension of the places. Since there is empirical support for the influence of place identity
in the perception of environmental quality, it was also aim first to analyse the relationship
between place identity, identity contents and perceived environmental quality, and second to
evaluate the predictive value of the identity contents concerning the environmental quality
perceived by subjects with different degrees of place identity. Two exploratory studies were
developed, the first was a qualitative one, with university students, and the second a
correlacional, with a sample of residents living nearby Oporto. The results indicate that there
are five big dimensions of identity contents: instrumental, aesthetic, historic and cultural
dimension, basic necessities and environmental and social local problems. The way the
subjects use those dimensions to describe or evaluate the places where they live is positively
influenciated by the strength of their place identities and the by the dimension of the places,
but in the second case the influence is not linear. The results also show that there is a positive
relation between place identity, identity contents and perceived environmental quality. The
predictive value of each identity content relatively to the environmental quality perceived by
subjects with low vs. high place identity is different. The environmental quality perceive by
individuals with low place identity is explained by their perceptions of place instrumentality,
beauty, ability to satisfy their basic necessities and existence of environmental and social
problems. In the case of subjects with high place identity only the dimensions instrumental
and environmental and social local problems contribute to explain the variance in perception
of environmental quality. In both situations, the judgements related to the historic and cultural
richness of place don’t have any predictive value. Results were discussed in the light of
relevant literature. Some lines for future investigation were drawn.
Mestrado em Psicologia Social e das Organizações
Type
Identifier
DUARTE, Ana Patrícia - Identidade associada ao lugar: conteúdos identitários e percepção de qualidade ambiental em localidades de diferente dimensão [Em linha]. Lisboa: ISCTE, 2002. Dissertação de mestrado. [Consult. Dia Mês Ano] Disponível em www:.
Database
Language
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INSTITUTO SUPERIOR DE CIÊNCIAS DO TRABALHO E DA EMPRESA
Departamento de Psicologia Social e das Organizações
5.º Mestrado em Psicologia Social e Organizacional
Percepção de Riscos Ambientais e de Saúde
Identidade associada ao lugar:
Conteúdos identitários e percepção de qualidade ambiental
em localidades de diferente dimensão.
Tese apresentada por: Ana Patrícia Pereira Duarte Baltazar
Sob orientação de: Profª. Doutora Maria Luísa Pedroso de Lima
15 de Novembro de 2002
Identidade associada ao lugar 2
Este projecto foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e pelo Fundo Social
Europeu no âmbito do III Quadro Comunitário de Apoio (SFRH/BM/4383/2001).
Identidade associada ao lugar 3
AGRADECIMENTOS
Desejo agradecer a um conjunto de pessoas sem o apoio das quais este projecto não
teria certamente sido concretizado:
– Ao Luís, meu marido, por ter abraçado este projecto como se de um projecto seu se
tratasse. O seu apoio e compreensão, ao longo destes últimos dois anos, foram cruciais
para a concretização do mesmo.
– À Profª. Luísa Lima, sem a orientação da qual não teria chegado a bom porto nesta
aventura. Agradeço-lhe a disponibilidade que demonstrou ao longo deste percurso, os
incentivos, as críticas e sugestões que ajudaram a dar corpo e a enriquecer este trabalho,
mas sobretudo a amizade que revelou para comigo.
– À Carla Mouro, amiga com quem partilhei a aventura da realização deste mestrado.
Agradeço-lhe precisamente esse facto: o ter partilhado comigo esta aventura. Sem a
permanente partilha de opiniões, de conhecimentos, de sugestões, mas também de
sentimentos e inquietações esta aventura não teria sido certamente a mesma.
– À Soraia Jamal que me ajudou na análise de conteúdo e à Manuela Moura que me brindou
com a sua amizade e apoio ao longo destes dois anos e me deu uma ajuda indispensável na
revisão desta dissertação.
– À minha Família e Amigos em geral, aos quais agradeço a amizade, o apoio incondicional
e a confiança que sempre revelaram e continuam a revelar nas minhas capacidades.
Bem hajam!
Identidade associada ao lugar 4
ÍNDICE
Página Resumo........................................................................................................................... 6 Abstract .......................................................................................................................... 7 Introdução....................................................................................................................... 8 Estudo 1
Objectivos.............................................................................................................. 27 Método.................................................................................................................. 27
Sujeitos......................................................................................................... 27 Instrumento e Procedimento........................................................................ 28 Análise de Conteúdo................................................................................... 30
Resultados............................................................................................................ 31 Identidade associada ao lugar...................................................................... 31 Conteúdos identitários................................................................................. 34
Conclusões............................................................................................................ 42 Estudo 2
Objectivos.............................................................................................................. 47 Método.................................................................................................................. 48
Sujeitos......................................................................................................... 48 Instrumento e Procedimento........................................................................ 51
Resultados............................................................................................................. 53 Estrutura factorial dos conteúdos identitários.............................................. 53 Identidade associada ao lugar: diferenças em função da dimensão da localidade.....................................................................................................
54 Conteúdos identitários: diferenças em função do grau de identidade associada ao lugar........................................................................................
56 Conteúdos identitários: diferenças em função da dimensão da localidade.....................................................................................................
57 Conteúdos identitários: efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da localidade...................................................................
59 Qualidade ambiental percebida: diferenças em função da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade..........................................
62 Relação entre identidade associada ao lugar, conteúdos identitários e qualidade ambiental percebida.....................................................................
63 Percepção de qualidade ambiental em indivíduos com diferentes graus de identidade associada ao lugar: capacidade preditiva dos conteúdos identitários...................................................................................................
65 Conclusões............................................................................................................. 67
Conclusões Gerais........................................................................................................... 73 Referências...................................................................................................................... 79 Anexos ........................................................................................................................... 84
Identidade associada ao lugar 5
ÍNDICE DE TABELAS
Página Tabela 1. Frequência das categorias em função da dimensão da localidade: categorias
com mais de 10 observações.......................................................
35 Tabela 2. Medidas de discriminação e coordenadas das categorias nas dimensões da
Homals..........................................................................................................
37 Tabela 3. Características sócio-demográficas da população por localidade................. 49 Tabela 4. Características sócio-demográficas da amostra por localidade..................... 49 Tabela 5. Características sócio-demográficas dos grupos constituídos........................ 50 Tabela 6. Estrutura factorial dos conteúdos identitários (rotação varimax).................. 55 Tabela 7. Diferenças nos conteúdos identitários em função do grau de identidade
associada ao lugar..........................................................................................
57 Tabela 8. Diferenças nos conteúdos identitários em função da dimensão da
localidade.......................................................................................................
59 Tabela 9. Correlações entre identidade associada ao lugar, conteúdos identitários e
qualidade ambiental percebida. ....................................................................
65 Tabela 10. Regressão múltipla dos conteúdos identitários sobre a qualidade
ambiental percebida por indivíduos com baixa e alta identidade associada ao lugar (método enter).................................................................................
66
ÍNDICE DE FIGURAS
Página Figura 1. Representação gráfica das categorias nas dimensões da Homals................... 39 Figura 2. Representação gráfica das características dos sujeitos nas dimensões da
Homals.......................................................................................................... 41
Figura 3. Efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da localidade sobre dimensão resposta a necessidades básicas.........................
60 Figura 4. Efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da
localidade sobre dimensão estética................................................................
61 Figura 5. Efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da
localidade sobre a percepção de qualidade ambiental.................................... 63
ÍNDICE DE ANEXOS
Página Anexo 1. Listagem das localidades referidas pelos sujeitos: número de observações e
classificação em função da dimensão.........................................................
85 Anexo 2. Dicionário de categorias................................................................................. 87 Anexo 3. Frequência das categorias apuradas através da análise de conteúdo............. 96
Identidade associada ao lugar 6
RESUMO
Nos últimos anos tem crescido o interesse pelo estudo da identidade associada aos lugares. Um dos aspectos que tem sido negligenciado pela literatura sobre o tema é a análise dos conteúdos subjacentes à identidade associada ao lugar, ou seja, das características atribuídas pelos indivíduos ou grupos ao seu ambiente que são incorporadas nos seus auto-conceitos. Neste projecto de investigação procurou-se identificar os conteúdos subjacentes à identidade associada ao lugar, atendendo nomeadamente à força da identidade associada ao lugar e à dimensão do lugar de identificação. Dado existir suporte empírico para a influência da identidade associada ao lugar sobre a percepção de qualidade ambiental, procurou-se ainda analisar, em primeiro lugar, a relação existente entre identidade, conteúdos e qualidade ambiental percebida, e em segundo, a capacidade preditiva dos conteúdos identitários sobre a qualidade ambiental percebida por indivíduos com diferente nível de identidade. Desenvolveram-se dois estudos exploratórios, o primeiro de natureza qualitativa junto de estudantes universitários, e o segundo de natureza correlacional junto de uma amostra de residentes do Grande Porto, cujos resultados apontam para a existência de cinco grandes dimensões de conteúdo: instrumental, estética, histórico-cultural, resposta a necessidades básicas e problemas ambientais e sociais. A utilização das mesmas na descrição dos lugares de residência é influenciada positivamente pela identidade dos indivíduos e pela dimensão do lugar, sendo que no segundo caso a influência não é linear. Relativamente à relação entre identidade, conteúdos e percepção de qualidade ambiental, verificou-se existir uma associação positiva entre as variáveis. A capacidade preditiva dos conteúdos relativamente à qualidade ambiental percebida por sujeitos com baixa vs. alta identidade é todavia diferente. A qualidade ambiental percebida pelos indivíduos menos identificados com o lugar onde vivem é explicada pela percepção de funcionalidade, beleza, capacidade de resposta a necessidades básicas e existência de problemas ambientais e sociais. No caso de indivíduos mais fortemente identificados, apenas as dimensões funcional e problemas ambientais e sociais contribuem para a explicação da variância na percepção de qualidade ambiental. Em ambas as situações, os julgamentos relativos à riqueza histórico-cultural do lugar não apresentam qualquer valor preditivo. Os resultados são discutidos à luz da literatura relevante. Apontam-se algumas linhas de futura investigação.
Identidade associada ao lugar 7
ABSTRACT
In the last years, the interest in the study of place related identity has been grown. One of the aspects that has been neglected by the literature in this area is the identity contents analysis or those features attributed by the individuals or groups to their environment which are incorporated in their self or group-concepts. In this investigation project the aim was to identify the place identity contents, taking into account the strength of the place identity and the dimension of the places. Since there is empirical support for the influence of place identity in the perception of environmental quality, it was also aim first to analyse the relationship
between place identity, identity contents and perceived environmental quality, and second to evaluate the predictive value of the identity contents concerning the environmental quality perceived by subjects with different degrees of place identity. Two exploratory studies were developed, the first was a qualitative one, with university students, and the second a correlacional, with a sample of residents living nearby Oporto. The results indicate that there are five big dimensions of identity contents: instrumental, aesthetic, historic and cultural dimension, basic necessities and environmental and social local problems. The way the subjects use those dimensions to describe or evaluate the places where they live is positively influenciated by the strength of their place identities and the by the dimension of the places, but in the second case the influence is not linear. The results also show that there is a positive relation between place identity, identity contents and perceived environmental quality. The predictive value of each identity content relatively to the environmental quality perceived by subjects with low vs. high place identity is different. The environmental quality perceive by individuals with low place identity is explained by their perceptions of place instrumentality, beauty, ability to satisfy their basic necessities and existence of environmental and social problems. In the case of subjects with high place identity only the dimensions instrumental and environmental and social local problems contribute to explain the variance in perception of environmental quality. In both situations, the judgements related to the historic and cultural richness of place don’t have any predictive value. Results were discussed in the light of relevant literature. Some lines for future investigation were drawn.
Identidade associada ao lugar 8
INTRODUÇÃO
A importância do ambiente que nos circunda para a construção e manutenção do
nosso sentido de identidade pessoal é evidente. De facto, muitas vezes para respondemos à
questão “quem sou eu?” contrapomo-la à questão “de onde sou?” ou “aonde é que pertenço?”
(Cuba e Hummon, 1993), uma manifestação de que muito do que nós somos depende de onde
vivemos e das experiências que temos nesse local (McAndrew, 1998). Os resultados de um
inquérito recentemente realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de
Lisboa, junto de uma amostra representativa da população portuguesa, demonstram bem a
importância de sermos de um lugar e da ligação que estabelecemos com o mesmo: 41% dos
inquiridos afirma que sente que pertence em primeiro lugar ao grupo das pessoas da
localidade onde vive, contra 35% que, em primeiro lugar, sente pertencer a Portugal e 18% à
região onde vive (Lima, Cabral, Vala e Ramos, 2002 citados por Lima, 2002).
O papel do ambiente na formação e manutenção do sentido de identidade tem sido
alvo de atenção por parte de teóricos de vários campos disciplinares, entre os quais a
Antropologia, Sociologia, Geografia Humana e Psicologia Ambiental, sendo geralmente
atribuída a iniciativa do estudo desta problemática aos geógrafos humanistas, com destaque
para os trabalhos de Relph (1976), Buttimer (1978) e Tuan (1980).
No campo da Psicologia Ambiental, o estudo desta questão tem recebido alguma
atenção por parte de diversos investigadores, particularmente nas últimas três décadas.
Todavia, os avanços realizados não deram ainda azo à constituição de um corpo teórico
coerente, sendo muitas as limitações que têm bloqueado severamente os avanços neste campo.
Uma das limitações apontadas frequentemente prende-se com a falta de consenso
relativamente aos conceitos utilizados e consequente confusão conceptual e terminológica que
se observa nos vários trabalhos (Giuliani e Feldman, 1993; Hidalgo e Hernandéz, 2001; Lalli,
1992). Proshansky, Fabian e Kaminoff (1983) propuseram, num trabalho charneira nesta área
Identidade associada ao lugar 9
(cf. Dixon e Durrheim, 2000; Krupat, 1983; Lalli, 1988), o termo identidade associada ao
lugar1 (place identity) para designar a relação que se estabelece entre identidade e ambiente.
Na sua essência a identidade associada ao lugar pode ser definida como uma subestrutura da
identidade pessoal resultante da apropriação no auto-conceito de características atribuídas ao
ambiente. A literatura sobre o lugar2, oferece todavia, um amplo conjunto de conceitos
similares e em parte sobreinclusivos que procuram dar conta dessa ligação, nomeadamente
sentido de lugar (sense of place) (Chawla, 1992; Hummon, 1992; Jorgensen e Stedman, 2001;
Relph, 1976), ligação ou vinculação ao lugar (place attachment) (Altman e Low, 1992;
Hidalgo e Hérnandez, 2001; Riley, 1992), dependência ou confiança no lugar (place
dependence) (Stokols e Shumaker, 1981) apenas para referir os mais relevantes. Embora estes
conceitos partilhem características comuns, apresentam naturalmente algumas características
específicas. Impõe-se, por isso, uma breve descrição dos conceitos. O conceito de sentido de
lugar, é o conceito mais geral, e refere-se genericamente ao significado atribuído a um lugar
por um indivíduo ou grupo (Chawla, 1992; Jorgensen e Stedman, 2001; Relph, 1976). Já o
conceito de ligação ao lugar procura dar conta da ligação emocional, na maior parte das vezes
positiva, que se estabelece entre indivíduos ou grupos e o seu ambiente, ligação essa que
ultrapassa muitas vezes os domínios da cognição, preferência ou avaliação (Altman e Low,
1992; Riley, 1992). Hidalgo e Hernandéz (2001) salientam o facto do conceito de ligação
envolver uma tendência ou desejo por parte do sujeito de permanecer próximo do objecto de
vinculação, neste caso, do lugar ou cenário físico ao qual se sente emocionalmente apegado.
Por sua vez, o conceito de dependência ou confiança no lugar foi proposto por Stokols e
Shumaker (1981) e prende-se com a avaliação que o indivíduo faz da capacidade que o seu
ambiente tem de satisfazer as suas necessidades ou objectivos, comparativamente com outros
1 O termo place identity surge também traduzido enquanto “identidade local” ou “identidade com o lugar” (cf.
Almeida e Castro, 2002; Lima, 2002 ).
Identidade associada ao lugar 10
cenários alternativos. Contrariamente à ligação ao lugar, este conceito implica uma relação
baseada na avaliação de objectivos concretos e não apenas numa ligação emocional. Como
apontam Hidalgo e Hernandéz (2001), a diversidade e sobreposição existente entre os termos
torna frequentemente difícil saber se se trata do mesmo constructo com outro nome ou de
conceitos efectivamente diferentes. A própria forma como os conceitos são aplicados não é
consensual, sendo que nalguns casos um dos conceitos é usado como conceito mais geral e
integrador (e.g. para Lalli (1992) a ligação ao lugar é uma componente da identidade
associada ao lugar; para Jorgensen e Stedman (2001) a ligação ao lugar, identidade associada
ao lugar e dependência ao lugar são componentes do sentido de lugar), noutras situações
verifica-se que os conceitos são usados como sinónimos (e.g. Brown e Werner (1985) citados
por Hidalgo e Hernandéz (2001) e Stedman (2002) falam de identidade e ligação sem
distinguir os conceitos).
Para além da diversidade e heterogeneidade dos termos aplicados para designar a
relação entre ambiente e identidade, também a diversidade de abordagens teóricas e
empíricas, a falta de instrumentos de medida adequados e a escassez de trabalho empírico têm
sido apontadas como limitações existentes ao desenvolvimento da teoria do lugar (e.g.
Devine-Wright e Lyons, 1997; Dixon e Durrheim, 2000; Hidalgo e Hernandéz, 2001; Krupat,
1983; Lalli, 1992; Twigger-Ross e Uzzell, 1996). De acordo com Lalli (1992), a teoria e
pesquisa sobre identidade associada ao lugar tem recebido a influência marcante de duas
grandes abordagens teóricas: a abordagem fenomenológica e a abordagem positivista.
Segundo a perspectiva fenomenológica, a identidade associada ao lugar é perspectivada como
uma forte ligação emocional e amplamente inconsciente aos cenários físicos em que o
indivíduo se movimenta, assumindo particular importância a casa, ligação essa que assenta
num sentido de pertença ao lugar e contribui para a manutenção da identidade, equilíbrio e
2 Por “lugar” entende-se um espaço ou contexto físico ao qual as pessoas ou grupos estão emocional ou
culturalmente ligados e ao qual atribuíram significados através de processos pessoais, grupais ou culturais (Low
Identidade associada ao lugar 11
bem estar emocional do indivíduo. Metodologicamente, são privilegiadas as metodologias
qualitativas e procuram-se captar os significados atribuídos subjectivamente pelos indivíduos
ao seu ambiente. Os trabalhos de Relph (1976), Tuan (1980) e Buttimer (1980) enquadram-se
nesta perspectiva. A perspectiva positivista distingue-se da anterior sobretudo por empregar
metodologias quantitativas no estudo da relação entre ambiente e identidade, e proceder ao
teste de hipóteses, formuladas muitas das vezes a partir dos trabalhos de natureza
fenomenológica. Os trabalhos de Lalli (1988, 1992), Shamai (1991) e Cuba e Hummon
(1993) são alguns exemplos dos estudos desenvolvidos neste âmbito.
Não obstante as limitações e condicionalismos existentes na literatura sobre o lugar,
importa para este trabalho apresentar as principais contribuições para a compreensão da
relação existente entre ambiente e indivíduo, particularmente no que se refere ao
desenvolvimento e manutenção da identidade associada ao lugar. Conforme se referiu
anteriormente, a publicação dos trabalhos de Proshansky (1978) e Proshansky e colaboradores
(1983) tem sido apontada como um marco fulcral no estudo da identidade associada aos
lugares. Saliente-se que o conceito de identidade associada ao lugar refere-se, neste contexto,
à relação que se estabelece entre o indivíduo e um lugar específico, e ao contributo desta
relação para a definição subjectiva da identidade pessoal, e não à identidade do lugar em si,
isto é, ao conjunto de características atribuídas ao lugar. Partindo da crítica à noção de
identidade descontextualizada (disembodied identity) das teorias do self e do auto-conceito, os
autores propuseram que os cenários físicos constituem parte inerente de qualquer contexto de
socialização e consequentemente exercem influência sobre a construção da identidade do
indivíduo. Na sua perspectiva, “o sentimento subjectivo de self é definido e expresso não
apenas pela relação do próprio com outras pessoas, mas também pelas relações do próprio
com os diversos cenários que definem e estruturam a vida quotidiana” (Proshansky et al.,
e Altman, 1992).
Identidade associada ao lugar 12
1983, p.58). Os autores conceptualizam a identidade associada ao lugar como “as dimensões
do self que definem a identidade pessoal do indivíduo em relação ao ambiente físico através
de um padrão complexo de ideias, crenças, preferências, sentimentos, valores, objectivos,
capacidades e tendências comportamentais conscientes e inconscientes relevantes para esse
ambiente” (p. 155). Enquanto estrutura cognitiva, a identidade associada ao lugar é
equacionada como uma sub-estrutura de uma identidade mais geral, equivalente è identidade
de género e outras. Pressupondo que os lugares variam na sua capacidade de satisfazer os
desejos e necessidades biológicas, psicológicas, sociais e culturais dos indivíduos, Proshansky
e colaboradores afirmam que os indivíduos associam às suas vivências nos lugares valências
que tornam possível estruturar a identidade associada aos mesmos. A identidade associada ao
lugar é, assim, teorizada como uma construção pessoal do indivíduo, derivada da experiência
quotidiana com o ambiente físico, que ultrapassa o mero sentimento de pertença ou ligação
emocional a determinados lugares, como proposto anteriormente pelos geógrafos humanistas.
Embora assumam que os outros indivíduos são importantes na modelação da identidade local
do indivíduo, o modelo que apresentam tem uma ênfase claramente cognitivista e individual.
De acordo com Proshansky e colaboradores (1983), a identidade associada ao lugar
desempenha cinco funções, nomeadamente: (a) função de reconhecimento, que fornece
informação acerca do passado ambiental do indivíduo; (b) função de atribuição de significado,
que dá indicações sobre como actuar no cenário físico em causa; (c) função de expressão,
relativa à moldagem do ambiente pelo indivíduo; (d) função de mediação da mudança,
atinente ao grau em que o ambiente pode ser apropriado; e (e) função de defesa da ansiedade,
que garante ao indivíduo um sentimento de segurança.
Apesar da sua importância para a teorização do constructo de identidade associada ao
lugar, o modelo proposto por Proshansky e colaboradores tem sido alvo de algumas críticas,
nomeadamente por não adiantar qualquer informação relativamente aos processos subjacentes
Identidade associada ao lugar 13
à formação e manutenção da identidade associada ao lugar (cf. Korpela, 1989) e por
equacionar a identidade associada ao lugar enquanto construção individual negligenciando a
sua componente social e cultural (cf. Lalli, 1992; Altman e Low, 1992).
Um outro contributo importante para a compreensão da identidade associada aos
lugares foi dado por Lalli (1988, 1992), que veio salientar precisamente a sua dimensão
social. Defendendo que a identidade se pode relacionar com espaços situados em diferentes
pontos de um continuum micro-macro espacial (e.g. da casa ao continente inteiro), e que a
especificação do nível estudado é vital para a construção de uma teoria apropriada da
identidade, optou por fazer referência às cidades aquando da contextualização da identidade.
Neste sentido, o seu trabalho centrou-se sobre aquilo que designou de identidade urbana
(urban related identity), que considera ser “o produto de uma associação complexa entre o
self e o ambiente urbano”(p.294). Com base nos trabalhos de Graumann (1983, citado por
Lalli, 1992), estabelece que o desenvolvimento da identidade ocorre ao longo de três fases. A
primeira, que designa de processo de identificação, consiste na atribuição subjectiva de
determinadas propriedades aos lugares em resultado da experiência e da percepção de
semelhanças entre objectos, indivíduos, grupos e lugares. No caso concreto da cidade implica
a reconstrução subjectiva da mesma, isto é, a criação de uma imagem associada à cidade e aos
seus habitantes, com base em elementos como o nome do lugar, características de espaços
simbólicos, acontecimentos culturais, elementos geográficos e qualquer outra particularidade
que esteja associada ao lugar e lhe confira distintividade. Esta imagem é socialmente
partilhada, tem uma determinada valorização, e pode ou não ter uma correspondência com a
realidade, o que permite que, por exemplo, os habitantes de uma cidade industrial considerem
a mesma como “verde”. Embora não implique o desenvolvimento da identidade associada ao
lugar pelo indivíduo, esta primeira fase constitui uma base para a mesma. Para além deste
processo é necessário que decorram igualmente os processos de ‘identification with’ e ‘being
Identidade associada ao lugar 14
identified with’, mediante os quais o indivíduo se identifica com a cidade e constrói a sua
identidade com base na consciência da pertença a um grupo definido pela partilha de um
espaço, apropriando-se das características que lhe são atribuídas.
Para o autor, a identidade urbana desempenha duas funções, permitindo, por um
lado, ao indivíduo diferenciar-se de outros indivíduos e obter uma auto-estima positiva, e por
outro, manter um sentimento de continuidade temporal. No primeiro caso, a identidade urbana
permite ao indivíduo que, enquanto residente de determinada localidade, integre determinadas
características associadas à mesma no seu auto-conceito e se distinga dessa forma dos
indivíduos que não residem na mesma. Uma vez que a imagem da localidade é uma
construção subjectiva dos indivíduos ou grupos, e se encontra na maioria das situações
enviesada favoravelmente, possibilita ainda que o indivíduo mantenha uma auto-estima
positiva. No segundo caso, a cidade pode se tornar um símbolo das experiências pessoais,
funcionar como pista para o passado individual e fornecer consequentemente um sentimento
subjectivo de continuidade ao indivíduo, independente das experiências quotidianas.
Em colaboração com outros investigadores, Lalli desenvolveu uma escala de
identidade urbana destinada a quantificar os níveis de identidade urbana, operacionalizada em
cinco dimensões: (a) avaliação externa, relativa à função de self-enhancement dos residentes;
(b) continuidade com passado pessoal, que avalia a importância do ambiente urbano para o
sentimento subjectivo de continuidade com passado; (c) ligação geral, que aponta para o
sentimento geral de pertença ao lugar ou enraizamento; (d) compromisso, que avalia a
importância percebida da cidade para o futuro do indivíduo; e, finalmente (e) percepção de
familiaridade, que cobre os efeitos das experiências diárias na cidade, e se assume como uma
expressão de uma orientação cognitiva eficiente. Os resultados obtidos a partir da sua
aplicação em vários estudos confirmam a importância que os lugares, mais especificamente as
Identidade associada ao lugar 15
cidades, têm para o desenvolvimento e manutenção da identidade pessoal do indivíduo (Lalli,
1988; Lalli e Thomas, 1988, 1989 citados por Lalli, 1992).
Na mesma linha de tentar compreender os aspectos sociais da identidade associada
ao lugar, têm sido feitas adaptações quer das teorias da identidade social e auto-categorização
social (Tajfel, 1978, 1981; Tajfel e Turner, 1979; Turner, 1987) quer da teoria dos processos
identitários (Breakwell, 1986, 1992,1993, 2001) para o contexto ambiental, que merecem
referência.
Segundo as teorias da identidade e auto-categorização social decorrentes dos
trabalhos de Tajfel e Turner sobre grupos humanos, os indivíduos desenvolvem uma
identidade social com base nos grupos sociais a que pertencem. Esta identidade social pode
ser definida como “os aspectos do auto-conceito de um indivíduo baseados no seu grupo
social ou pertença a uma categoria, junto com os correlatos emocionais, avaliativos e outros,
isto é, o self definido como masculino, europeu, londrino, etc.” (Turner, 1987, p.29).
Turner (1987) defende que os níveis de identidade social podem variar entre níveis mais
específicos (e.g. identidade associada ao lugar) a níveis mais inclusos ou abstractos (e.g.
identidade nacional), sendo que cada nível de identidade pode mediar as percepções e
julgamentos ocorridos no mesmo. Desta forma, a identidade associada ao lugar é
conceptualizada como uma sub-estrutura da identidade social do indivíduo, constituída por
aspectos do auto-conceito baseados na sua pertença a grupos definidos geograficamente.
Encontra-se por detrás desta concepção a ideia de que o ambiente pode ser visto como uma
categoria social, como um produto social resultante da interacção entre as pessoas que o
partilham e não apenas como um mero cenário físico onde essa interacção ocorre ( Valera,
1994). Enquanto sub-estrutura da identidade social, pressupõe-se que os princípios e
estratégias utilizadas em relação à identificação com o lugar são semelhantes às utilizadas no
caso da identificação social com um grupo (e.g. Hogg e Abrams, 1988; Hogg, 1992, citados
Identidade associada ao lugar 16
por Bonaiuto, Breakwell e Cano, 1996). Desta forma, sempre que os diversos aspectos do
ambiente forem, de algum modo, importantes para a auto-identificação dos indivíduos, estes
poderão aplicar os processos sócio-cognitivos e psicossociais que são despoletados pelos
estímulos sociais tradicionalmente relevantes para a identidade social, nomeadamente
enviesamentos na percepção e avaliação de características do ambiente relevante para o auto-
conceito e identidade social. Os estudos de Cortês e Aragonés (1991) e de Aragonés,
Corraliza, Cortês e Amérigo (1992), sobre percepção do território e identidade social,
desenvolvidos em duas regiões agrárias da Comunidade de Madrid, mostram que as pessoas
se identificam com o ambiente a vários níveis (ex.: identidade social madrilena e identidade
social castelhana), e que este funciona como uma categoria social. Bonaiuto e colaboradores
(1996) desenvolveram um estudo sobre a influência da identidade associada ao lugar e do
nacionalismo sobre a percepção de qualidade ambiental. Os autores constataram que os
residentes com maiores níveis de identificação com o lugar percepcionavam as praias locais
como menos poluídas do que os residentes com menores níveis de identidade associada ao
lugar, registando-se o mesmo padrão de resultados no que se refere à relação entre níveis de
nacionalismo e percepção da poluição das praias nacionais. Face a estes resultados, os autores
concluíram que o ambiente em que as pessoas vivem e ao qual pertencem pode ser
considerado como parte do seu auto-conceito, uma vez que é tratado de acordo com o mesmo
tipo de princípios que operam geralmente para outros aspectos da identidade do indivíduo,
nomeadamente enviesamento ou favoritismo pelo endogrupo.
A teoria dos processos identitários desenvolvida por Breakwell
(1986,1992,1993,2001) salienta a natureza eminentemente social dos processos identitários. A
teoria propõe que a estrutura da identidade é um produto social dinâmico resultante da
interacção entre as capacidades de memória, consciência e organização do constructo
(características dos organismos biológicos), as estruturas físicas e sociais, e os processos de
Identidade associada ao lugar 17
influência que constituem o contexto social. A estrutura da identidade pode ser descrita em
dois planos: dimensão de conteúdo e dimensão avaliativa. A dimensão de conteúdo consiste
nas características que definem a identidade ou, de outra forma, nas características que o
indivíduo considera que o descrevem e que, no seu conjunto, o tornam uma pessoa única.
Mesmo que muito dos elementos da dimensão de conteúdo sejam partilhados com outras
pessoas, o seu arranjo será sempre específico e distintivo do indivíduo. A organização destes
conteúdos é dinâmica e altera-se de acordo com o contexto social na qual a identidade é
situada, podendo ser caracterizada tendo em conta a força das relações entre os conteúdos e a
sua centralidade ou saliência. Cada elemento de conteúdo tem um valor/afecto positivo ou
negativo associado, que é atribuído com base nas crenças e valores sociais em interacção com
valores pessoais previamente estabelecidos, que constitui precisamente a dimensão avaliativa.
Esta encontra-se constantemente sujeita a revisões em consequência de mudanças nos
sistemas de valores pessoais e sociais. A estrutura da identidade é regulada por processos
dinâmicos de acomodação, assimilação e avaliação. A assimilação refere-se ao modo através
do qual os novos elementos são integrados na estrutura da identidade, enquanto que a
acomodação se prende com os ajustamentos que ocorrem na estrutura existente para permitir a
inclusão dos novos elementos. Quanto ao processo de avaliação, consiste na alocação de
significado ou valor aos conteúdos, novos e velhos, da identidade. Verifica-se assim que, na
perspectiva da autora a estrutura da identidade é fluída, dinâmica e reage ao seu contexto
social.
De acordo com a autora, os processos identitários mencionados são guiados por
princípios que definem o estado desejável para a estrutura da identidade. Breakwell (1986)
propôs inicialmente a existência de três princípios de identidade distintos, a saber
distintividade, continuidade e auto-estima, tendo posteriormente em 1992 acrescentado um
quatro princípio, o da auto-eficácia.
Identidade associada ao lugar 18
O princípio da distintividade, refere-se ao desejo de manter uma distintividade
pessoal ou singularidade. No caso da identidade associada ao lugar está relacionado com a
percepção dos aspectos únicos da localidade (e.g. em termos físicos, ambientais, de serviços,
estilo de vida ou características das pessoas), que permitem distingui-la positivamente de
outras. Existem evidências de que os lugares podem funcionar de forma similar a uma
categoria social. Nesse sentido, as identificações com o lugar podem ser pensadas como
comparáveis às identificações sociais. Desta forma, possibilitam aos seus residentes a
aquisição de determinadas características simbólicas que lhes permite distinguir-se dos não
residentes, ideia também presente na já abordada perspectiva de Lalli (1992).
O princípio da continuidade constitui um segundo motivador da acção, sendo
definido como o desejo de manter a continuidade ao longo do tempo e situação, ou de outra
forma, entre auto-conceitos passados e presente. Num desenvolvimento feito à sua teoria,
Twigger-Ross e Uzzell (1996) sugeriram a existência de dois tipos distintos de continuidade,
nomeadamente a continuidade referente ao lugar, em que os lugares servem como forma de
ligação ao passado individual e do grupo funcionando como pistas ou ajudas para a memória,
e a continuidade congruente com o lugar, em que o indivíduo procura estabelecer-se em
lugares com características semelhantes às suas ou moldar o ambiente de forma ao mesmo se
aproximar destas. Embora estas relações não sejam mutuamente exclusivas é sugerido que
elas estão relacionadas com padrões distintos de residência (Feldman, 1990; Rowles, 1983).
O princípio da auto-estima, refere-se à avaliação positiva do self ou do grupo de
pertença, estando relacionado com o sentimento de valor que é atribuído ao mesmo. O desejo
de manter uma concepção positiva do self tem sido vista como motivo central para a acção
por muitos teóricos da identidade, nomeadamente por Tajfel e Turner (1979). No que toca ao
ambiente, implica a avaliação positiva do self através da pertença a um lugar e a assimilação
de características atribuídas ao mesmo. Korpela (1989), num estudo qualitativo acerca da
Identidade associada ao lugar 19
identidade associada ao lugar enquanto produto da auto-regulação ambiental do indivíduo,
demonstrou que os lugares favoritos, para além de desempenharem uma função reguladora do
stress e contribuirem para a continuidade do auto-conceito, favorecem o aumento dos níveis
de auto-estima em crianças. Outros estudos mostram que ao viver numa cidade histórica as
pessoas podem sentir orgulho por associação (Lalli, 1992; Uzzell, 1995, citado por Twigger-
Ross e Uzzell, 1996). No entender de Twigger-Ross e Uzzell (1996) esta ocorrência difere da
realização de simples avaliações positivas do lugar (e.g. gosto de X), dado que sugere que a
pessoa ganha um aumento da sua auto-estima a partir das qualidades do meio (e.g. viver em X
faz-me sentir bem comigo mesmo).
O último princípio proposto por Breakwell refere-se à auto-eficácia e prende-se com
as crenças do indivíduo relativamente à sua capacidade de gerir e responder às exigências
situacionais, e à medida em que o ambiente satisfaz as suas necessidades. Nas situações em
que a auto-eficácia é nula, isto é, em que os constrangimentos associados ao ambiente são de
tal modo elevados que não permitam aos sujeitos levar a cabo as suas actividades, a
identidade do sujeito pode ser comprometida. O mesmo ocorre se qualquer um dos outros
princípios for comprometido. Twigger-Ross e Uzzell (1996) confirmam este facto tendo os
participantes do seu estudo indicado como constrangimentos à sua relação com o ambiente
aspectos como a criminalidade, a poluição sonora e atmosférica.
A teoria dos processos identitários tem sido utilizada como enquadramento teórico na
realização de diversos estudos, que comprovam a sua aplicabilidade ao estudo da identidade
associada ao lugar. Twigger-Ross e Uzzell (1996) num estudo efectuado sobre identidade
associada ao lugar numa zona submetida a mudanças sociais, económicas e ambientais,
verificaram que os sujeitos discutiam a sua relação com o ambiente de forma diferente em
função do seu grau de identidade. Mais concretamente, os indivíduos identificados com o seu
ambiente falavam no mesmo de um forma que apoiava os princípios identitários propostos por
Identidade associada ao lugar 20
Breakwell, o mesmo não se passando com os sujeitos pouco identificados. Da mesma forma,
Speller, Lyons e Twigger-Ross (1996) num estudo sobre o impacto do realojamento de uma
comunidade mineira, constataram que a avaliação das mudanças no ambiente divergiam
conforme as mesmas eram percepcionadas ou não como uma ameaça à identidade e conforme
os princípios identitários ameaçados. Devine-Wright e Lyons (1997) num estudo realizado
sobre a importância dos monumentos históricos para a construção da identidade irlandesa,
constataram que os mesmos, através dos significados que lhe são associados por diversos
grupos, contribuem para a manutenção de uma identidade nacional positiva e distinta e
fornecem um sentido de continuidade com o passado.
Dos contributos até ao momento apresentados, destacam-se três pontos:
(a) a identidade associada ao lugar pode ser genericamente definida como uma sub-
estrutura da identidade pessoal do indivíduo, construída com base na assimilação de
características atribuídas individual, social e culturalmente aos lugares;
(b) implica dessa forma a construção de uma imagem acerca do lugar, assente
nomeadamente nas características físicas, estilo de vida, serviços e infra-estruturas que
disponibiliza e nas características dos seus habitantes. Enquanto construção subjectiva implica
uma determinada valorização do lugar (positiva ou negativa) e pode não corresponder
necessariamente à realidade, sendo influenciado por vários processos sócio-cognitivos;
(c) a identificação do indivíduo com os lugares permite-lhe distinguir-se de outros,
manter um sentido de continuidade, de auto-estima e auto-eficácia positiva; caso tal não se
verifique, o indivíduo pode sentir a sua identidade ameaçada.
Embora a investigação empírica sobre identidade associada ao lugar realizada até à
data não seja extensa, existe suporte empírico quanto à influência da força da identidade
associada ao lugar sobre as percepções (e.g. Bonaiuto et al., 1996; Lalli, 1988, 1992), atitudes
(e.g. Lalli e Thomas, 1988, 1989, citados por Lalli, 1992; Lima, 1994, 1997 citada por
Identidade associada ao lugar 21
Lima,1998) e opções comportamentais dos indivíduos face ao seu ambiente (e.g. Nordenstam,
1994, citado por Bonaiuto et al., 1996), bem como quanto à sua importância para o bem estar
dos mesmos (e.g. Lima e Palma-Oliveira, 2001). A maioria destes estudos assume uma
perspectiva quantitativa, preocupando-se essencialmente com a medição do grau de identidade
global manifestado pelos sujeitos, recorrendo a operacionalizações e instrumentos diversos
(cf. Lalli, 1992), e a analisar posteriormente a sua relação com outras variáveis. Pouca atenção
tem sido dada ao estudo do papel dos conteúdos identitários subjacentes à identidade
associada ao lugar, dimensões da identidade que integram as propriedades e características
que definem a própria identidade conforme salientado por Breakwell (1986,1992,1993, 2001).
Os estudos de Lima (1999), Bonaiuto, Aiello, Perugini, Bonnes e Ercolani (1999) e Gustafson
(2001), embora não directamente direccionados pelos autores para esta questão, merecem
alguma atenção na medida em que os seus resultados são sugestivos e podem ser transferidos
analogicamente para este campo. Lima (1999) demonstrou empiricamente num estudo sobre
percepção de riscos associados à construção de uma incineradora, que subjacente ao mesmo
grau de identidade associada ao lugar podem existir concepções diferentes da localidade,
construídas a partir da valorização de diferentes características e qualidades do lugar, que
podem determinar, por sua vez, as atitudes e opções comportamentais dos residentes.
Concretamente, a autora verificou que entre residentes com o mesmo grau de identidade
existiam dois tipos de conteúdos identitários, rural vs. industrial, e que estes se relacionavam
de forma diferente com a percepção do risco associado à construção de uma incineradora.
Enquanto a identidade associada ao lugar edificada com base numa representação rural da
localidade se relacionava significativa e negativamente com a percepção de riscos, a
identidade associada ao lugar consubstanciada numa visão industrial não apresentava qualquer
relação significativa com a percepção de risco. Neste caso, a simples medição do grau de
identidade não bastava para a compreensão das posições dos residentes, sendo o
Identidade associada ao lugar 22
conhecimento dos seus conteúdos imprescindível. Em nosso entender, tal reforça a
importância de se encetar estudos que permitam identifica-los.
O estudo de Bonaiuto e colaboradores (1999), por seu turno, foi desenvolvido com o
objectivo de analisar a relevância da satisfação residencial para o desenvolvimento da ligação
ao lugar. Na medida em que definem a ligação ao lugar como a “relação global entre a
identidade da pessoa e as avaliações afectivas do seu ambiente” (p.333) e operacionalizam a
satisfação residencial enquanto percepção de qualidade ambiental, considera-se que pode ser
re-interpretado extensivamente como um estudo sobre a relevância da percepção da qualidade
ambiental para a identidade associada ao lugar. Aplicaram, a uma amostra de habitantes de
Roma, 20 escalas sobre arquitectura e planeamento (e.g. beleza estética dos edifícios, volume
excessivo dos edifícios, contraste estético entre construções, funcionalismo interno da cidade,
espaços verdes ), características das relações sociais (e.g. características dos residentes,
presença de relações sociais), serviços (e.g. serviços de saúde, assistência social a idosos,
educação, desporto) e características do contexto (e.g. estilo de vida, tranquilidade, poluição,
preservação do espaço público). A partir dos resultados obtidos concluíram que as dimensões
utilizadas são importantes para prever a ligação ao lugar e que existe uma hierarquia no poder
preditivo das mesmas, assumindo as características do contexto e as características sociais
maior importância comparativamente com as características arquitectónicas e de planeamento
e os serviços. Neste sentido, é possível concluir que as diferentes dimensões de avaliação do
ambiente, que interpretamos como possíveis dimensões de conteúdos identitários, determinam
de forma diferente a relação que se estabelece entre o indivíduo e o seu ambiente.
Gustafson (2001) desenvolveu um estudo bastante interessante sobre os significados
dos lugares. A partir da análise de significados espontaneamente atribuídos a lugares
considerados importantes pelos sujeitos, constatou que os mesmos podiam ser mapeados em
torno de três pólos que designou de Eu, Outros e Ambiente. O primeiro pólo compreende
Identidade associada ao lugar 23
significados derivados de memórias e experiências pessoais (e.g. trajecto de vida, raízes,
sentimentos, actividades). O segundo pólo compreende significados atribuídos com base nas
características, traços e comportamentos percebidos dos habitantes, baseados muitas das vezes
em estereótipos. O terceiro pólo inclui significados atinentes às características físicas,
históricas, institucionais e geográficas dos lugares (e.g. localização, centralidade, clima). Para
além disso, constatou que outros significados poderiam ser mapeados entre os pólos, por
exemplo, relações sociais e de vizinhança entre os pólos Eu e Outros; temas que discutem o
clima social e a atmosfera no lugar entre os pólos Outros e Ambiente; significados baseados
no conhecimento formal e informal do indivíduo acerca do lugar (e.g. geografia, história,
familiaridade) em torno dos pólos Eu e Ambiente; e, finalmente, alguns temas entre todos os
pólos (e.g. cidadania, tradições, participação social em instituições locais). Para além do
amplo número de significados que os lugares podem ter para diferentes pessoas, constatou que
os significados atribuídos aos lugares divergiam com alguma coerência conforme a dimensão
dos mesmos. Basicamente, aos lugares de menor dimensão (e.g. residências, bairros, vilas ou
pequenas cidades) eram atribuídos muitas vezes significados situados nos pólos Eu, Eu e
Outros e Eu e Ambiente, que implicam uma referência directa à pessoa; aos lugares de maior
dimensão (e.g. cidades grandes, regiões, continente) eram atribuídos com maior frequência
significados situados nos pólos Outros e Ambiente sem referência directa ao sujeito. Estes
resultados alertam, em nossa opinião, para o facto de que subjacente à identidade com locais
de diferente dimensão poderão se encontrar conteúdos identitários diferentes.
Esta questão encontra-se, todavia, pouco explorada em termos empíricos, apesar de
Altman e Low (1992) entre outros autores, terem afirmado há sensivelmente uma década que
os lugares a que as pessoas se ligam e identificam variam em escala, especificidade e
tangibilidade. A maioria dos estudos efectuados sobre identidade associada ao lugar focam-se,
primordialmente, sobre o significado que determinados contextos físicos têm para o
Identidade associada ao lugar 24
desenvolvimento e manutenção da identidade do sujeito (e.g. casa, local de trabalho, escola,
bairro, cidade), sendo pouco os que analisam a relevância de diferentes espaços físicos em
simultâneo. O estudo de Cuba e Hummon (1993) constitui uma excepção nesta matéria, tendo
os autores constatado que os sujeitos se identificam, embora em graus diferentes, com vários
espaços em simultâneo (residência, cidade e região), e que a identificação com cada um dos
lugares é determinada por diferentes conteúdos afiliativos resultantes da interpretação do lugar
e das experiências no mesmo. Recentemente, também Hidalgo e Hernadéz (2001) estudaram
a questão da ligação a diferentes espaços (residência, bairro e cidade), introduzindo duas
dimensões de ligação ao lugar: ligação física (relacionada com a mudança de ambiente físico
e manutenção do ambiente social: como se sentiria o sujeito se mudasse de residência
acompanhado pelas pessoas que o rodeiam) e ligação social (relacionada com a mudança de
ambiente social e manutenção do ambiente físico: como se sentiria o sujeito se as pessoas que
o rodeiam mudassem de residência, mas ele permanecesse no lugar). Os resultados relativos à
identificação com vários locais vão no sentido dos de Cuba e Hummon (1993). Relativamente
às dimensões da ligação, mostram que a ligação física é mais forte quando o foco de ligação é
a cidade, enquanto que a ligação social é mais forte quando o foco de ligação é a residência.
Na nossa perspectiva, este resultado sugere que a identificação com um lugar de menor
dimensão poderá resultar da avaliação dos seus aspectos e características sociais, enquanto
que a identificação com um lugar maior dimensão poderá ter subjacente uma avaliação mais
genérica, orientada para as características físicas do lugar, nomeadamente as apontadas por
Bonaiuto e colaboradores (1999).
Tendo por base a revisão de literatura efectuada, considera-se então que a análise dos
conteúdos e significados que subjazem à identificação dos indivíduos com o seu ambiente é
vital para a compreensão da relação que entre estes se estabelece. Da mesma forma,
considera-se pertinente analisar a existência de diferenças nos conteúdos identitários quer em
Identidade associada ao lugar 25
função do grau de identificação local dos sujeitos, quer em função da dimensão do próprio
lugar. Face à negligência a que estas questões têm sido votadas pela literatura, estabelece-se,
como objectivo central deste projecto, o estudo dos conteúdos subjacentes à identidade
associada ao lugar e a análise da relação existente entre este, o grau de identidade reportado
pelos sujeitos e a dimensão dos locais de identificação. Para além disso, e na medida em que
existe, por um lado, um conjunto de estudos que constatam a existência de uma relação
positiva entre a identidade associada ao lugar reportada pelos indivíduos e a percepção da
qualidade do ambiente local (e.g. Bonaiuto et al., 1996; Lalli e Thomas, 1998, 1999 citados
por Lalli, 1992), e por outro, o estudo de Lima (1999) demonstra que conteúdos identitários
diferenciados se encontram associados de forma distinta à percepção de riscos, estabelece-se
ainda como objectivo deste projecto analisar em que medida o grau de identidade associada ao
lugar e os conteúdos identitários se encontram relacionados com a percepção da qualidade
ambiental do lugar, procurando nomeadamente determinar o seu valor preditivo.
Sistematizando, os objectivos do presente projecto de investigação são:
1. Identificar os conteúdos identitários subjacentes à identidade associada ao lugar;
2. Analisar em que medida o grau de identidade associada ao lugar difere em função da
dimensão da localidade em que os indivíduos residem;
3. Analisar em que medida os conteúdos identitários diferem em função da força
identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade em que os indivíduos residem;
4. Analisar em que medida a qualidade ambiental percebida é influenciada pela força da
identidade associada ao lugar e pela dimensão da localidade em que os indivíduos
residem;
5. Analisar em que medida o grau de identidade associada ao lugar e os diferentes
conteúdos identitários se encontram relacionados com a percepção da qualidade
ambiental local.
Identidade associada ao lugar 26
6. Analisar em que medida conteúdos identitários diferem na sua capacidade de prever a
qualidade ambiental percebida de indivíduos com diferentes níveis de identidade
associada ao lugar.
De forma a cumprir os objectivos estabelecidos, foi desenvolvido um plano de
trabalho que englobou a realização de dois estudos de natureza exploratória. No Estudo 1,
recorrendo a uma metodologia qualitativa, procurou-se identificar os conteúdos identitários
subjacentes à identidade associada ao lugar. A recolha de informação acerca da dimensão das
localidades com as quais os sujeitos expressaram a sua identidade e do grau de identidade
associada ao lugar permitiu desenvolver algumas análises quanto à relação entre estas
variáveis e os conteúdos identitários. Com base nos conteúdos identitários identificados neste
estudo, foi construída uma escala de conteúdos identitários aplicada no Estudo 2. Este estudo
visou analisar a estrutura dos conteúdos identitários e a sua relação com o grau de
identificação dos sujeitos e com a dimensão da localidade de residência, bem como responder
aos objectivos estabelecidos para a análise da relação entre qualidade ambiental percebida e as
restantes variáveis em estudo, assumindo uma natureza correlacional. Nas páginas seguintes
apresenta-se com detalhe os estudos efectuados e sintetizam-se os principais achados. No final
da exposição, apresentam-se as considerações e conclusões gerais do projecto.
Identidade associada ao lugar 27
ESTUDO 1
Objectivos
O presente estudo teve como objectivo principal identificar os conteúdos identitários
subjacentes à identidade associada ao lugar, tendo em conta nomeadamente o grau de
identidade associada ao lugar e a dimensão da localidade objecto de identificação.
Método
Sujeitos
Pretendeu-se neste estudo obter a colaboração de indivíduos provenientes de
localidades de diferente dimensão, mais concretamente de cidades, vilas e aldeias diferentes.
Tendo em conta a diversidade de localidades de onde os estudantes universitários provêem,
optou-se por recorrer à sua colaboração. Para além das questões de conveniência na recolha de
dados, adiante-se que os estudantes universitários constituem um grupo que se encontra num
momento transaccional das suas vidas, em que a mudança de residência e o corte de antigas
relações está mais saliente, o que facilita a reflexão e pensamento necessário ao
desenvolvimento da consciência de ligação ao lugar (McAndrew, 1998).
Participaram no presente estudo 110 estudantes dos 1.º e 2.º anos da licenciatura em
Psicologia, de duas instituições do ensino superior de Lisboa, dos quais 7 foram
posteriormente excluídos da análise por não responderem às questões abertas (n= 4) ou por
indicarem como suas terras uma localidade não portuguesa (n= 3).
Os 103 sujeitos remanescentes são maioritariamente do sexo feminino (84,0%) e têm
idades compreendidas entre os 18 e os 36 anos (M= 21,5; DP= 3,99). A maioria dos mesmos
(54,4%) indicou uma cidade portuguesa como sendo a sua terra, 35,9% uma vila e 9,7% uma
Identidade associada ao lugar 28
aldeia. A maioria dos participantes reside actualmente na localidade por si indicada (63,4%),
embora não seja natural da mesma (55,7%).
De referir que, no conjunto, as respostas obtidas têm por base a referência a
localidades distribuídas geograficamente por todo o país, incluindo os arquipélagos da
Madeira e dos Açores, o que vai de encontro às pretensões iniciais (Anexo 1).
Instrumento e Procedimento
A recolha de dados foi realizada mediante a aplicação de um questionário construído
para o efeito. De referir que a primeira questão deste questionário solicitava ao sujeito que,
independentemente da localidade em que actualmente residia, indicasse a localidade que
considerava ser a sua terra. Após responder a esta questão, o sujeito eram solicitados a
responder às seguintes medidas:
Ligação ao lugar. A natureza da ligação do indivíduo à sua terra e os motivos
subjacentes à mesma foram identificados mediante as questões “Sente-se ligado à sua terra?”
(Sim, Não) e “Porquê?”.
Identidade associada ao lugar. A identidade associada ao lugar foi avaliada através de
dois tipos de medida, nomeadamente uma escala de identidade que permitiu quantificar o grau
de identificação com o lugar e um conjunto de questões de resposta aberta que permitiram
identificar os conteúdos simbólicos ou as dimensões de avaliação subjacentes a essa
identificação.
A escala de identidade associada ao lugar é composta pelos items “sinto que pertenço
a esse lugar”, “sinto-me orgulhoso por pertencer a esse lugar” e “gosto muito desse lugar” e
apresenta uma boa consistência interna (α=.87). A resposta aos items é dada numa escala de
cinco pontos, que varia entre 1 (discordo totalmente) e 5 (concordo totalmente), sendo que o
resultado da escala é dado pela média dos 3 items.
Identidade associada ao lugar 29
Através das questões de resposta aberta procurou-se identificar os conteúdos
identitários ou às dimensões de avaliação, acedendo à representação que os indivíduos
possuem da localidade. Foram colocadas sete questões abertas, sendo uma adaptada de
Krupat (1985/1999) e as restantes elaboradas tendo por base os princípios da identidade
propostos por Breakwell (1986, 1992, 1993, 2001). A questão adaptada do trabalho de Krupat
(1985/1999) permite aceder à representação geral da localidade: “Imagine que se encontra a
conversar com alguém que ainda não conhece a sua terra. Como descreveria a sua terra a essa
pessoa? Indique o maior número de características possível”. As restantes procuram obter
informação acerca das características únicas da localidade e dos seus habitantes ( “Considera
que a sua terra possui características únicas que a tornam diferente das outras localidades? Se
sim, quais?”; “Considera que os mesmos [habitantes] possuem características únicas que os
tornam diferentes dos habitantes de outras localidades? Se sim, quais?”), recordações
associadas à terra ( “Tem recordações do seu passado que estejam intimamente ligadas à sua
terra? Dê alguns exemplos.”), vantagens e desvantagens associadas à mesma ( “Indique, por
favor, quais os aspectos da sua terra de que mais gosta.”; “ E quais os que menos gosta? ”) e
infra-estruturas, serviços e oportunidades a criar (“que condições gostaria que fossem ainda
criadas?”). De referir que as respostas relativas às recordações do passado foram
posteriormente excluídas da análise, por se verificar a existência de dificuldades na
compreensão da questão por parte dos sujeitos.
Caracterização sócio-demográfica. A este nível foram colocadas questões sobre o
sujeito (sexo, idade, habilitações académicas, naturalidade, local de residência actual, anos de
residência no mesmo) e sobre a localidade indicada (concelho a que pertence, dimensão –
aldeia, vila ou cidade).
Os questionários foram preenchidos individualmente pelos sujeitos em sala de aula,
após se ter obtido o seu consentimento relativamente à participação num estudo sobre a
Identidade associada ao lugar 30
opinião dos portugueses acerca das suas terras. De referir que a resposta ao questionário
oscilou entre os 10 e os 20 minutos.
Análise de Conteúdo
As respostas obtidas às questões abertas foram submetidas a uma análise de
conteúdo, uma técnica de investigação comum na investigação empírica (Vala, 1987), que de
acordo com Krippendorff (1980) “permite fazer inferências, válidas e replicáveis, dos dados
para o seu contexto” (p.21). Procurou-se através desta análise identificar os conteúdos
subjacentes à identidade associada ao lugar, ou de outra forma, as dimensões, motivos,
elementos ou características salientes para os indivíduos na avaliação da sua localidade. O
sistema de categorias utilizado foi totalmente construído a posteriori, através da leitura e
levantamento dos conteúdos contidos no corpus, definindo-se como unidade de registo o
tema. É constituído por 73 categorias, agrupadas em oito dimensões:
(a) Dimensão Social, que agrega oito categorias relacionadas com aspectos sociais
da relação do indivíduo com o meio, entre as quais a existência de Redes Sociais, Raízes e
Espírito de Comunidade;
(b) Caracterização dos Habitantes, que agrega nove categorias utilizadas para a
caracterização dos habitantes, das quais quatro são positivas ( e.g. Mentalidade Aberta,
Simpatia), quatro negativas (e.g. Mentalidade Fechada, Impessoalidade) e uma neutra
(Pronúncia Específica);
(c) Caracterização do Património Histórico e Cultural, que agrega cinco categorias
que permitem realizar a caracterização histórica e cultural da localidade, entre as quais os
Monumentos, Tradições e a Gastronomia;
Identidade associada ao lugar 31
(d) Caracterização do Património Natural, que agrega sete categorias referentes ao
património natural da localidade, entre as quais a Beleza da Paisagem, Proximidade com a
Natureza, Espaços Verdes Suficientes e Insuficientes;
(e) Caracterização do Ambiente Físico e Social, que agrega oito categorias que
permitem caracterizar o ambiente físico e social da localidade, entre as quais Avaliação
Positiva da Localidade, Qualidade Ambiental, Poluição, Bulício e Tranquilidade;
(f) Caracterização Económica, que agrega oito categorias relacionadas com a
caracterização económica da localidade, nomeadamente Desenvolvimento da Localidade,
Estagnação da Localidade, Maiores Oportunidades de Emprego, Menor Custo de Vida;
(g) Caracterização Sócio-Demográfica, que engloba nove categorias que permitem
caracterizar sócio-demograficamente a localidade, nomeadamente Pequena Dimensão,
População Jovem, Dormitório, Segurança, Diversidade/Heterogeneidade de Pessoas;
(h) Caracterização das Infra-Estruturas e Serviços Locais, que agrega 19 categorias
que permitem caracterizar as infra-estruturas e serviços locais a vários níveis incluindo a
saúde, o ensino, o trânsito, os transportes públicos, as infra-estruturas rodoviárias e
desportivas entre outras. No anexo 2 apresenta-se na íntegra o sistema de categorias utilizado.
De forma a garantir a exaustividade e exclusividade das categorias e
consequentemente a sua confirmabilidade, procedeu-se à realização do acordo interjuizes,
solicitando-se para tal a colaboração de um cotador independente que categorizou 177
unidades de análise, correspondentes a 14 questionários retirados aleatoriamente do corpus.
Obteve-se um K de Cohen de .90 para o conjunto das oito dimensões, valor considerado
excelente, mas que dada a natureza relativamente objectiva da categorização não se considera
surpreendente. Dado se ter verificado que as discordâncias ocorriam com maior incidência na
categorização de unidades relativas à Dimensão Social, e de forma a validar a mesma,
realizou-se um novo acordo apenas para a categorizarão destes itens, verificando-se a
Identidade associada ao lugar 32
existência de um K de Cohen de .72, inferior ao do sistema de categorias global, mas mesmo
assim considerado bom (Robson, 1993).
Após a análise de conteúdo, registou-se em base de dados a utilização de cada uma
das categorias por sujeito, criando-se uma matriz de presenças e ausências. De salientar, que
não se teve em linha de conta o número de vezes que cada categoria foi utilizada pelo sujeito,
mas apenas a sua utilização ou não, por parte deste, ao longo das respostas.
Identidade associada ao lugar 33
Resultados
Os dados recolhidos foram analisados com recurso à estatística descritiva univariada
(percentagem, média e desvio-padrão) e multivariada (análise de homogeneidade), bem como
à estatística indutiva (análise de variância e teste do χ2).
Quanto à ordem de apresentação, reportam-se em primeiro lugar os resultados
atinentes à identidade associada ao lugar e à sua relação com a dimensão das localidades.
Seguidamente expõe-se os resultados relativos aos conteúdos identitários, nomeadamente no
que se refere às categorias mais frequentes, diferenças na saliência das categorias em função
da dimensão da localidade e do grau de identidade dos sujeitos, forma como as categorias se
associam entre si e se localizam num espaço definido por duas dimensões e características da
amostra associadas às mesmas.
Identidade associada ao lugar
Constata-se que os sujeitos reportam uma forte identidade associada ao lugar (M=
4,18; DP= 0,76). Embora inicialmente se pretendesse comparar simultaneamente o grau de
identidade associada ao lugar e os conteúdos identitários associados a localidades de diferente
dimensão, concretamente a cidades, vilas e aldeias, o reduzido número de referências a
aldeias (n=10), levou a que se optasse por constituir apenas dois grupos, cidades (n= 56) e
vilas/aldeias (n=47), respectivamente. Através da realização de uma análise de variância,
procurou-se indagar a existência de diferenças significativas no grau de identidade associada
ao lugar apresentado por indivíduos que se referem a cidades e aqueles que se referem a
vilas/aldeias. O resultado obtido sugere que todos os sujeitos estão bastante identificados com
as suas terras, independentemente da sua dimensão, não tendo se verificando diferenças
significativas entre os grupos no grau de identidade reportado (F(1,102)=0,03, n.s.).
Identidade associada ao lugar 34
Conteúdos Identitários
A análise da frequência das categorias permitiu verificar grandes discrepâncias no
número de ocorrências das mesmas (mínimo1; máximo 63). As categorias Raízes (61,2%),
Tranquilidade (54,2%), Redes Sociais (52,2%) e Avaliação Positiva da Localidade (45,6%)
assumem um papel central na descrição das localidades, sendo referidas por mais de 45,0%
dos sujeitos como factores de ligação à terra. Outras categorias salientes são a Centralidade,
Espaços Verdes Suficientes, Praia e Mar, Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer,
Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer, Simpatia e Qualidade Ambiental, cujas frequências
oscilam entre os 30 e 20%. A tabela 1 apresenta as frequências das categorias com mais de 10
observações. O anexo 3 apresenta as frequências da totalidade das categorias identificadas.
De forma a verificar se existiam diferenças entre os conteúdos associados a
localidades de diferente dimensão, procedeu-se à realização de testes do qui-quadrado entre
cada categoria e a variável dimensão da localidade. Verificou-se a existência de diferenças
significativas entre as localidades em função da sua dimensão em apenas seis categorias,
assinaladas na tabela 1 a negrito, nomeadamente Tranquilidade (χ2(1)=4,68, p=.031),
Proximidade com a Natureza (χ2(1)=13,39, p=.000) e Espírito de Comunidade (χ2(1)=9,09,
p=.003) a favor das vilas/aldeias e Bulício (χ2 (1)=3,44, p=.05), Suficientes Espaços Verdes
(χ2(1)=7,03, p=.008) e Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer (χ2 (1)=3,78, p=.05) a favor
das cidades. Neste sentido, verifica-se que as cidades comparativamente com as vilas/aldeias
são vistas como localidades com um ritmo de vida mais agitado e menos tranquilo, onde o
espírito de comunidade e a proximidade com a natureza são menores, mas que oferecem aos
seus habitantes melhores ofertas culturais e de lazer e mais espaços verdes construídos,
compensando de certa forma os seus habitantes pela menor proximidade com a natureza.
Identidade associada ao lugar 35
Tabela 1. Frequência das categorias em função da dimensão da localidade: categorias com
mais de 10 observações.
Categoria Cidade (%)
Vila ou Aldeia (%)
Total (%)
Raízes 34(60,7) 29(66,7) 63(61,2) Tranquilidade * 25(45,0) 31(66,0) 56(54,4) Redes Sociais 26(46,4) 28(59,6) 54(52,4) Avaliação Positiva da Localidade 22 (39,3) 25(53,2) 47(45,6) Centralidade 17(30,4) 14(29,8) 31(30,1) Espaços Verdes Suficientes * 23(41,1) 8(17,0) 31(30,1) Praia e Mar 14(25,0) 15(31,9) 29(28,2) Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer *
19(33,9) 8(17,0) 27(26,2)
Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer
13(23,2) 11(23,4) 24(23,3)
Simpatia 12(21,4) 12(25,5) 24(23,3) Qualidade Ambiental 9(16,1) 12(25,5) 21 (20,4) Espírito de Comunidade * 4(7,1) 14(29,8) 18(17,5) Insegurança 11(19,6) 7(14,9) 18(17,5) Trânsito Elevado 13(23,2) 5(10,6) 18(17,5) Menores Oportunidades de Emprego 10(17,9) 7(14,9) 17(16,5) Beleza da Paisagem 10(17,9) 7(14,9) 16(15,5) Proximidade com a Natureza ** 2(3,6) 14(29,8) 16(15,5) Segurança 9(16,1) 7(14,9) 16(15,5) Tradições 10(17,9) 6(12,8) 16(15,5) Acessibilidade de Serviços 8(14,3) 7(14,9) 15(14,6) Espaços Verdes Insuficientes 5(8,9) 9(19,1) 14(13,6) Monumentos 8(14,3) 6(12,8) 14(13,6) Simplicidade 7(12,5) 7(14,9) 14(13,6) Passado Histórico 6(10,7) 6(12,8) 12(11,7) Bulício * 9(16,1) 2(4,3) 11(10,7) Falta de Privacidade 6(10,7) 5(10,6) 11(10,7) Infra-Estruturas Rodoviárias Insuficientes
9(16,1) 6(12,8) 11(10,7)
Património Arquitectónico 8(14,3) 3(6,4) 11(10,7) Clima 6(10,7) 4(8,5) 10(9,7) Infra-Estruturas de Ensino Insuficientes
7(12,5) 4(8,5) 10(9,7)
Poluição 8(14,3) 2(4,3) 10(9,7)
As categorias onde se verificam diferenças significativas entre localidades estão assinaladas a negrito: * p <.05, ** p<.000
Identidade associada ao lugar 36
Procurou-se também verificar a existência de diferenças na utilização das categorias
em função da identidade associada ao lugar reportada. Com base na média da amostra neste
indicador criaram-se dois grupos que se designaram de baixa (42,7%) e alta (57,3%)
identidade associada ao lugar. Os resultados dos testes do qui-quadrado efectuados entre os
níveis de identidade e as diversas categorias apuradas apresentam valores significativos
apenas nas categorias Qualidade Ambiental (χ2(1)=8,72, p= .003) e Espírito de Comunidade
(χ2 (1)=3,75, p= .05), revelando que os indivíduos mais identificados com a localidade
utilizam mais frequentemente estas categorias na descrição das suas terras, o que mostra que a
percepção de qualidade ambiental e de um espirito de comunidade forte está mais saliente
para os sujeitos que se identificam fortemente com as suas terras que para os que se
identificam menos com as mesmas.
Procurando perceber como se associam as diversas categorias apontadas pelos
sujeitos em referência às suas terras, procedeu-se à realização de uma análise de
homogeneidade (Homals). Note-se que, para esta análise, apenas foram utilizadas as
categorias com 10 ou mais ocorrências, as quais constam na tabela 1. Os resultados da
Homals são resumidos em duas dimensões, em que a primeira é mais explicativa do que a
segunda (valores próprios de 0,11 e 0,09 respectivamente), e que convergiu numa solução ao
fim de 12 iterações. A tabela 2 apresenta as medidas de discriminação e as coordenadas das
categorias nas dimensões.
As medidas de discriminação mostram que as categorias que mais contribuem para a
definição do primeiro eixo são as categorias Tranquilidade, Poluição, Bulício, Suficientes
Ofertas Culturais e de Lazer, Trânsito Elevado e Monumentos. Através das coordenadas das
categorias podemos verificar que a primeira dimensão opõe uma representação da localidade
assente na Tranquilidade a uma representação associada ao Bulício e à Poluição ambiental.
Identidade associada ao lugar 37
O segundo eixo é definido pelas categorias Acessibilidade de Serviços, Centralidade
e Passado Histórico e opõe uma visão mais prática/instrumental da localidade, assente
essencialmente na caracterização das infra-estruturas e serviços locais indispensáveis à vida
quotidiana, a uma visão essencialmente estética apoiada na beleza da paisagem e na riqueza
do seu passado histórico.
Tabela 2. Medidas de discriminação e coordenadas das categorias nas dimensões da Homals
Medidas de Coordenadas s discriminação nas dimensões s
Categoria Dimensão 1
Dimensão 2
Dimensão 1
Dimensão 2
Qualidade Ambiental ,051 ,057 -0,45 -0,47 Poluição ,407 ,003 1,95 0,17 Clima ,097 ,049 -0,95 -0,68 Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer
,289 ,050 0,90 -0,38
Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer
,064 ,033 -0,46 0,33
Bulício ,303 ,053 1,59 0,67 Tranquilidade ,463 ,009 -0,62 0,09 Avaliação Positiva da Localidade
,000 ,050 -0,02 -0,24
Segurança ,098 ,097 -0,73 0,73 Insegurança ,115 ,118 0,74 0,75 Menores Oportunidades de Emprego
,029 ,034 -0,39 -0,41
Redes Sociais ,078 ,003 -0,27 -0,05 Falta de Privacidade ,136 ,011 -1,07 -0,30 Raízes ,025 ,010 -0,13 0,08 Espírito de Comunidade ,174 ,005 -0,91 0,16 Simpatia ,078 ,079 -0,51 -0,51 Simplicidade ,088 ,030 -0,75 -0,44 Espaços Verdes Insuficientes ,001 ,144 -0,06 0,96 Centralidade ,000 ,329 0,03 0,87 Acessibilidade de Serviços ,065 ,485 0,62 1,69 Infra-estruturas Rodoviárias Insuficientes
,008 ,133 -0,22 0,88
Trânsito Elevado ,254 ,024 1,09 0,33 Infra-estruturas de Ensino Insuficientes
,009 ,076 0,28 0,80
Monumentos ,236 ,187 1,22 -1,09 Património Arquitectónico ,103 ,070 0,93 -0,77 Passado Histórico ,133 ,225 1,01 -1,31 Tradições ,008 ,053 -0,20 -0,54 Beleza da Paisagem ,056 ,195 0,55 -1,03 Proximidade com a Natureza ,056 ,102 -0,55 -0,74 Praia e Mar ,021 ,019 -0,23 0,22 Espaços Verdes Suficientes ,000 ,001 0,03 0,05
Identidade associada ao lugar 38
A observação mais cuidada dos quatro quadrantes resultantes do cruzamento das
duas dimensões identificadas revela a existência de quatro formas distintas de conceber as
localidades (Figura 1).
A primeira, resultante da intersecção dos pólos Tranquilidade e Visão
Prática/Instrumental, integra as categorias espírito de comunidade, praia e mar, segurança,
ofertas culturais e de lazer insuficientes, infra-estruturas rodoviárias insuficientes (estradas e
estacionamentos) e espaços verdes insuficientes.
A segunda, resultante da intersecção dos pólos Tranquilidade e Visão Estética,
integra as categorias avaliação positiva da localidade, simpatia, tradições, simplicidade, redes
sociais, clima, proximidade com a natureza, qualidade ambiental, falta de privacidade, uma
combinação que aponta para a localidade como, no fundo, um meio onde as pessoas e as
relações que se estabelecem entre estas assumem um papel central, embora alguns excessos
possam originar a falta de privacidade.
A terceira, resulta da intersecção dos pólos Bulício e Visão Prática/Instrumental,
reunindo as categorias acessibilidade de serviços, centralidade, insuficientes infra-estruturas
de ensino, insegurança, bulício, trânsito e poluição.
Por último, a quarta resulta da intersecção dos pólos Bulício e Visão Estética e
constitui essencialmente uma visão positiva da localidade, assente nas ofertas culturais e de
lazer suficientes, na riqueza de monumentos e do património arquitectónico local e na beleza
da paisagem.
Identidade associada ao lugar 39
Figura 1. Representação gráfica das categorias nas dimensões da Homals3
Para associar as características dos participantes às dimensões encontradas na
Homals calcularam-se, para cada indivíduo os scores em cada uma das dimensões. Deste
modo foi possível projectar as pertenças dos indivíduos no espaço definido pelos dois eixos.
A figura 2 apresenta as coordenadas das variáveis que apresentam diferenças significativas.
Assim, a primeira dimensão (Tranquilidade- Bulício) diferencia significativamente os
indivíduos com alta e baixa identidade associada ao lugar (F(1,102) = 5,25, p=.02), os
indivíduos que se referem a vilas/aldeias dos que se referem a cidades (F(2,102)= 6,73,
p=.002), e ainda, os que actualmente não residem na sua terra dos que presentemente o fazem
(F(1,100)= 13,86, p=.000). A segunda dimensão (Prática/Instrumental- Estética) apenas
3 IF= Infra-Estrutura; Suf.= Suficiente; Insuf.= Insuficiente; Av.Pos.= Avaliação Positiva; Qual.= Qualidade;
OP.= Oportunidade.
Raízes Praia e Mar
Qual.Ambiental
Av.Pos.Localidade Redes Sociais
Espaços Verdes Tranquilidade
Menor Op.Emprego Simplicidade
Simpatia Tradições Clima
Serviços
Beleza da Paisagem
Passado Histórico
Monumentos
Património Arquitectónico
Bulício
Poluição Trânsito Elevado
Ofertas Culturais Suf.
Insegurança Centralidade
IF.Ensino Insuf. IF.Rodoviárias Insuf.
Espaços Verdes Insuf.
Segurança Ofertas Culturais
Insuf.Espírito de Comunidade
Falta de Privacidade
Proximidade à Natureza
-1,5
-1,0
-0,5
0,0
0,5
1,0
1,5
2,0
-1,5 -1,0 -0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5
Quadrante 1
Quadrante 2 Quadrante 4
Quadrante 3
Identidade associada ao lugar 40
diferencia significativamente os indivíduos que actualmente não residem na sua terra dos que
presentemente o fazem (F(1,102)=11,92, p=.001), não se verificando diferenças entre
indivíduos que se referem a cidades, vilas e aldeias (F(2,102)=6,73, n.s.) nem entre indivíduos
com alta e baixa identidade associada ao lugar (F(1,102)=2,24, n.s.). Não foram encontradas
diferenças significativas no que se refere ao sexo dos sujeitos em nenhuma das dimensões
(F(1,99)= 2,27, n.s. e F(1,99)= 0,92, n.s., respectivamente).
Em suma, são os indivíduos que (a) vivem presentemente nas suas terras, (b)
referem-se a cidades, (c) e apresentam uma menor identidade associada ao lugar que
consideram que a sua terra apresenta mais características associadas ao bulício e à poluição,
por oposição aos sujeitos que (d) não vivem presentemente nas suas terras, (e) referem-se a
aldeias, e (f) apresentam uma maior identidade associada ao lugar, que consideram que a sua
terra é mais tranquila. Para além disso, são também os indivíduos que presentemente vivem
nas suas terras que estão mais atentos às questões práticas e funcionais da localidade,
relacionadas com a vida quotidiana, por oposição aos sujeitos que presentemente não vivem
nas suas terras, que possuem uma representação essencialmente estética da localidade, assente
nomeadamente na beleza da paisagem e na riqueza do património histórico, consequência
provável do distanciamento da realidade quotidiana local e da elaboração de uma visão
romanceada da localidade.
Identidade associada ao lugar 41
Figura 2 – Representação gráfica das características dos sujeitos nas dimensões da Homals
Analisando conjuntamente as figuras 1 e 2, e tendo em conta a dimensão da
localidade, observa-se que as aldeias estão posicionadas no Quadrante 2 (Tranquilidade-Visão
Estética), as vilas no Quadrante 1 (Tranquilidade-Visão Prática/Instrumental) e as cidades no
Quadrante 3 (Bulício- Visão Prática/Instrumental), o que corresponde amplamente à
representação geralmente partilhada pelo senso comum acerca destes locais. As aldeias
surgem então como os locais onde a tranquilidade, a proximidade com natureza e os aspectos
sociais da vida em comunidade assumem maior destaque, face à menor oferta de serviços e de
infra-estruturas locais. As cidades, por seu turno, são representadas como um meio agitado e
poluído em que a maior oferta de serviços e de infra-estruturas coexiste com problemas
ambientais e sociais. As vilas surgem, de certa forma, como ponte entre estes dois tipos de
localidade, apresentando a tranquilidade, o espírito de comunidade e a segurança como
principais características positivas, embora sejam salientes para os seus habitantes as
limitações existentes a nível de infra-estruturas e serviços locais.
Aldeia
Não vive na terra
Alta Identidade
Vila
Vive na terraBaixa Identidade Cidade
-0,6 -0,5 -0,4 -0,3 -0,2 -0,1
0 0,1 0,2 0,3
-1 -0,5 0 0,5
Identidade associada ao lugar 42
Conclusões
O presente estudo assumiu uma natureza qualitativa exploratória e teve como
principal objectivo identificar os conteúdos identitários subjacentes à identidade associada ao
lugar. A análise dos mesmos teve em linha conta a dimensão da localidade e o grau de
identidade reportado pelos sujeitos. Foi também analisada a existência de diferenças entre o
grau de identidade dos indivíduos em função da dimensão da localidade, não se tendo
encontrado a este nível diferenças significativas.
Os resultados obtidos demonstram que os sujeitos atendem a diversos aspectos do
seu ambiente urbano para o caracterizar, nomeadamente a características da vida social, dos
habitantes, do património histórico- cultural, do património natural, do ambiente físico e
social, e ainda a aspectos económicos, sócio-demográficos e outros relacionados com as infra-
estruturas e serviços locais. Muitas das categorias expressas pelos sujeitos neste estudo são
semelhantes às dimensões de avaliação da qualidade residencial utilizadas por Bonaiuto e
colaboradores (1999) e aos significados dos lugares atribuídos pelos sujeitos de Gustafson
(2001), embora obedeçam a uma estruturação, por vezes, diferente. Neste sentido, as
categorias incluídas: (a) na dimensão infra-estruturas e serviços locais (e.g. serviços médicos
e educativos), (b) nas dimensões social (e.g. raízes, privacidade, redes sociais) e
características dos habitantes (e.g. simpatia, mentalidade aberta ou fechada), (c) na dimensão
relativa à caracterização do ambiente físico e social (e.g. tranquilidade, poluição), e (d)
património histórico-cultural (e.g. património arquitectónico, monumentos) e natural (e.g.
espaços verdes, beleza da paidagem) têm correspondência com as dimensões utilizadas por
Bonaiuto e colaboradores (1999) para avaliar a qualidade residencial percebida pelos
habitantes de Roma, designadamente (a) serviços, (b) relações sociais, (c) características do
contexto e (d) arquitectura e planeamento. Da mesma forma, os resultados do presente estudo
revelam que os motivos mais frequentemente apontados pelos sujeitos como factores de
Identidade associada ao lugar 43
ligação ao lugar são a existência de raízes e redes sociais, bem como o facto de considerarem
o lugar tranquilo e bonito, o que vai no sentido dos resultados encontrados por Bonaiuto e
colegas que apontam para uma maior importância dos aspectos sociais e de contexto,
comparativamente com as características arquitectónicas e os serviços locais, sobre a ligação
ao lugar. No que concerne ao estudo de Gustafson (2001) as semelhanças nos conteúdos ou
significados identificados são também visíveis. Categorias como a existência de raízes estão
presentes entre os temas mapeados em torno do pólo Eu; outras como aquelas referentes às
características dos habitantes, como a simpatia, estão presentes entre os temas mapeados em
torno do pólo Outros; e categorias como o clima, a poluição, a centralidade fazem parte dos
temas mapeados em torno do pólo Ambiente. Muitas das categorias extraídas da análise de
conteúdo realizada encontram-se também entre os temas mapeados em torno de mais do que
um destes pólos. Refira-se a titulo ilustrativo, apenas a categoria espírito de comunidade
situada entre os pólos Eu e Outros. No seu conjunto, a existência de similaridades entre os
conteúdos identificados no presente estudo, os de Bonaiuto e colaboradores (1999) e os de
Gustafson (2001) apontam para a existência de constância nas características e dimensões
com base nas quais as pessoas avaliam e edificam a sua identidade associada ao lugar.
Os resultados obtidos neste estudo revelam, ainda, que a multiplicidade de categorias
identificadas através da análise de conteúdo se associam com base em duas dimensões, que se
designaram de Tranquilidade- Bulício (opõe uma representação da localidade assente na
tranquilidade a uma representação associada ao bulício e à poluição ambiental) e Prática/
Instrumental – Estética (opõe uma representação assente essencialmente na caracterização das
infra-estruturas e serviços locais indispensáveis ao dia-a-dia a uma representação assente na
beleza da paisagem e na riqueza do passado histórico). A associação destas dimensões à
própria dimensão das localidades revela que são as pessoas que se identificam com cidades
que se encontram mais atentas às questões práticas e funcionais, utilizando mais elementos
Identidade associada ao lugar 44
deste nível para caracterizar as suas terras do que aquelas que se identificam com vilas e
aldeias. No seu conjunto, os sujeitos possuem representações diferentes de cidades, vilas e
aldeias assentes em categorias distintas, representações essas que correspondem em larga
medida aquelas que são geralmente essas partilhadas pelo senso comum. Assim, as aldeias
são representadas como lugares tranquilos, próximos da natureza, nos quais os aspectos
sociais e comunitários assumem maior destaque. As cidades, pelo contrário, são representadas
como meios agitados e poluídos em que a maior oferta de serviços e infra-estruturas locais
coexiste com problemas sociais e ambientais. As vilas surgem como lugares intermédios,
como uma ponte entre os dois mundos, apresentando a tranquilidade, o espírito de
comunidade e a segurança como principais atractivos, e limitações a nível das infra-estruturas
e serviços locais como aspectos a melhorar. Em nosso entender, estes resultados vão no
sentido da tendência identificada por Gustafson (2001) para se atribuírem significados
diferentes aos lugares em função da sua dimensão. Tal como sugerido pelo autor, as
características atribuídas aos lugares de maior dimensão, neste estudo às cidades, têm
essencialmente a ver com aspectos em que o indivíduo não controla ou não intervém
directamente, como é o caso dos diversos serviços e infra-estruturas existentes, a poluição e a
insegurança (pólo Ambiente), enquanto que as características atribuídas aos lugares de menor
dimensão, neste estudo às aldeias, encontram-se mais fortemente relacionadas com aspectos
em que o indivíduo participa e tem uma intervenção directa, como é o caso das redes sociais,
da privacidade e do espírito de comunidade (pólos Eu, Eu e Outros). No caso das vilas essa
atribuição não é tão linear, sendo atribuídos significados de todos os pólos. O facto das
representações dos três tipos de localidades englobarem tanto aspectos positivos como
negativos, mas não se encontrarem diferenças significativas no que toca à identidade
associada ao lugar que permanece bastante elevada ao longo da amostra, leva a que se
interprete os mesmos de acordo com Fried (1982, 2000). Segundo o autor, a maioria das
Identidade associada ao lugar 45
pessoas tem uma visão positiva dos locais em que vive porque se habitua ou se torna
insensível às fontes de insatisfação com o continuar da vivência no lugar. Saliente-se que não
é uma questão de ficar “cego à realidade” (a atribuição de características negativas os lugares
assim o comprova), mas de minimizar os aspectos negativos e valorizar os positivos, por
forma a apreciar favoravelmente o lugar de residência. Existe paralelamente um conjunto de
estratégias que permite moderar o impacto das fontes de insatisfação, como seja mudar as
condições da residência ou escolher as pessoas com quem se pretende interagir. Estes
processos de coping e adaptação ao meio residencial são bastante importantes, atendendo
nomeadamente ao facto da escolha do lugar de residência ser na maioria das vezes
condicionada por factores económicos e sociais que limitam a mobilidade residencial dos
indivíduos, e a incongruência ou insatisfação com o lugar de residência se poder traduzir em
problemas de saúde e bem estar psicológico (Stokols e Shumaker, 1985).
Outro aspecto interessante dos resultados obtidos neste primeiro estudo resulta da
associação das características dos sujeitos às dimensões que estruturam o conjunto global das
categorias identificadas. Em relação à dimensão Tranquilidade- Bulício, verifica-se que são os
sujeitos que vivem presentemente nas suas terras e também aqueles que apresentam uma
menor identidade associada ao lugar que consideram que as mesmas são mais poluídas e
agitadas, por oposição aos sujeitos que presentemente não vivem nas suas terras e aos sujeitos
com elevada identidade associada ao lugar que caracterizam as suas terras como mais
tranquilas. No que respeita à dimensão Prática/ Instrumental- Estética, constata-se que são os
sujeitos que presentemente vivem nas suas terras que estão mais atentos às questões práticas e
funcionais, por oposição aqueles que não vivem nas mesmas e que as caracterizam com base
na beleza da paisagem e na sua riqueza histórica. Estes resultados sugerem que o facto das
pessoas viverem ou não na localidade que consideram ser a sua terra traduz-se numa avaliação
qualitativamente diferente da mesma. As que vivem na sua terra estão mais atentas aspectos
Identidade associada ao lugar 46
específicos da sua experiência directa com o meio (e.g. poluição, serviços existentes),
enquanto que as que não residem nas suas terras as avaliam com base em aspectos ou
atributos gerais do lugar recorrendo às memórias que possuem do mesmo (e.g. beleza,
património histórico). Futuramente, será importante desenvolver uma investigação centrada
neste domino afim de apurar concretamente qual influência desta variável sobre a avaliação
dos lugares e sobre o desenvolvimento da identidade associada ao mesmos.
Não obstante o interesse e relativa abrangência dos resultados obtidos neste primeiro
estudo, os mesmos deverão ser interpretados e transferidos com alguma moderação para
outros grupos, uma vez que a literatura indica que a identidade associada ao lugar não é
apenas um produto das características do lugar mas também das características das pessoas e
da sua relação com o meio (Cuba e Hummon, 1993). A existência de correspondência entre as
categorias identificadas neste estudo e as reportadas por outros autores (e.g. Bonaiuto et al.,
1999; Gustafson, 2001) fornece todavia algumas garantias relativamente ao seu valor. Não
obstante, as categorias identificadas poderão não cobrir a totalidade dos conteúdos identitários
existentes e reflectir as preocupações e interesses deste grupo, marcadamente jovem,
escolarizado e de sexo maioritariamente feminino. Refira-se, por exemplo, que as infra-
estruturas e serviços locais ligados ao apoio à terceira idade não foram referidas pela amostra,
apesar da importância que assumem num país com tão grande número de idosos. De forma a
salvaguardar esta questão pretende-se num alargamento futuro deste projecto proceder à
replicação do estudo junto de uma amostra tanto quanto possível representativa da população
portuguesa.
Identidade associada ao lugar 47
ESTUDO 2
Objectivos
Partindo da análise da estrutura dos conteúdos identitários, avaliados com base na
aplicação de uma escala construída a partir dos resultados do estudo anterior a uma amostra de
residentes na área do Grande Porto, o presente estudo teve como objectivos:
1. Analisar a estrutura factorial dos conteúdos identitários;
2. Analisar em que medida o grau de identidade associada ao lugar difere em função da
dimensão da localidade em que os indivíduos residem;
3. Analisar em que medida os conteúdos identitários diferem em função da força da
identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade em que os indivíduos residem;
4. Analisar em que medida a qualidade ambiental percebida é influenciada pela força da
identidade associada ao lugar e pela dimensão da localidade em que os indivíduos
residem;
5. Analisar em que medida o grau de identidade associada ao lugar e os diferentes conteúdos
identitários se encontram relacionados com a percepção da qualidade ambiental local.
Face aos resultados de Lalli (1988) e Bonaiuto et al. (1996), que revelam a existência de
uma relação positiva entre o grau de identidade dos sujeitos e a qualidade ambiental
percebida, e especificamente quanto à relação entre identidade associada ao lugar e
percepção de qualidade ambiental, estabeleceu-se a seguinte hipótese:
H1: Existe uma relação positiva entre o grau de identidade associada ao lugar e a qualidade
ambiental percebida, no sentido em que quanto maior for a identidade associada ao lugar
reportada pelo sujeito maior será a qualidade percebida do ambiente local.
6. Analisar em que medida conteúdos identitários diferem na sua capacidade de prever a
qualidade ambiental percebida de indivíduos com diferentes níveis de identidade
associada ao lugar.
Identidade associada ao lugar 48
Dada a inexistência de suporte teórico-empírico, não se estabelecem neste projecto
outras hipóteses, assumindo o mesmo um carácter essencialmente exploratório apenas
orientado pelos objectivos propostos.
Método
Sujeitos
Este estudo foi realizado no âmbito da monitorização dos impactes psicossociais da
construção e funcionamento da incineradora LIPOR II, na região do Porto.
A recolha de dados realizou-se em Julho de 2002, tendo por base a entrevista directa
a 300 indivíduos de ambos os sexos, com mais de 18 anos, residentes nos concelhos do Porto
(Freguesias de Aldoar, Foz, Paranhos e Ramal), Maia (Freguesia de Moreira: lugares de
Sendal, Monte das Pedras e Crestins; Freguesia da Maia) e Matosinhos (Freguesia de Leça do
Bailio: lugares de Araújo e Custió; Freguesia de Custóias: lugares de Santiago de Custóias e
Esposade; Freguesia de Senhora da Hora). De referir que, na zona em que este estudo foi
realizado se assiste a um forte crescimento urbano e industrial, dado nomeadamente a sua
proximidade ao aeroporto internacional das Pedras Rubras. Os lugares e localidades mais
pequenas apanhadas no meio do processo de crescimento urbano da cidade do Porto e das
cidades em redor, nomeadamente Maia e Matosinhos, bem como pelo desenvolvimento
industrial na zona desenvolveram consequentemente características muito próprias, distintas
daquelas que tradicionalmente se associam aos lugares dessa dimensão.
As tabelas 3 e 4 sumariam as características sócio-demográficas da população e da
amostra deste estudo, respectivamente. Conforme se observa, os sujeitos possuem idades
compreendidas entre os 18 e os 86 anos, oscilando a média de idades por localidade entre os
45 e os 56 anos. Verifica-se que a maioria dos sujeitos residem na localidade há bastante
Identidade associada ao lugar 49
tempo, oscilando as médias por localidade entre os 16 e os 43 anos. O nível de instrução da
amostra é baixo, tendo sensivelmente metade da mesma frequentado a escola apenas até à 4.ª
classe.
Tabela 3. Características sócio-demográficas da população por localidade4
Localidade População % Homens Sendal 205 46.8 Crestins 569 47.8 Monte das Pedras 471 48.4 Esposade 2357 60.0 Araújo 1123 49.1 Custió 1034 48.5 Maia 16535 48.3 Senhora da Hora 19608 47.5 Santiago de Custóias 4699 58.0 Porto - Paranhos 53022 47.0 Porto – Ramalde 36517 46.2 Porto – Aldoar 15030 47.5 Porto - Foz 12523 46.7
Tabela 4. Características sócio-demográficas da amostra por localidade
Idade Anos de Residência Escolaridade Localidade N %
Homens Média Desvio
Padrão Média Desvio
Padrão % até 4.ª classe
Sendal 16 31,3 53,7 13,5 40,0 15,4 81,3 Crestins 39 53,8 47,1 15,6 32,2 16,0 51,3 Monte das Pedras 13 46,2 49,5 15,9 38,8 17,5 53,8 Esposade 16 43,8 45,3 22,2 25,7 16,5 50,0 Araújo 28 66,7 51,1 17,2 41,3 17,0 55,6 Custió 22 40,9 48,8 17,6 33,9 20,6 50,0 Maia 45 53,3 46,9 16,4 21,0 11,2 55,6 Sr.ª da Hora 28 57,1 52,9 16,2 37,5 18,8 53,6 Santiago de Custóias 21 52,4 46,8 18,6 16,2 8,3 30,0 Porto - Paranhos 21 57,1 56,1 19,9 43,7 14,5 42,9 Porto – Ramalde 23 52,2 50,3 19,1 29,3 14,9 43,5 Porto – Aldoar 16 50,0 56,3 20,3 35,6 17,6 43,5 Porto - Foz 22 45,5 51,9 20,7 42,6 22,2 45,5 Total 300 51,0 50,0 17,9 32,4 17,9 51,5
Identidade associada ao lugar 50
Tendo como critério o número de habitantes de cada localidade constituíram-se três
grupos de localidades, que se designaram de: (a) pequena dimensão, que integra as aldeias de
Sendal, Crestins, Monte das Pedras, Esposade, Araújo e Custió; (b) média dimensão, que
integra localidades de Senhora da Hora, Maia e Santiago de Custóias; e (c) grande dimensão,
que integra as quatro freguesias da cidade do Porto. Na tabela 5 apresentam-se as
características sócio-demográficas dos grupos constituídos. De referir que existem diferenças
significativas entre os grupos no que respeita à antiguidade de residência no lugar. Em média,
os sujeitos que residem nas localidades de média dimensão fazem-no há significativamente
menos tempo (F(2,299)= 14,13, p<.000) que os residentes nas localidades aldeias e no Porto.
Uma vez que na literatura existem indícios de que a antiguidade de residência num lugar se
encontra relacionada positivamente com a identidade associada ao lugar (e.g. Bonaiuto et
al.,1999; Hidalgo e Hernandéz, 2001), controlou-se posteriormente o efeito desta variável
durante a análise de dados.
Tabela 5. Características sócio-demográficas dos grupos constituídos
Idade Anos de Residência Escolaridade Dimensão da localidade N %
Homens Média Desvio
Padrão Média(*) Desvio
Padrão % até 4.ª classe
Pequena 124 48,4 48,9 17,1 34,7a 17,6 55,6 Média 94 54,3 48,7 16,9 24,8b 15,8 49,5 Grande 82 51,2 53,4 19,9 37,8a 17,0 47,6 Total 300 51,0 50,0 17,9 32,4 17,9 51,5
(*)F(2,299)= 14,13, p<.000.
4 Em virtude dos dados dos Census 2001 por lugar não estarem à data disponíveis, utilizaram-se os dados
resultantes dos Census 1991, embora se coloque a hipótese de estarem bastante desactualizados em função do crescimento urbano que se assistiu nos últimos anos na zona em questão.
Identidade associada ao lugar 51
Instrumento e Procedimento
Os dados foram recolhidos utilizando a técnica de entrevista directa e pessoal,
conduzida na residência dos participantes, mediante um questionário estruturado que inclui as
seguintes medidas:
Conteúdos Identitários. Introduziu-se um conjunto de 38 itens construídos a partir
das categorias obtidas no Estudo 1, solicitando-se aos sujeitos que, pensando no lugar em que
vivem, indicassem o seu grau de acordo relativamente aos mesmos. A resposta aos itens foi
dada numa escala de cinco pontos que varia entre 1 (discorda totalmente) e 5 (concorda
totalmente). Oito dos itens referem-se a aspectos sociais (e.g. “é onde tenho a minha família”,
“é um local onde a maioria das pessoas se conhece”), dois itens estão relacionados com
características dos habitantes ( e.g. “é um local onde vivem pessoas simpáticas”, “é um local
onde vivem pessoas pacatas”), quatro itens estão relacionados com a riqueza histórico-cultural
da localidade (e.g. “ é um lugar culturalmente rico”, “é um local onde ainda se mantêm vivas
as tradições”), três itens estão relacionados com o património natural da localidade (e.g. “é um
local rodeado de paisagens bonitas”, “é um local onde existem jardins e parques em número
suficiente”), cinco itens estão relacionados com o ambiente físico e social da localidade (e.g. “
é um local muito poluído”, “é um local agitado e com vida”, “é um local agradável para se
viver”), dois itens referem-se a aspectos relacionados com a caracterização sócio-demográfica
da localidade (e.g. “é um local onde existem problemas sociais”, “é um local inseguro”), um
item está relacionado com a caracterização económica da localidade (e.g. “é um local onde
existem poucas oportunidades de emprego”), e os 13 itens remanescentes prendem-se com
infra-estruturas e serviços locais (e.g. “é um local onde existem os serviços essenciais para o
dia-a-dia”, “é um local onde existem instalações adequadas para praticar desporto”, "é um
local com muito trânsito”, “é um local onde se realizam espectáculos com frequência”). De
referir que foi introduzido um item relativo às infra-estruturas e serviços de apoio ao idoso,
Identidade associada ao lugar 52
que se considerou pertinente face às características etárias da presente amostra e que não tinha
sido apurado no Estudo 1.
Identidade associada ao lugar. De forma a poder quantificar o grau de identidade
associada ao lugar dos sujeitos, utilizou-se uma medida semelhante à aplicada no Estudo 1,
composta por dois items (“sinto que pertenço a este local”, “sinto-me orgulhoso por pertencer
a esse local”), que apresenta uma boa consistência interna (α=.79). A resposta aos items é
dada numa escala de cinco pontos, que varia entre 1 (discordo totalmente) e 5 (concordo
totalmente), e o resultado da escala é dado pela média dos 2 items.
Qualidade Ambiental Percebida. Para avaliar a qualidade ambiental percebida pelos
sujeitos utilizou-se a escala de Lima e Palma-Oliveira (2001) composta por 10 items (e.g.
“acho que o ar nesta zona é mau para a saúde”, “esta zona é tranquila, tem pouco barulho”,
“nesta zona há muitos ratos”), cuja consistência interna para a presente amostra é de .84. A
resposta aos itens é dada numa escala de cinco pontos, que varia entre 1 (discorda totalmente)
a 5 (concorda totalmente), sendo o resultado da escala dado pela média dos items após se
inverter os itens negativos. Consequentemente, a maiores níveis de concordância com a escala
correspondem maiores níveis de qualidade ambiental percebida.
Caracterização Sócio-demográfica. Recolheu-se informação acerca da idade, sexo,
nível de instrução completa, e anos de residência no local.
Identidade associada ao lugar 53
Resultados
Os dados recolhidos foram analisados com recurso à estatística descritiva univariada
(percentagem, média e desvio-padrão), bivariada (correlação de Pearson) e multivariada
(análise factorial), bem como à estatística indutiva (análise de variância, regressão).
Os resultados são reportados segundo a ordem dos objectivos previamente
estabelecidos. Assim, apresentam-se primeiramente os resultados atinentes à estrutura
factorial dos conteúdos identitários. Seguidamente, os resultados respeitantes à identidade
associada ao lugar e à sua análise em função da dimensão da localidade, e os resultados
respeitantes à análise das dimensões de conteúdos identitários em função da identidade
associada ao lugar e da dimensão da localidade. Registam-se os resultados concernentes à
percepção de qualidade ambiental, analisando-a em função da identidade associada ao lugar e
da dimensão da localidade. Por fim, expõem-se os resultados da relação entre a percepção de
qualidade ambiental, identidade associada ao lugar e dimensões de conteúdos identitários,
bem como os resultados relativos ao valor preditivo destes mesmos conteúdos sobre a
qualidade ambiental percebida por indivíduos com diferentes graus de identidade.
Estrutura factorial dos conteúdos identitários
A análise de frequências dos itens, prévia à realização da análise factorial,
determinou a eliminação de sete itens das análises posteriores em virtude de apresentarem
mais de 80% de concordância e se revelarem consequentemente pouco discriminativos (“é um
local onde vivo há muito tempo”, “é um local bem situado, perto de tudo”, “é um local onde a
maioria das pessoas se conhece”, “é um local onde vivem pessoas simpáticas”, “é um local
onde tenho as minhas raízes”, “é um local onde tenho a minha família”, “é um lugar com bons
acessos”). De salientar o facto de cinco dos mesmos dizerem respeito a aspectos sociais,
Identidade associada ao lugar 54
demonstrando a existência de um grande consenso relativamente à existência de redes sociais
no lugar.
Os restantes 31 itens foram submetidos a uma análise factorial em componentes
principais, com rotação varimax, que convergiu numa solução ao fim de seis iterações. Foram
eliminados 10 itens por apresentarem pesos factoriais baixos (<.40) ou por contribuirem para
a explicação de dois ou mais factores (“é um local com poucos sítios para estacionar”, “é um
local servido por uma boa rede de transportes”, “é um local agitado e com vida”, “é um local
tranquilo”, “é um local onde vivem pessoas pacatas”, “é um local muito poluído”, “é um local
com interesse turístico”, “é um local rico em monumentos”, “é um local culturalmente rico”,
“é um local com sítios onde se podem passar os tempos livres”).
A tabela 6 apresenta os resultados finais. Foram extraídos cinco factores que
explicam no seu conjunto 70,62% da variação existente. O factor 1, designado de Dimensão
Instrumental, inclui oito itens relativos às infra-estruturas e serviços locais, ofertas culturais e
de lazer e oportunidades de emprego e explica 25,04% da variação. O factor 2, designado de
Dimensão Estética, é composto por quatro itens relativos ao património natural e à avaliação
positiva da localidade e explica 15,24% da variação. O factor 3, designado de Dimensão
Histórico-cultural agrega três itens relativos ao sentido de comunidade e riqueza histórico-
cultural da localidade, explicando 11,15% da variação. O factor 4, designado de Resposta a
Resposta a Necessidades Básicas, agrega três itens relativos às redes sociais, privacidade e
existência de serviços essenciais, explicando 10,20% da variação. Por fim, o factor 5,
designado de Problemas Ambientais e Sociais, reúne três itens relacionados com problemas
ambientais e sociais e explica 8,99% da variação. Os factores apresentam os seguintes valores
de consistência interna (alfa de Cronbach): .86, .89, .77, .64 e .60, respectivamente.
Identidade associada ao lugar 55
Tabela 6. Estrutura factorial dos conteúdos identitários (rotação varimax)
Factor 1 Dimensão
Instrumental
Factor 2 Dimensão Estética
Factor 3 Dimensão Histórico- Cultural
Factor 4 Resposta a
Necessidades Básicas
Factor 5 Problemas
Ambientais e Sociais
É um local onde existem instalações adequadas para praticar desporto.
0,86
... onde existem jardins e parques em número suficiente.
0,82 0,31
...com jardins de infância, escolas e outras instituições de ensino em número suficiente.
0,81
...onde existem cuidados e serviços médicos adequados.
0,77
...onde existem actividades e ocupações para o fim de semana.
0,77 0,37
...onde se realizam espectáculos com frequência.
0,76 0,40
...onde existem poucas oportunidades de emprego.
-0,61
É um local bonito. 0,83 ...rodeado de paisagens bonitas. 0,77 0,40 ...onde nos sentimos perto da natureza.
0,74 0,42
...agradável para viver. 0,69 0,32
...onde ainda se mantêm vivas tradições antigas.
0,81
...onde a população é unida. 0,70 0,37
...com um passado histórico interessante.
0,39 0,69
...onde tenho as minhas amizades, os meus amigos.
0,82
...onde existem os serviços essenciais para o dia-a-dia.
0,31 0,71
...onde não temos privacidade porque as pessoas se intrometem na vida dos outros.
-0,66
...onde existem problemas sociais. 0,82 É um local com muito trânsito. 0,70 É um local inseguro. -0.35 0,56 Alfa .86 .89 .77 .64 .60 % Variância explicada 25,04% 15,24% 11,15% 10,20% 08,99% % Variância explicada total: 70,62%
Identidade associada ao lugar 56
Identidade associada ao lugar: diferenças em função da dimensão da localidade
No que se refere à força da identidade associada ao lugar, constata-se que, de uma
forma geral, os sujeitos se apresentam bastante identificados com as suas localidades
(M=4,23; DP= 0,76). Controlando o efeito dos anos de residência no local, através de uma
análise de variância univariada, verifica-se que existem diferenças no grau de identificação
dos sujeitos em função da dimensão da localidade onde residem (F(2,300)=3,24, p<.05).
Assim, embora todos se identifiquem bastante com os lugares onde residem, os sujeitos que
vivem em localidades pequenas e médias identificam-se ainda mais com a sua localidade do
que os que vivem no Porto (M= 4,31 e M=4,25 vs. M= 4,09, respectivamente).
Conteúdos identitários: diferenças em função do grau de identidade associada ao lugar
De forma a se poder analisar a existência de diferenças nos conteúdos identitários
em função do grau de identidade associada ao lugar dos sujeitos, constituíram-se com base na
média da amostra, dois grupos que se designaram de baixa (45,7%) e alta identidade associada
ao lugar (54,3%).
A realização de análises de variância univariadas para cada um dos conteúdos
identitários, controlando o efeito dos anos de residência no lugar, revela a existência de
diferenças significativas nos níveis de concordância com os mesmos (tabela 7). Assim, os
indivíduos mais identificados mostram-se mais concordantes relativamente à dimensão
instrumental (F(1,273)= 20,94, p<.000), dimensão estética (F(1,273)= 50,31, p<.000),
dimensão histórico-cultural (F(1,273)= 25,39, p<.000) e dimensão resposta a necessidades
básicas (F(1,273)= 67,01, p<.000) do que os menos identificados. Relativamente à dimensão
problemas ambientais e sociais, que reúne características marcadamente negativas do lugar,
são os sujeitos menos identificados que revelam um nível mais elevado de concordância
comparativamente com os mais identificados (F(1,273)= 11,95, p<.001). Estes resultados
Identidade associada ao lugar 57
sugerem que os sujeitos mais identificados com a localidade em que residem percepcionam a
mesma de forma, globalmente, mais positiva do que os menos identificados, maximizando as
características positivas e minimizando as características negativas quando comparados com
os sujeitos menos identificados, que apresentam o comportamento inverso.
Tabela 7. Diferenças nos conteúdos identitários em função do grau de identidade associada ao lugar
Baixa Identidade Alta Identidade Total da Amostra Média DP Média DP Média DP Dimensão Instrumental 2,88 0,78 3,30* 0,80 3,08 0,81 Dimensão Estética 3,47 0,93 4,19* 0,70 3,80 0,90 Dimensão Histórico-cultural 3,42 0,82 3,92* 0,72 3,65 0,78 Resposta a Necessidades Básicas 3,51 0,71 4,20* 0,70 3,82 0,83 Problemas Ambientais e Sociais 3,23 0,78 2,89** 0,84 3,08 0,71
* p<.000; **p<.05.
Conteúdos Identitários: diferenças em função da dimensão da localidade
A realização de análises de variância para cada um dos conteúdos identitários em
função da dimensão da localidade de residência, revela a existência de diferenças
significativas na forma como os sujeitos utilizam os conteúdos para avaliarem as suas
localidades, conforme se observa na tabela 8.
Relativamente às dimensões instrumental e estética, verifica-se que, em termos
gerais, os sujeitos consideram que as localidades onde vivem oferecem genericamente
razoáveis oportunidades de emprego e boas infra-estruturas e serviços locais (M= 3,08; DP=
0,81) e são locais bonitos e agradáveis para se viver (M= 3,80; DP= 0,90). Não obstante, os
sujeitos residentes na Maia, Senhora da Hora e Santiago de Custóias, localidades de média
dimensão, atribuem, por um lado, uma ainda maior instrumentalidade à sua localidade,
mostrando-se mais satisfeitos com as oportunidades de emprego e com as várias infra-
estruturas e serviços disponíveis, e por outro, percepcionam as suas localidades como mais
Identidade associada ao lugar 58
belas e agradáveis do que os restantes sujeitos (F(2,272)= 62,21, p<.000; e (F(2,272)= 8,18,
p<.000, respectivamente). A realização de correlações de Pearson entre as variáveis revela a
existência de uma relação não significativa entre as mesmas (funcional: r=.08, n.s.; estética: -
.06, n.s.).
No que respeita às dimensões histórico-cultural e resposta a necessidades básicas,
observa-se que, na globalidade, os sujeitos consideram igualmente que nas suas terras a
população é unida e preserva a riqueza das tradições e do passado histórico (M=3,65;
DP=0,81) e que são locais onde têm os seus amigos, privacidade e os serviços essenciais ao
dia a dia (M= 3,82; DP= 0,78). Mesmo assim, verificam-se diferenças significativas em
função da dimensão da localidade, com os sujeitos residentes nas aldeias e nas localidades de
média dimensão a fazer uma avaliação mais positiva das suas localidades nestas dimensões do
que os sujeitos residentes na cidade do Porto (F(2,272)= 7,69, p<.001 e F(2,272)= 24,47,
p<.000, respectivamente). O resultado da correlação de Pearson entre as variáveis revela a
existência de uma relação negativa entre as mesmas (histórico- cultural: r=-.15, p<.05;
resposta a necessidades básicas: r=-.34, p<.01).
Quanto à dimensão problemas ambientais e sociais, verifica-se que na globalidade os
sujeitos consideram que existe insegurança, tráfego elevado e problemas sociais nas
localidades onde vivem (M= 3,08; DP= 0,83). Todavia, a percepção de problemas ambientais
e sociais parece aumentar com a dimensão da localidade, uma vez que todos os grupos
apresentam diferenças significativas entre si nesta dimensão (F(2,272)= 15,16, p <.000). O
resultado da correlação de Pearson entre as variáveis comprova a existência de uma
associação positiva entre as mesmas (r=.32, p<.01).Os residentes nas aldeias são os que
percepcionam a existência de menos problemas a este nível, seguidos dos residentes nas
localidades médias e, finalmente, dos residentes do Porto, que são os que percepcionam a
existência de mais problemas ambientais e sociais na sua zona de residência.
Identidade associada ao lugar 59
Tabela 8. Diferenças nos conteúdos identitários em função da dimensão da localidade
Dimensão da Localidade Pequenas Médias Grandes Total da
Amostra Média DP Média DP Média DP Média DP Dimensão Instrumental 2,76a 0,75 3,76b 0,52 2.79a * 0,69 3,08 0,81 Dimensão Estética 3,74a 0,96 4,10b 0,66 3,55a * 0,97 3,80 0,90 Dimensão Histórico-cultural 3,70a 0,85 3,84a 0,54 3,36b ** 0,93 3,65 0,81 Resposta a Necessidades Básicas 4,02a 0,74 4,00a 0,75 3,32b * 0,66 3,82 0,78 Problemas Ambientais e Sociais 2,81a 0,86 3,11b 0,73 3,45c * 0,73 3,08 0,83
* p<0.000; **p<0.001
Conteúdos identitários: efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e
dimensão da localidade
A análise dos efeitos de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da
localidade sobre os conteúdos identitários foi realizada mediante o cálculo de análises
univariadas de variância para cada uma das dimensões identificadas.
Os resultados revelam apenas um efeito de interacção significativo na dimensão
resposta a necessidades básicas (F(2,272)=2,99, p<.05). A figura 3 permite visualizar este
resultado. A comparação dos níveis médios de concordância com a dimensão resposta a
necessidades básicas apresentados pelos sujeitos com baixa identidade revela que existe uma
diferença significativa entre os que habitam em localidades pequenas (M=3,73; DP=0,77) e
médias (M=3,61; DP=0,65) e os que habitam no Porto (M=3,22; DP=0,71) (F(2,147)=8,20,
p<.000), ocorrendo o mesmo entre os que apresentam alta identidade (pequenas: M=4,22;
DP=0,65; médias: M=4,49; DP=0,58; Porto: M=3,60; DP=0,73; F(2,124)=12,81,p<.000).
Assim, os sujeitos que habitam no Porto, independentemente do grau de identidade com a
cidade, consideram que a mesma satisfaz menos as suas necessidades básicas do que os
sujeitos que vivem nas localidades de pequena e média dimensão.
Identidade associada ao lugar 60
Dimensão da localidade
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Identidade
Baixa
Alta
Figura 3. Efeito da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade sobre a
Dimensão Resposta a Necessidades Básicas.
Os resultados revelam ainda a existência de um efeito de interacção marginalmente
significativo a .07 na dimensão estética (F(2,272)=2,67, p<.07) (figura 4). A comparação dos
níveis médios de concordância com esta dimensão apresentados pelos sujeitos com baixa
identificação revelam uma diferença significativa entre os que vivem nas localidades de média
dimensão (M=3,87; DP=0,55) e os que vivem nas aldeias (M=3,15; DP=0,97) e no Porto
(M=3,39; DP=1,03) (F(2,174)=8,07,p.000), sendo que os primeiros consideram a sua
localidade como mais bonita que os restantes. Entre os sujeitos que reportam alta identidade,
o efeito é apenas marginal (F(2,124)=2,92, p<.06) mas vai no mesmo sentido (médias:
M=4,39; DP=0,68; pequenas: M=4,16; DP=0,71; Porto: 3,95; DP=0,65). No seu conjunto
estes resultados sugerem que, independentemente do grau de identidade manifestado, os
Identidade associada ao lugar 61
Dimensão da localidade
grandesmédiaspequenas
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Identidade
Baixa
Alta
sujeitos que vivem nas localidades de média dimensão consideram os lugares onde vivem
como mais bonitos e agradáveis, do que os restantes sujeitos.
Figura 4. Efeito da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade sobre a Dimensão Estética.
Identidade associada ao lugar 62
Qualidade ambiental percebida: diferenças em função da identidade associada ao lugar e
dimensão da localidade
Constata-se que, de uma forma geral, os sujeitos consideram que os locais onde
vivem apresentam uma razoável qualidade ambiental (M =3,06; DP= 0,71). Para analisar o
efeito da força da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade sobre a
percepção de qualidade ambiental procedeu-se ao cálculo de análises de variância univariadas,
controlando o efeito dos anos de residência no local. Os resultados indicam que ambas as
variáveis exercem influência sobre a percepção da qualidade ambiental.
No que respeita à força da identidade local, verifica-se que os sujeitos mais
identificados com as suas terras consideram que as mesmas apresentam uma melhor qualidade
ambiental (M=3,29; DP=0,69) do que os sujeitos que menos se identificam com os lugares em
que vivem (M=2,85; DP=0,65) (F(2,1,299)=28,68, p<.000).
Relativamente às diferenças na percepção da qualidade ambiental em função da
dimensão da localidade, constata-se que os sujeitos que vivem em localidades de média
dimensão e no Porto consideram que a qualidade ambiental das suas terras é maior (M=3,14;
DP=0,73 e M=3,07; DP=0,60, respectivamente) do que os sujeitos que residem nas
localidades pequenas (M= 3,00; DP=0,76) (F(2,299)=3,37, p<.05).
Os resultados revelam também um efeito de interacção sobre a percepção de
qualidade ambiental (F(2,299)=3,95, p<.05). A comparação dos níveis médios de qualidade
ambiental percebida pelos sujeitos com baixa identidade revelam uma diferença significativa
entre os que vivem nas aldeias (M=2,56; DP=0,64) e os que vivem nas localidades de média e
grande dimensão (M=2,97; DP=0,63; e M=3,00; DP=0,62, respectivamente) (F(2,156)=7,91,
p<.001). Entre os sujeitos com alta identidade não se verificam diferenças na percepção da
qualidade ambiental em função da localidade em que vivem (F(2,142)=0,25, n.s.). Desta
forma, a dimensão do lugar em que se vive parece só ter impacto sobre a qualidade ambiental
Identidade associada ao lugar 63
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Baixa
Alta
percebida por sujeitos que se identificam pouco com o lugar, não afectando os juízos daqueles
que se identificam mais fortemente com a localidade onde vivem.
Figura 5. Efeito da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade sobre a
Qualidade Ambiental Percebida.
Relação entre identidade associada ao lugar, conteúdos identitários e
qualidade ambiental percebida
Para testar a hipótese 1, segundo a qual se prevê a existência de uma relação positiva
entre o grau de identidade associada ao lugar e a qualidade ambiental percebida, procedeu-se
ao cálculo da correlação de Pearson entre as duas variáveis. O resultado deste teste revela a
existência de uma associação positiva significativa entre as mesmas (r=.29, p<.000),
indicando que quanto maior é a identificação com o lugar mais positiva é a percepção da
Identidade associada ao lugar 64
qualidade ambiental do mesmo. Este resultado é consistente com os resultados de Bonaiuto et
al. (1996) e Lalli (1992) e apoia a hipótese inicialmente levantada.
Com vista à análise da relação existente entre os conteúdos identitários identificados
e a qualidade ambiental percebida, procedeu-se igualmente ao cálculo de correlações de
Pearson entre as variáveis. Os resultados da análise da correlação entre as dimensões de
conteúdo identitário e a qualidade ambiental percebida revelaram igualmente associações
significativas. A dimensão estética apresenta a mais forte correlação positiva com a qualidade
ambiental percebida (r=.60, p<.000), pelo que quanto mais positivos são os juízos a nível
estético maior é a percepção de qualidade ambiental, ou de outra forma, quanto mais o sujeito
considera a sua terra bonita e agradável menos percepciona problemas ambientais a vários
níveis (e.g. sonoro, atmosférico). As restantes dimensões revelam igualmente uma correlação
positiva com a qualidade ambiental percebida, indicando que quanto maior é a percepção de
funcionalidade da localidade (r=.52), riqueza histórico-cultural atribuída (r=.38) e existência
de resposta a necessidades básicas (r=.19) maior é a percepção de qualidade ambiental. A
dimensão problemas ambientais e sociais, apresenta um comportamento inverso, isto é, uma
relação negativa significativa com a percepção de qualidade ambiental (r= -.45), indicando
que quanto maior é a percepção de problemas sociais e sobretudo ambientais menor é a
percepção de qualidade ambiental pelos sujeitos. De relembrar que esta dimensão inclui itens
relativos à insegurança, problemas sociais e tráfego elevado, sendo que este último pode ser
visto como tendo uma relação directa com os níveis de poluição, por exemplo, sonora ou
atmosférica da localidade. No seu conjunto são itens que veiculam uma imagem menos
positiva da localidade, pelo que parece plausível que diminuam a percepção de qualidade do
ambiente físico local. A tabela 9 resume os valores obtidos.
Identidade associada ao lugar 65
Tabela 9. Correlações entre identidade associada ao lugar, conteúdos identitários e qualidade ambiental percebida
Qualidade Ambiental Percebida
r p Identidade Associada ao Lugar .29 .000 Dimensão Instrumental .52 .000 Dimensão Estética .60 .000 Dimensão Histórico-Cultural .38 .000 Dimensão Resposta a Necessidades Básicas .19 .000 Dimensão Problemas Ambientais e Sociais -.45 .000
Percepção de qualidade ambiental em indivíduos com diferente grau de identidade
associada ao lugar: poder preditivo dos conteúdos identitários
Para testar o efeito preditivo dos conteúdos identitários relativamente à qualidade
ambiental percebida por indivíduos com baixa e alta identidade associada o lugar, efectuou-se
uma análise regressão linear múltipla para cada um dos grupos, cujos resultados se
apresentam na tabela 10.
Relativamente aos sujeitos com baixa identidade associada ao lugar, verifica-se que
os conteúdos identitários contribuem com 49% para a explicação da variabilidade da
qualidade ambiental percebida. A dimensão estética é a que revela maior contribuição
(β=0,54, p<.000), seguindo-se das dimensões instrumental (β=0,23, p<.001), resposta a
necessidades básicas (β=-0,21, p<.001) e problemas ambientais e sociais (β=-0,17, p<.005). Conclui-se, portanto, que a qualidade ambiental percebida é tanto maior quanto maior for a
percepção de beleza e funcionalismo do lugar e menor a percepção de resposta a necessidades
básicas e de existência de problemas ambientais e sociais. A percepção de riqueza histórico-
cultural do lugar não contribui para a percepção da qualidade ambiental (β=-0,07, n.s.).
Identidade associada ao lugar 66
No que concerne aos sujeitos com alta identidade associada ao lugar, verifica-se que
os conteúdos identitários contribuem com 38% para a explicação da variabilidade da
qualidade ambiental percebida. Apenas duas das dimensões de conteúdos contribuem
significativamente para a percepção de qualidade ambiental, nomeadamente as dimensões
problemas ambientais e sociais (β=-0,42, p<.000) e instrumental (β=0,29, p<.001), sendo que a dimensão estética apresenta um contributo marginalmente significativo para a explicação da
variabilidade da variável dependente (β=0,17, p<.069). Consequentemente, a qualidade ambiental percebida é tanto maior quanto mais os sujeitos consideram que os lugares onde
vivem apresentam menos problemas ambientais e sociais e, por outro lado, mais os vêem
como lugares dotados de infra-estruturas locais, ofertas culturais e de lazer e também de
ofertas de emprego, isto é, quanto mais os percepcionam como lugares funcionais. As
percepções da riqueza histórico- cultural (β=-0,04, n.s.) e da capacidade do lugar para
responder às necessidades básicas dos sujeitos (β=0,02, n.s.) não contribuem para a percepção da qualidade ambiental.
Tabela 10. Regressão múltipla dos conteúdos identitários sobre a qualidade ambiental percebida por indivíduos com baixa e alta identidade associada ao lugar (método enter)
Baixa Identidade 1 Alta Identidade 2 Conteúdos β T Sig. T β T Sig. T
Dimensão Instrumental 0,23 3,26 .001 0,29 3,55 .001 Dimensão Estética 0,54 6,76 .000 0,17 1,84 .069 Dimensão Histórico- Cultural -0,07 -0,87 n.s. -0,04 -0,51 n.s. Resposta a Necessidades Básicas -0,21 -3,48 .001 0,02 0,25 n.s. Problemas Ambientais e Sociais -0,17 -2,85 .005 -0,42 -5,56 .000 1 R2Ajust.= 0,49; F(5, 147)=30,30, p<.000; 2 R2Ajust.= 0,38; F(5, 124)=16,19, p<.000.
Identidade associada ao lugar 67
Conclusões
O presente estudo visou analisar a estrutura dos conteúdos subjacentes à identidade
associada ao lugar de uma amostra de sujeitos residentes na área do Grande Porto, bem como
estudar a influência do grau de identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade
sobre os mesmos. Para além disso, procurou analisar de que forma estas variáveis se
relacionam com a percepção de qualidade ambiental, assumindo uma natureza correlacional e
exploratória.
Relativamente à estrutura dos conteúdos identitários, os resultados demonstram que
os mesmos são complexos e estão agrupados em cinco dimensões, nomeadamente: Dimensão
Instrumental que reúne itens relativos a aspectos práticos do quotidiano; Dimensão Estética
definida por itens relativos à beleza do lugar em geral e do seu património natural em
particular; Dimensão Histórico-Cultural em que são agregados itens relativos quer ao sentido
de comunidade quer à riqueza do passado histórico do lugar; Dimensão Resposta a
Necessidades Básicas definida por itens que salientam aspectos centrais para a vivência do
indivíduo como os amigos, a privacidade e a existência dos serviços essenciais; e por último,
Dimensão Problemas Ambientais e Sociais que aponta para uma avaliação menos positiva do
lugar reunindo itens relativos ao tráfego, insegurança e problemas sociais. Tal como ocorreu
no Estudo 1, e em parte porque as categorias aqui utilizadas resultam do mesmo, as dimensões
de conteúdo apuradas integram uma vez mais itens que correspondem aos utilizados por
Bonaiuto et al. (1999) e aos significados dos lugares identificados por Gustafson (2001) (cf.
conclusões do Estudo 1). Por outro lado, estes mesmos itens traduzem ideias presentes na
proposta teórica de Breakwell (1986,1992,1993,2001). Verifica-se neste sentido que a
Dimensão Instrumental reúne um conjunto de itens que se prende com questões de auto-
eficácia, isto é, com questões relacionadas com a medida em que o lugar permite que os
indivíduos levem a cabo as suas actividades diárias. O mesmo ocorre com a dimensão
Identidade associada ao lugar 68
Problemas Ambientais e Sociais, que reúne itens relativos ao tráfego, insegurança e existência
de problemas sociais. De relembrar que itens desta natureza foram indicados pelos sujeitos
entrevistados por Twigger-Ross e Uzzell (1996) no âmbito do estudo sobre identidade
associada ao lugar numa zona submetida a mudanças sociais, económicas e ambientais como
constrangimentos à sua relação com o ambiente. Por seu turno, as dimensões Estética e a
Histórico-Cultural, parecem estar relacionados com as funções de distintividade, auto-estima e
também continuidade, pois os itens que encerram constituem uma base para que os indivíduos
distingam o lugar e a si próprios de outros (e.g. porque ainda mantêm tradições antigas),
desenvolvam a sua auto-estima (e.g. porque vivem num local bonito)e adquiram um sentido
de continuidade (e.g. porque vivem num local com um passado histórico interessante e ainda
mantêm tradições antigas).
A forma como estas dimensões são utilizadas pelos sujeitos para caracterizar os
lugares onde vivem é influenciada quer pela sua identidade com o lugar quer pela dimensão
do mesmo. Os sujeitos mais identificados consideram que a sua localidade é
significativamente mais funcional, mais bonita e agradável, possui uma maior riqueza
histórico-cultural, satisfaz melhor as suas necessidades básicas e possui menos problemas
ambientais e sociais do que os indivíduos que apresentam uma menor identidade. Tal sugere
que o percepcionam de forma globalmente mais positiva do que os menos identificados,
maximizando as características positivas e minimizando as negativas, ou por outras palavras,
apresentam um enviesamento ou favoritismo pelo endogrupo (Tajfel, 1978, 1981; Tajfel e
Turner, 1979; Turner, 1987), facto que pelo seu turno apoia a ideia de que o ambiente
residencial é importante para a identidade e auto-estima dos indivíduos.
No que se refere à dimensão da localidade, consta-se que a mesma influencia a forma
como os sujeitos caracterizam os lugares onde vivem mas não de uma forma linear, o que
aponta para a importância que as próprias características dos lugares possuem a este nível. Os
Identidade associada ao lugar 69
resultados revelam então que sujeitos residentes nas localidades pequenas e no Porto
consideram que o local onde vivem é menos bonito e funcional do que aqueles que vivem nas
localidades de dimensão média; no que toca à riqueza histórico-cultural e à satisfação de
necessidades básicas a clivagem verifica-se entre os habitantes de localidades pequenas e
médias, por um lado, e do Porto, por outro, sendo que estes consideram que a sua cidade é
menos rica a este nível; a forma como analisam a existência de problemas ambientais e
sociais nas suas localidades leva à identificação de diferenças entre os três grupos, sendo que
os sujeitos de localidades pequenas consideram existir menos problemas que os das
localidades médias, e estes menos do que os do Porto. Este resultado tem por base a existência
de uma relação positiva entre a percepção de problemas ambientais e sociais e a dimensão das
localidades, convergindo para os resultados de estudos que revelam que a qualidade percebida
dos ambientes urbanos decresce com o aumento do tamanho das localidades (e.g. Appelbaum,
1976, Dahnman, 1983, citados por Bonaiuto e Bonnes, 1996; Fried, 1982).
Para além de se verificarem efeitos principais da identidade associada ao lugar e da
dimensão do lugar sobre os conteúdos identitários, constata-se também que estas variáveis
interagem significativamente sobre a dimensão resposta a necessidades básicas e
marginalmente sobre a dimensão estética. No primeiro caso, verifica-se que os juízos
realizados acerca da capacidade de resposta da cidade do Porto às necessidades básicas dos
sujeitos é sempre menor do que os dos restantes sujeitos, independentemente do nível de
identidade associada ao lugar. Isto significa que as pessoas que aqui vivem, quer estejam
muito ou pouco identificadas com o mesmo, consideram ter menos amigos, sentem a sua
privacidade mais invadida e estão menos satisfeitos com os serviços essenciais
disponibilizados na sua área de residência do que os restantes sujeitos. Se se tiver em conta
apenas a questão da amizade e da privacidade, este resultado poderá ser interpretado
eventualmente como um indicador de que as redes sociais de apoio são mais fracas neste
Identidade associada ao lugar 70
lugar. No segundo caso, os resultados sugerem que independentemente do nível de identidade
associada ao lugar, os sujeitos que residem nas localidades de média dimensão consideram os
lugares onde vivem como mais bonitos e agradáveis do que os restantes sujeitos.
Outro conjunto interessante de resultados obtidos por este estudo está relacionado
com a análise da relação existente entre as variáveis anteriormente mencionadas e a percepção
de qualidade ambiental. Note-se que neste caso não está em causa a percepção da qualidade
de vida ou de qualidade do ambiente residencial, mas sim da qualidade ambiental do lugar
operacionalizada através de vários indicadores de poluição ambiental (e.g. ruídos, ratos,
qualidade das águas dos rios). Assim, verifica-se que nesta amostra a qualidade ambiental
percebida é influenciada pelo grau de identidade local e pela dimensão da localidade,
demonstrando os resultados que a dimensão do lugar em que se vive só tem impacto sobre a
qualidade ambiental percebida por sujeitos com baixa identidade associada ao lugar, não
afectando os juízos daqueles que se identificam mais fortemente com os lugares onde vivem.
Relativamente à relação entre qualidade ambiental percebida e identidade associada
ao lugar, os resultados apoiam a hipótese segundo a qual existe uma relação positiva entre as
variáveis. Embora os dados recolhidos não forneçam informação concreta relativamente à
direcção causal desta relação, assume-se que quanto maior for a identidade associada ao lugar
maior será a qualidade ambiental percebida. Este resultado converge para os resultados de
Bonaiuto e colaboradores (1996), Lalli e Thomas, (1988, 1989, citados por Lalli, 1992) e
também para os do Estudo 1, segundo os quais o grau de identidade local influencia a
percepção de qualidade ambiental, no sentido em que os sujeitos mais identificados
consideram que o lugar onde vivem apresenta sempre uma melhor qualidade ambiental do que
aquela que lhe é atribuída pelos indivíduos menos identificados. Subjacente a este fenómeno
parece estar presente novamente um enviesamento positivo a favor do endogrupo (Tajfel,
1978,1981;Tajfel e Turner, 1979; Turner, 1987).
Identidade associada ao lugar 71
Relativamente à relação existente entre os conteúdos identitários e a qualidade
ambiental percebida, os resultados demonstram que existe uma associação positiva entre a
qualidade ambiental percebida e as dimensões instrumental, estética, histórico-cultural e
resposta a necessidades básicas, e negativa com a dimensão problemas ambientais e sociais.
As dimensões avaliativas mais fortemente associadas à percepção de qualidade ambiental são,
pela positiva, a dimensão estética e funcional e, pela negativa, a dimensão de problemas
ambientais e sociais. Assim, quanto mais o sujeito percepciona o lugar onde vive como
bonito e agradável, funcional, rico em termos histórico-culturais, com capacidade de satisfazer
as necessidades básicas, e com menos tráfego, insegurança e problemas sociais maior é a sua
percepção de qualidade ambiental. Estes conteúdos identitários apresentam todavia um valor
preditivo diferente da qualidade ambiental percebida por indivíduos com baixa ou alta
identidade associada ao lugar, constatando-se que em ambos os grupos a percepção de riqueza
histórico-cultural do lugar não contribuiu para a percepção de qualidade ambiental percebida.
No caso de indivíduos com baixa identidade local todas as restantes dimensões contribuem
para a previsão da qualidade ambiental percebida, sendo que esta será tanto maior quanto
maior for a percepção de beleza e funcionalismo do lugar e menor a percepção de resposta a
necessidades básicas e de existência de tráfego, insegurança e problemas sociais. Quanto aos
indivíduos com alta identidade associada ao lugar apenas duas dimensões contribuem
significativamente para tal, verificando-se que a qualidade ambiental percebida será tanto
maior quanto menos os sujeitos considerarem que os lugares onde vivem apresentam
problemas sociais, de insegurança e de tráfego e mais os virem como lugares dotados de infra-
estruturas, ofertas culturais e de lazer, ofertas de emprego, isto é, como lugares funcionais.
A generalização destes resultados para outras populações deve ser feita com algum
cuidado, um vez que a validade externa do estudo não está totalmente garantida. A forma
como os indivíduos se relacionam com o seu ambiente e constróem a sua identidade é
Identidade associada ao lugar 72
influenciada não só pelas características que lhe são subjectiva ou socialmente atribuídas, mas
também pelas características objectivas dos próprios lugares. No caso da percepção de
qualidade ambiental este facto parece evidente. Como foi referido anteriormente, o local onde
se realizou esta pesquisa possui características específicas fruto do desenvolvimento urbano e
industrial a que se tem assistido nos últimos anos. Uma visita ao terreno permitiu identificar
um conjunto de indicadores de poluição local nas aldeias em questão (e.g. rio poluído,
emanação de cheiros nauseabundos por uma vacaria, ruídos provenientes da proximidade a
um itinerário complementar, fumos de fábricas instaladas na zona) ausentes nos outros
cenários, que parecem contribuir para tornar saliente a existência de uma baixa qualidade
ambiental para os sujeitos que aqui vivem e quotidianamente convivem com estas fontes de
poluição. Esta percepção, embora minimizada entre os sujeitos com maior identidade com o
lugar, acabou por se fazer sentir nos resultados da qualidade ambiental percebida em função
da dimensão da localidade, que mostram claramente ser os sujeitos que vivem nas aldeias
aqueles que atribuem uma menor qualidade ao seu ambiente. Este resultado é bastante
interessante, na medida em que é contrário à ideia generalizada de que nas aldeias a qualidade
ambiental é melhor, veiculada pelo povo em expressões como “nas aldeias o ar é mais puro”,
pelo que será merecedor de maior atenção em futuros desenvolvimentos deste projecto, onde
se procurará introduzir nomeadamente alguns indicadores objectivos de qualidade ambiental e
analisar o seu efeito sobre a relação entre as variáveis em estudo.
Identidade associada ao lugar 73
Conclusões Gerais
A ideia de que os indivíduos se apropriam de características e significados atribuídos
ao ambiente através de processos individuais, grupais e culturais, incorporando-as no seu
auto-conceito, está reconhecida na literatura de psicologia ambiental através do conceito de
identidade associada ao lugar (Proshansky et. al., 1983).
Embora tenha vindo a ser alvo de atenção por parte de alguns teóricos nas últimas
décadas, os avanços realizados no seu estudo não permitiram ainda dar azo a um corpo teórico
consistente, sendo muitas as limitações que têm sido apontadas como estando na base deste
bloqueio. Entre as mesmas encontram-se a existência de confusão e falta de consenso a nível
conceptual e terminológico, a diversidade de abordagens teóricas e empíricas, a falta de
instrumentos de medida adequados e escassez de trabalho empírico (e.g. Devine-Wright e
Lyons, 1997; Dixon e Durrheim, 2000; Giuliani e Feldman, 1993; Hidalgo e Hernandéz,
2001; Krupat, 1983; Lalli, 1992; Twigger-Ross e Uzzell, 1996).
Os trabalhos de Proshansky (1978) e Proshansky e colaboradores (1983), que
concebem a identidade associada ao lugar como uma construção do indivíduo, e os de Lalli
(1988,1992) posteriormente vieram salientar seu carácter social deram contributos
importantes para a compreensão da relação que se estabelece entre identidade e ambiente.
Também as recentes adaptações das teorias da identidade social e auto categorizarão social
(Tajfel, 1978;1981; Tajfel e Turner, 1979; Turner, 1987) e da teoria dos processos identitários
para contexto ambiental se têm mostrado férteis e proveitosas para a compreensão dos
aspectos sociais da identidade associada ao lugar.
A investigação empírica realizada à data sobre este tema, embora não seja extensa,
fornece suporte empírico quanto à influência da identidade associada ao lugar sobre as
percepções (e.g. Bonaiuto et al., 1996; Lalli, 1988, 1992), atitudes (e.g. Lalli e Thomas, 1988,
Identidade associada ao lugar 74
1989, citados por Lalli, 1992; Lima, 1994, 1997 citada por Lima,1998) e opções
comportamentais dos indivíduos face ao seu ambiente (e.g. Nordenstam, 1994, citado por
Bonaiuto et al., 1996), bem como quanto à sua importância para o bem estar dos mesmos (e.g.
Lima e Palma-Oliveira, 2001), mas tem negligenciado claramente o estudo dos conteúdos
simbólicos subjacentes à identidade associada ao lugar, ao assumir uma perspectiva
essencialmente quantitativa. Foi neste âmbito que surgiu o projecto de investigação descrito
nesta dissertação, tendo como objectivo central identificar os conteúdos subjacentes à
identidade associada ao lugar através de uma metodologia qualitativa, e contribuir dessa
forma para a superação da negligência a que o seu estudo tem sido votado. Alguns estudos
(e.g. Bonaiuto et al., 1999; Gustafson, 2001; Lima, 1999), embora não tenham sido realizados
com o intuito de estudar especificamente estes conteúdos, apresentam resultados bastante
sugestivos quando transferidos para este campo, que reforçam a necessidade de se atender aos
conteúdos identitários, isto é, às dimensões de identidade que integram as propriedades e
características que a definem (Breakwell, 1986,1992,1993,2001), por forma a melhor
compreender a relação que se estabelece entre os indivíduos e o seu meio. Sugerem
nomeadamente que indivíduos com o mesmo grau de identidade podem apresentar conteúdos
identitários diferentes que influenciam de forma distinta as suas percepções, atitudes e opções
comportamentais face ao ambiente (Lima, 1999); que as dimensões com base na qual os
indivíduos avaliam o seu ambiente determinam de forma diferente a relação que com o
mesmo estabelecem (Bonaiuto et al., 1999); e que subjacente à identidade associada a lugares
de diferente dimensão podem estar conteúdos simbólicos distintos (Gustafson, 2001). Face a
este conjunto de sugestões, a análise dos conteúdos identitários foi realizada atendendo ao
grau de identidade reportado pelos sujeitos e à dimensão das localidades onde estes vivem,
introduzindo-se ainda como objectivo analisar a relação existente entre as variáveis
anteriormente citadas e a percepção da qualidade ambiental.
Identidade associada ao lugar 75
A realização de um primeiro estudo, de natureza qualitativa, junto de estudantes
universitários permitiu identificar um conjunto bastante significativo de aspectos a que os
indivíduos atendem quando avaliam os lugares com que se identificam. Sendo que existe uma
correspondência entre muitos destes conteúdos e as dimensões e significados reportados por
Bonaiuto et al. (1999) e Gustafson (2001) nos seus estudos, conclui-se que existe alguma
consistência entre as características e dimensões com base nas quais as pessoas avaliam e
edificam a sua identidade associada ao lugar. A aplicação de uma escala de conteúdos
identitários a uma amostra de residentes do Grande Porto, construída com base nos conteúdos
identificados nesse primeiro estudo, revela que os mesmos se agrupam em cinco grandes
dimensões que se prendem genericamente com a funcionalidade do lugar, com a sua beleza
estética, com a riqueza do seu património histórico-cultural, com a capacidade de resposta a
necessidades básicas dos residentes em termos de amizades, privacidade e serviços mínimos,
e por último, a questões relacionadas com a existência de problemas ambientais e sociais.
A forma como os sujeitos caracterizam os lugares onde vivem através destas
dimensões é influenciada quer pela sua identidade com o lugar quer pela dimensão do mesmo.
Em relação à identidade verifica-se que os indivíduos mais identificados com os lugares onde
vivem apresentam sempre uma visão mais positiva do lugar, considerando que os mesmos são
mais funcionais, bonitos, ricos em património histórico e cultural, capazes de satisfazer
necessidades básicas e com menos problemas ambientais, enquanto que os menos
identificados apresentam um comportamento inverso. Quanto à dimensão da localidade, os
seus efeitos sobre as cinco dimensões de conteúdos não são tão lineares e parecem estar
relacionados com a própria dimensão em análise. Apenas na dimensão problemas ambientais
e sociais se verificam a existência de diferenças significativas entre os três tipos de localidade,
com um crescendo de concordância com a mesma em paralelo ao aumento da dimensão do
lugar, com base na existência de uma relação positiva entre as variáveis que é convergente
Identidade associada ao lugar 76
com os resultados de outros estudos que revelam que a qualidade percebida dos ambientes
urbanos decresce com o aumento do tamanho das localidades (e.g. Appelbaum, 1976,
Dahnman, 1983, citados por Bonaiuto e Bonnes, 1996; Fried, 1982). Estas variáveis
interagem significativamente apenas sobre a percepção da capacidade que a localidade possui
para satisfazer as necessidades básicas dos seus habitantes, levando a que os habitantes do
Porto, considerem que esta é menor que os restantes sujeitos, independentemente do seu grau
de identificação com a cidade.
Relativamente à percepção de qualidade ambiental, os resultados revelam que a
dimensão do lugar apenas afecta os juízos efectuados a este respeito por residentes com baixa
identidade com o lugar, acentuando nomeadamente a baixa qualidade percebida por residentes
de pequenos lugares. Para os sujeitos que se identificam bastante com o lugar onde vivem, a
dimensão deste parece não influenciar a percepção que os mesmos têm da qualidade
ambiental, sendo esta marcadamente mais elevada do que percepcionada por aqueles que
menos se identificam com o lugar. Mas os resultados que se consideram mais importantes
relativamente à percepção de qualidade ambiental dizem respeito à sua relação com os
conteúdos identitários e à capacidade destes determinarem a qualidade ambiental percebida
por indivíduos com diferentes níveis de identidade. De acordo com os mesmos, verifica-se a
existência de uma associação positiva com os conteúdos relativos à funcionalidade, beleza,
património histórico- cultural e capacidade de satisfação de necessidades básicas, mas
negativa com a relativa aos problemas ambientais e sociais, pelo que se conclui que a
existência de uma visão genericamente mais positiva do lugar, alicerçada em cada uma destas
dimensões, leva a que se efectuem juízos mais positivos acerca da sua qualidade ambiental.
Para além disso, os conteúdos diferem na sua capacidade de prever a qualidade percebida por
sujeitos com alta e baixa identidade com o lugar, sendo que as considerações relativas ao
património histórico- cultural do lugar não têm peso nesta matéria e merecem ser alvo de
Identidade associada ao lugar 77
maior investigação. No caso dos indivíduos com baixa identidade, a sua percepção de
qualidade do ambiente será tanto maior quanto maior for a percepção de beleza e
funcionalidade do lugar e menor a percepção de capacidade de resposta a necessidades básicas
e existência de problemas ambientais e sociais. Já para os indivíduos altamente identificados
com as suas localidades a qualidade ambiental percebida será maior apenas em função de dois
factores: uma menor percepção de existência de problemas ambientais e sociais e uma maior
percepção de funcionalismo do lugar.
Muito embora os resultados a que se chegou através deste projecto ajudem a elucidar
a relação que se estabelece entre identidade e ambiente, nomeadamente por constituir um
primeiro esforço no sentido da identificação das dimensões avaliativas que estão subjacentes à
mesma, a necessidade de desenvolver mais pesquisa sobre esta problemática persiste. Face à
literatura existente e aos resultados destes estudos, existem algumas linhas de investigação
sobre a problemática da identidade associada ao lugar que se pretende vir a seguir no
desenvolvimento deste projecto, nomeadamente ao nível do programa doutoral. Assim, por
forma a melhor compreender o impacto das características físicas e objectivas do ambiente
sobre a forma como as pessoas se relacionam com o mesmo e constróem as suas identidades,
pretende-se, futuramente, replicar este estudo junto de populações residentes em zonas do país
com características diferentes em termos de desenvolvimento urbano e industrial (e.g.
norte/sul, litoral/interior). A descoberta dos conteúdos identitários valorizados pelos
habitantes das várias regiões que se venham a estudar, poderão ajudar ao desenvolvimento de
projectos de intervenção destinados a, por exemplo, suster o êxodo rural através da promoção
da identidade das localidades e a fomentar o desenvolvimento da identidade com o lugar de
novos residentes ou de programas que visem a satisfação das necessidades reveladas pela
populações. Outra linha de investigação que se pretende vir a implementar prende-se com a
análise dos processos de identificação com vários lugares em simultâneo e escalpelização dos
Identidade associada ao lugar 78
conteúdos que favorecem a identificação com cada um dos mesmos (e.g. bairro, cidade,
região), no sentido dos trabalhos realizados por Cuba e Hummon (1993) e por Hidalgo e
Hérnandez (2001). Dado o crescimento urbano a que se assiste no litoral, resultante
nomeadamente de fenómenos de êxodo rural e imigração, as fronteiras entre os lugares estão a
torna-se progressivamente mais ténues, sobretudo nos grandes centros populacionais. Neste
contexto seria interessante avaliar também como as pessoas lidam com este facto, e em que
medida a percepção subjectiva das fronteiras dos lugares influencia o locus onde ancoram as
suas identidades, na linha dos trabalhos desenvolvidos por Cortês e Aragonés (1991) e por
Aragonés e colaboradores (1992) relativamente a percepção de território e identidade social.
Identidade associada ao lugar 79
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Identidade associada ao lugar 84
ANEXOS
Identidade associada ao lugar 85
Anexo 1
Listagem das localidades referidas pelos sujeitos: número de observações e classificação em função da dimensão.
Dimensão da Localidade
Total
Localidade
Cidade Vila Aldeia
Alenquer 1 1 Algés 1 1 Almada 2 2 Alverca 1 1 Amadora 3 3 Amora 1 1 Amoreira 1 1 Anças 1 1 Azambuja 1 1 Baixa da Banheira 3 3 Brotas 1 1 Cacém 2 2 Cadaval 1 1 Caldas da Rainha 1 1 Carcavelos 2 2 Carregado 1 1 Cascais 1 1 Castanheira do Ribatejo 1 1 Coimbra 3 3 Costa da Caparica 1 1 2 Cova da Piedade 1 1 Covilhã 1 1 Entrocamento 1 1 Feijó 1 1 Ferreira do Zézere 1 1 Feteira 1 1 Foros de Amora 1 1 Guarda 1 1 Lagoa 1 1 Linda a Velha 2 2 Lisboa 15 15 Maia 1 1 Massama 1 1 Mercês 1 1 Miratejo 1 1 Montijo 1 1 Odivelas 1 1 Oeiras 1 1 Paivas 2 2
Identidade associada ao lugar 86
Dimensão da Localidade
Total
Localidade
Cidade Vila Aldeia
Palmela 1 1 Parede 1 1 Portela da Azóia 2 2 Porto 1 1 Póvoa de Santo Adrião 1 1 Praia das Maças 1 1 Salvaterra de Magos 1 1 Santa Clara Nova 1 1 Santa Eugénia 1 1 Santa Maria de Lamas 1 1 Santarém 1 1 Sertã 1 1 Sesimbra 1 1 Setubal 4 4 Sines 1 1 Sintra 2 2 São Miguel 1 1 Tomar 1 1 Torre da Marinha 1 1 Torres Vedras 2 2 Unhais o Velho 1 1 Vendas Novas 2 2 Viana do Castelo 1 1 Vila Franca de Xira 1 1 Vila Nova de Santo André 2 2 Vila Nova de São Bento 1 1 Vila Verde de Ficalho 1 1 Vila Viçosa 1 1 Viseu 1 1 Óbidos 1 1
Total 56 37 10 103
Identidade associada ao lugar 87
Anexo 2
Dicionário de Categorias5
Dimensão Social Categoria Definição Vinculação ao Lugar
Referência ao facto de sentir saudades da localidade quando está ausente e não conceber viver noutro sítio definitivamente. Ex.: "não me imagino a viver noutro local do país" 09, C, N.S.;" não me imagino a viver definitivamente noutro sítio" 02, C, M; "sempre que me ausento de Lisboa acabo por sentir um desejo enorme de regresso" 47, C, H.
Ligação ao lugar
Referência ao sentimento de conforto, bem estar e segurança associado à localidade. Ex.: "onde encontro paz de espírito" 40, A, M; "onde me sinto melhor" 33, C, H;" o facto de me sentir em casa" 03, C, M;" uma pessoa sente-se segura estando lá" 11, C, M.
Participação Social
Referência à participação em actividades e iniciativas locais de índole cultural, recreativo, desportivo ou outro. Ex..: "sempre colaborei em projectos relativos à comunidade" 02, C, M; " ando nos escuteiros de Linda-a-Velha o que faz ligarmo-nos muito mais à localidade" 41, V, M.
Redes Sociais Referência ao desenvolvimento de laços afectivos na localidade (familiares, amigos ou vizinhos) e consequente sentimento de familiaridade social. Ex..: "criei laços afectivos muito fortes" 03, C, M; "onde tenho o meu grupo de amigos" 13, V, M; "ter estabelecido relações sociais coesas" 02, C, M; "onde os meus pais moram e tenho o meu grupo de amigos" 13, V, M.
Falta de Privacidade
Referência à existência de falta de privacidade decorrente da falta de anonimato e da intromissão de terceiros na vida do sujeito. Ex.: "falta de anonimato" 19, A, M; "há intromissões na vida alheia" 20, A, M; "as pessoas são um pouco intrometidas" 15, C, M; " mais coscuvilheiros" 51, C, M.
Privacidade Referência à existência de privacidade na localidade. Ex.: "não é tão pequena que todos saibam da vida dos outros" 02, C, M.
Raízes Referência há existência de raízes no local derivadas do facto de ter nascido, sido criado ou vivido durante muito tempo na localidade. Ex.: "facto de ter crescido lá" 02, C, M; "foi lá que nasci e tenho sido criada" 04, V, M; "morei lá bastantes anos" 50, C,M.
Espírito de Comunidade
Referência a características que remetem para a existência de um espírito de comunidade, como sejam a união, entreajuda, solidariedade, convívio entre a população e desenvolvimento de actividades em grupo. Ex.: “há um grande convívio entre todos", 16, V, M; "é uma população essencialmente unida" 32, V, M; "entreajuda entre vizinhos" 07, V, M; "têm tendência para desenvolver projectos em grupo" 02, C, M.
Identidade associada ao lugar 88
Caracterização dos Habitantes Categoria Definição Mentalidade Aberta
Caracterização dos habitantes da localidade como tendo uma mentalidade aberta e/ou menos retrógrada comparativamente com os de outras localidades. Ex.: " mente mais aberta"14, C, M; " a mentalidade não é tão retrógrada como noutros locais" 09, C, NS.
Simpatia Caracterização dos habitantes da localidade como sendo pessoas simpáticas, agradáveis, alegres, afáveis e respeitadoras. Ex.: "são pessoas agradáveis" 01, V, M; "pessoas respeitadoras" 65, C, M.
Hospitalidade Caracterização dos habitantes da localidade como sendo pessoas hospitaleiras e acolhedoras. Ex.: "os habitantes são muito hospitaleiros" 02, C, M, "acolhedores"18, V, H.
Simplicidade Caracterização dos habitantes da localidade como sendo pessoas humildes, sinceras, simples, calmas, pacatas, com pouca ambição e alguma ingenuidade. Ex.: "humildade, sinceridade, ingenuidade", 56, C, M.
Mentalidade Fechada
Caracterização dos habitantes da localidade como pessoas conservadoras e de mente fechada. Ex.: "mente das pessoas é muito fechada" 13, V. M; "conservadorismo" 33, C, H.
Impessoalidade Caracterização dos habitantes locais como pessoas menos abertas do ponto de vista social, menos simpáticas, indiferentes ao outro. Ex.: "pessoas mais fechadas" 08, V, M; "são menos acolhedoras e simpáticas", 93, C, M.
Ostentação Caracterização dos habitantes como pessoas de ostentação, consumistas. Ex.: "os habitantes daquela zona tornaram-se ostentativos" 77, V, M.
Ambição Caracterização dos habitantes como pessoas ambiciosas, dinâmicas e independentes. Ex.: "dinâmicos" 05, C, M..
Pronúncia Específica
Referência ao facto da população local possuir uma pronúncia própria ou fazer um uso particular da língua portuguesa. Ex.: "o sotaque", 97, C, H; "utilizam a língua portuguesa na sua forma mais correcta" 52, C, M.
5 O código que acompanha cada exemplo é constituído pelo número do questionário, seguido do tipo de
localidade a que o sujeito de refere (C- cidade, V- vila, A- aldeia), e do sexo do sujeito (M – Mulher, H- Homem, NS – não se sabe por falta de preenchimento deste campo no questionário).
Identidade associada ao lugar 89
Património Histórico e Cultural Categoria Definição Monumentos Referência geral a monumentos locais ou alusão a monumentos locais
específicos (castelos, mosteiros, igrejas, estátuas, outros). Ex.: "monumentos históricos" 08, V, M; "Cristo Rei", 71, C, M.
Património Arquitectónico
Avaliação positiva do património e dos traços arquitectónicos da localidade, bem como desejo da sua conservação. Ex.: "estética antiga" 03, C, M; "gostaria que se preservasse o ambiente histórico sendo mantidas as estruturas dos prédios antigos que caracterizam a nossa cidade" 14, C, M; "reabilitação da parte antiga" 13, V, M.
Passado Histórico
Alusão à existência de um passado histórico rico ou com forte carga cultural. Ex.: "carga histórica e cultural muito forte" 31, V, H; "Terra de reis e rainhas, de poetas e escritores" 48, V, M.
Tradições Referência a tradições locais (festas, feiras, romarias, iniciativas sazonais, outras), e avaliação positiva da sua preservação. Ex.: “a Festa dos Tabuleiros é uma tradição muito colorida que ainda não morreu", 03, C, M; "Feira da Agricultura" 72, V,M; "presépio em ponto grande no Natal", 13, V, M; "terra dos forcados" 80, C, M.
Gastronomia Avaliação positiva da gastronomia local, vinhos e outros produtos considerados singulares (ex.: pão, peixe). Ex.: O vinho da região é um dos melhores do país" 01, V, M; "adoro o pão que se faz lá, é único", 03, C, M; "a gastronomia é muito apreciada" 03, C, M.
Identidade associada ao lugar 90
Património Natural Categoria Definição Beleza da Paisagem
Avaliação positiva das paisagens locais e do património natural em geral. Ex.: " a paisagem que envolve a vila é idílica" 01, V, M; "vista linda sobre o Tejo" 14, C, M.
Proximidade com a Natureza
Referência ao facto da localidade se encontrar perto do campo, permitir ainda o contacto e proximidade com a natureza. Ex.: "onde ainda se pode ouvir os passarinhos", 60, V, M; "contacto com a natureza", 08, V, M; "o prazer do campo" 95, A, M.
Praia e Mar Referência à proximidade da localidade face a praias e ao mar como uma vantagem, e avaliação positiva destes cenários. Ex.: "está próxima da praia", 71, C, M; "terra que em termos naturais é muito bonita, principalmente a praia e o mar" 06, V, M.
Rios e Outros Recursos Hídricos
Referência à existência de rios, lagoas e cascatas locais e sua avaliação positiva. Ex.: "o rio Zézere" 39, V, M; "cascatas em lugares secretos" 12, C, M; "banhada por um rio maravilhoso" 47, C, H.
Serras Referência à existência de serras locais e avaliação positiva da proximidade da localidade às mesmas. Ex.: proximidade com a Serra da Estrela", 97, C, M; "o ambiente mítico da serra" 08, V, M.
Espaços Verdes Suficientes
Avaliação positiva dos espaços verdes construídos (jardins, parques) existentes na localidade. Ex.: "jardim bonito" 02, C, M.
Espaços Verdes Insuficientes
Avaliação negativa dos espaços verdes construídos existentes na localidade e referências à necessidade de preservar e construir mais espaços desta natureza. Ex.: "mais locais verdes" 05, C, M; "que fossem preservados mais espaços naturais" 18, V, H.
Identidade associada ao lugar 91
Caracterização do Ambiente Físico e Social Categoria Definição Qualidade Ambiental
Avaliação positiva da qualidade do ambiente local, com referência à existência de um bom ambiente físico, bom clima e inexistência de poluição a vários níveis. Ex.: "local limpo" 15, C, M; "ribeiras e rios limpos" 12, C, M; "ar puro que se respira" 17, V, M; " a poluição é diminuta" 01, V, M; "o tempo é bastante bom" 18, V, H.
Poluição Avaliação negativa da qualidade do ambiente local, com referência à existência de um mau ambiente físico e poluição a vários níveis. Inclui preocupação manifestada com a degradação do ambiente físico. Ex.: "muito barulhenta" 05, C, M; "fumo" 05, C, M; "a poluição é um ponto que tem vindo a preocupar-me" 04, V, M.
Clima Inclui descrições não avaliativas do clima da localidade. As avaliações positivas do clima são incluídas na categoria Qualidade Ambiental. Ex.: "frio" 51, C, M.
Bulício Caracterização da localidade como sendo agitada, alegre e com vida. Ex.: "tem muita vida" 09, C, NS; "grande agitação tanto de dia como de noite" 05, C, M; "alegre" 18, V, M.
Tranquilidade Caracterização da localidade como sendo calma, tranquila, relaxante e com pouco stress. Ex.: "muita tranquilidade" 43, V, M; " há pouco stress" 11, C, M.
Avaliação Positiva da Localidade
Avaliação positiva da localidade em geral, como o ser bonita, agradável, luminosa, simpática, linda, entre outras. Ex.: "terra muito bonita" 06, V,M; "é uma terra linda" 11, C, M; "local agradável" 16, V, M; "bonita, luminosa" 05, C, M.
Centralidade Avaliação positiva da localização geográfica da localidade e sua proximidade e centralidade face a outros centros populacionais. Ex.: "está bem situada" 04, V, M; "proximidade a Lisboa" 06, V, M.
Isolamento Geográfico
Avaliação negativa da localização geográfica da localidade e consequente isolamento geográfico ou distanciamento de centros urbanos importantes. Ex.:" a distância do centro urbano" 87, V, H; "é um pouco longe de Lisboa" 96, A, M.
Identidade associada ao lugar 92
Caracterização Económica Categoria Definição Desenvolvimento da Localidade
Caracterização da localidade como se encontrando em crescimento ou desenvolvimento. Ex.: "sítio em crescimento", 10, C, M.
Estagnação da Localidade
Referência ao baixo desenvolvimento observado na localidade. Ex.: "pouco desenvolvimento económico que se tem observado" 19, A, M.
Actividades do Sector Primário
Referência ao facto de, na localidade, ainda se desenvolverem com grande expressão actividades económicas pertencentes ao sector primário (e.g. agricultura e pescas). Ex.: "existem muitas actividades ligadas ao mar" 09, C, NS; "o sector predominante é talvez a agricultura" 20, A, M.
Actividades do Sector Terciário
Referência ao facto de, na localidade, se desenvolverem com forte expressão actividades relacionadas com o sector terciário (e.g. serviços e comércio). Ex.: "Falta ou quase ausência de outros sectores de actividade que não o terciário" 06, V, M; "actividades essencialmente comerciais" 04, V, M.
Maiores Oportunidades de Emprego
Referência à existência de maiores oportunidades de emprego na localidade comparativamente com outros locais. Ex.: "maior facilidade de emprego".
Menores Oportunidades de Emprego
Referência à existência de menores oportunidades de emprego na localidade e necessidade de criação de melhores condições e mais postos de trabalho na mesma. Ex.: "criação de condições de trabalho naquela zona" 08, V, M; "local com pouca oferta ao nível do mercado de trabalho" 19, C, M.
Menor Custo de Vida Referência à existência de um menor custo de vida na localidade, com a prática de preços mais acessíveis. Ex.: "preços dos produtos alimentares e vestuário são mais baratos" 11, C, M; "podes ir ao cinema por uma quantia insignificante" 17, V, M.
Maior Custo da Habitação
Referência ao elevado custo da habitação na localidade, sendo este aspecto visto como uma desvantagem. Ex.: "aquisição de habitação cada vez mais cara" 45, V, NS; "valor excessivo das casas" 47, C, H.
Identidade associada ao lugar 93
Caracterização Sócio-Demográfica Categoria Definição Pequena Dimensão Descrição da localidade como sendo de pequena dimensão.
Ex.: “é muito pequena”40, V, M; Grande Dimensão Descrição da localidade como sendo de grande dimensão.
Ex.: "grande" 26, C, H. Elevada Densidade Populacional
Referência ao povoamento excessivo da localidade. Inclui a preocupação com o crescimento da densidade populacional no futuro. Ex.: "densidade populacional" 08, V, M; "está a ficar cada vez mais habitado" 45, V, NS.
População Idosa Referência à existência de um número significativo de idosos na localidade. Ex.: Começa a haver muitos idosos" 13, V, M.
População Jovem Referência à existência de um número significativo de jovens na localidade. Ex.: "muita gente jovem" 18, V, H.
Dormitório Caracterização da localidade como sendo um dormitório ou subúrbio de outra localidade maior. Ex.: "dormitório" 07, V, M; "ambiente de subúrbio de uma cidade" 07, V, M; "essencialmente constituído por prédios e edifícios de moradias" 07, V, M.
Segurança Caracterização da localidade como sendo segura e bem frequentada. Ex.: "segurança nas ruas" 13, V, M; " terra bem frequentada" 75, V, M.
Insegurança Caracterização da localidade como sendo insegura, perigosa, com elevados níveis de violência e criminalidade, problemas sociais, bem como referência à necessidade de maior policiamento e vigilância na zona. Inclui referências à proximidade de zonas problemáticas. Ex.: "insegurança nas ruas" 07, V, M; "Bairro das Marianas faz com que as pessoas tenham medo desta zona" 66, V, M; "mais vigilância acima de tudo" 16, V, M; "problemas sociais" 08, V, M.
Diversidade/ Heterogeneidade de Pessoas
Referência à existência de diversidade ao nível das origens sociais e culturais dos habitantes da zona e à possibilidade de, em função disso, se poder conhecer pessoas bastante diferentes. Ex.: “centro de diversidade, é heterogénea” 05, C,M; “contacto com muita gente interessante" 36, C, M.
Identidade associada ao lugar 94
Caracterização das Infra-Estruturas e Serviços Locais Categoria Definição Acessibilidade de Serviços
Referência ao facto da localidade oferecer bons serviços e permitir um bom acesso à informação. Ex.: "fácil acesso a todos os serviços", 02, C, M; "acesso a maior número de informações" 05, C, M "tem tudo relativamente perto" 02, C, M.
Oferta Inadequada de Serviços
Avaliação negativa dos serviços existentes na localidade e referência à necessidade de aumentar a oferta e diversidade dos mesmos. Ex.: "Mais lojas" 19, A, M; "falta de determinados estabelecimentos e pouca variedade de serviços" 22, C, M; "fraco desenvolvimento comercial" 25, C, M; "poucos estabelecimentos comerciais" 28, A, M.
Infra-Estruturas Rodoviárias Insuficientes
Avaliação negativa das infra-estruturas rodoviárias existentes (estradas, acessos, ICs, auto-estradas) e referência à necessidade de conservação e criação de mais vias de comunicação. Inclui também referências ao problema do estacionamento. Ex.: "mais vias de comunicação" 12, C, M;" falta de sítios para estacionar" 94, V, H.
Infra-Estruturas Rodoviárias Suficientes
Avaliação positiva das infra-estruturas rodoviárias existentes (estradas, acessos, ICs, auto-estradas, estacionamentos) na localidade . Ex.: "Bons acessos", 53, C, H; "óptimos acessos" 104, C, M.
Trânsito Elevado Percepção de um alto nível de tráfego na localidade e sua avaliação negativa. Ex.:" tem imenso trânsito" e " o número de carros na estrada" 05, C, M.
Trânsito Diminuto Percepção de um reduzido nível de tráfego na localidade e avaliação positiva deste facto. Ex.:" tem um trânsito relativamente fácil" e "pouco trânsito" 80, C, M.
Transportes Suficientes
Avaliação positiva dos serviços de transportes existentes na localidade, ao nível da lotação, preço e cadência. Ex.: "tem imensos transportes públicos" 78, C, H; " os transportes públicos são frequentes e nunca estão lotados" 11, C, M.
Transportes Insuficientes
Avaliação negativa do serviço de transportes existentes e referência à necessidade do mesmo ser melhorado. Ex.: "melhores transportes" 03, C, M; "melhores ligações ferroviárias até Tomar" 39, V, M.
Infra-Estruturas de Ensino Insuficientes
Avaliação negativa das infra-estruturas de ensino existentes e desejo de ver construídos novos equipamentos. Inclui a falta de bibliotecas e centros de estudo. Ex.: "Queria que fosse construída uma escola secundária" 17, V, M.
Infra-Estruturas de Ensino Suficientes
Referência à existência de adequadas infra-estruturas de ensino na localidade. Inclui as referências à existência de bibliotecas e centros de estudo. Ex.: "boas escolas" 50, C,M; "bem desenvolvida no ensino académico" 97, C, H.
Identidade associada ao lugar 95
Caracterização das Infra-Estruturas e Serviços Locais (continuação) Categoria Definição Infra-Estruturas Desportivas Suficientes
Avaliação positiva das infra-estruturas desportivas existentes. Inclui referência a equipamentos e clubes locais. Ex.: "tem um clube desportivo e um campo de futebol" 76, A, M; "estádio nacional com imensas actividades desportivas para desfrutar" 41, V, M.
Infra-Estruturas Desportivas Insuficientes
Avaliação negativa das infra-estruturas desportivas existentes e referência à necessidade de criação das mesmas. Ex.: "piscinas sem condições" 02, C, M.
Infra-Estruturas e Serviços de Saúde Insuficientes
Percepção de falhas ao nível das infra-estruturas e serviços de saúde existentes na localidade (hospitais, centros de saúde) e referência à necessidade de criação e melhoramento dos mesmos. Ex.: "[que construíssem] um centro de saúde novo", 02, C, M; "a área da saúde também podia ser melhorada, as infra-estruturas estão saturadas" 04, V, M.
Infra-Estruturas e Serviços de Saúde Suficientes
Avaliação positiva das infra-estruturas e serviços de saúde existentes na localidade (hospitais, centros de saúde). Ex." bons recursos humanos (hospitais, centros de saúde)" 27, V, M; "centro de saúde novo (...)existência de três farmácias sempre abertas"02, C, M.
Falta de Controlo e de Planeamento Urbano Adequado
Referências à inexistência de planeamento urbano e controlo desadequado sobre a construção civil. Ex.: "desorganização urbanística" 08, V, M; "construção desenfreada de prédios de habitação e centros comerciais" 27, C, M.
Existência de Controlo e Planeamento Urbano Adequado
Caracterização da localidade como sendo estruturada e organizada, deixando antever a existência de um adequado controlo e planeamento urbano. Ex." tem um limite de desenvolvimento imposto pela câmara" 02, C, M; "bem organizada em termos de estrutura e funcionamento" 27, V, H; "organizada"49, C, M.
Infra-Estruturas Única no País
Referência à existência na localidade de uma infra-estrutura única em todo o país. Ex.: " tem o museu do comboio" 10, C, M; "cacilheiros" 71, C, M; 02, C, M; "única localidade que tem metro" 92, C, M; "é o terminal dos famosos eléctricos de Lisboa" 94, V, H.
Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer
Avaliação positiva da oferta existente a nível cultural, turístico e de lazer. Ex.: "disponibilidade e variedade de espectáculos" 59, C, M; "tem bares para sair à noite" 09, C, NS; "local turístico" 08, V, M.
Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer
Avaliação negativa da oferta existente a nível cultural, turístico e de lazer e expressão da necessidade de serem criadas mais condições, eventos e espaços com este fim. Ex.: "poucas ocupações ao fim de semana", 02, C, M; "cidade muito pobre em termos culturais" 34, C, M; "não tem grande interesse turístico" 17, V, M.
Identidade associada ao lugar 96
Anexo 3
Frequência das categorias apuradas através da análise de conteúdo ( percentagens em função da dimensão da localidade entre parêntesis)
Dimensão da Localidade Categoria Cidade
(n=56) Vila ou
Aldeia (n=47) Total
(n=103) Acessibilidade de Serviços 8(14,3) 7(14,9) 15(14,6) Actividades do Sector Primário 0 2(4,3) 2(1,9) Actividades do Sector Terciário 0 3(6,4) 3(2,9) Ambição 0 1(2,1) 1(1) Avaliação Positiva da Localidade 22 (39,3) 25(53,2) 47(45,6) Beleza da Paisagem 10(17,9) 7(14,9) 16(15,5) Bulício 9(16,1) 2(4,3) 11(10,7) Centralidade 17(30,4) 14(29,8) 31(30,1) Clima 6(10,7) 4(8,5) 10(9,7) Desenvolvimento da Localidade 7(12,5) 2(4,3) 9(8,7) Diversidade/ Heterogeneidade de Pessoas
2(3,6) 5(10,6) 7(6,8)
Dormitório 3(5,4) 4(8,5) 7(6,8) Elevada Densidade Populacional 3(5,4) 5(10,6) 8(7,8) Espaços Verdes Insuficientes 5(8,9) 9(19,1) 14(13,6) Espaços Verdes Suficientes 23(41,1) 8(17) 31(30,1) Espírito de Comunidade 4(7,1) 14(29,8) 18(17,5) Estagnação da Localidade 2(3,6) 4(8,5) 6(5,8) Existência de Controlo e Planeamento Urbano Adequado
3(5,4) 2(4,3) 5(4,9)
Falta de Controlo e Planeamento Urbano Adequado
6(10,7) 3(6,4) 9(8,7)
Falta de Privacidade 6(10,7) 5(10,6) 11(10,7) Gastronomia 3(5,4) 5(10,6) 8(7,8) Grande Dimensão 5(8,9) 1(2,1) 6(5,8) Hospitalidade 4(7,1) 5(10,6) 9(8,7) Impessoalidade 5(8,9) 1(2,1) 6(5,8) Infra-Estruturas de Ensino Insuficientes 7(12,5) 4(8,5) 10(9,7) Infra-Estruturas de Ensino Suficientes 3(5,4) 1(2,1) 4(3,9) Infra-Estruturas Desportivas Insuficientes
3(5,4) 4(8,5) 7(6,8)
Infra-Estruturas Desportivas Suficientes 0 3(6,4) 3(2,9) Infra-Estruturas e Serviços de Saúde Insuficientes
3(5,4) 6(12,8) 9(8,7)
Identidade associada ao lugar 97
Dimensão da Localidade Categoria Cidade
(n=56) Vila ou
Aldeia (n=47) Total
(n=103) Infra-Estruturas e Serviços de Saúde Suficientes
2(3,6) 0 2(1,9)
Infra-Estruturas Rodoviárias Insuficientes
9(16,1) 6(12,8) 11(10,7)
Infra-Estruturas Rodoviárias Suficientes 5(8,9) 0 5(4,9) Infra-Estruturas Únicas no País 5(8,9) 1(2,1) 6(5,8) Insegurança 11(19,6) 7(14,9) 18(17,5) Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer
13(23,2) 11(23,4) 24(23,3)
Isolamento Geográfico 0 2(4,3) 2(1,9) Ligação ao lugar 5(8,9) 3(6,4) 8(7,8)% Maior Custo da Habitação 2(3,6) 2(4,3) 4(3,9) Maiores Oportunidades de Emprego 2(3,6) 0 2(1,9) Menor Custo de Vida 1(1,8) 1(2,1) 2(1,9) Menores Oportunidades de Emprego 10(17,9) 7(14,9) 17(16,5) Mentalidade Aberta 3(5,4) 1(2,1) 4(3,9) Mentalidade Fechada 1(1,8) 2(4,3) 3(2,9) Monumentos 8(14,3) 6(12,8) 14(13,6) Oferta Inadequada de Serviços 3(5,4) 5(10,6) 8(7,8) Ostentação 1(1,8) 1(2,1) 2(1,9) Participação Social 2(3,6) 1(2,1) 3(2,9) Passado Histórico 6(10,7) 6(12,8) 12(11,7) Património Arquitectónico 8(14,3) 3(6,4) 11(10,7) Pequena Dimensão 1(1,8) 5(10,6) 6(5,8)% Poluição 8(14,3) 2(4,3) 10(9,7) População Idosa 0 1(2,1) 1(1) População Jovem 1(1,8) 1(2,1) 2(1,9) Privacidade 1(1,8) 1(2,1) 2(1,9) Pronúncia Específica 2(3,6) 1(2,1) 3(2,9) Proximidade com a Natureza 2(3,6) 14(29,8) 16(15,5) Praia e Mar 14(25) 15(31,9) 29(28,2) Serras 4(7,1) 3(6,4) 7(6,8) Qualidade Ambiental 9(16,1) 12(25,5) 21 (20,4) Raízes 34(60,7) 29(66,7) 63(61,2) Redes Sociais 26(46,4) 28(59,6) 54(52,4) Rios e Outros Recursos Hídricos 5(8,9) 4(8,5) 9(8,7)
Identidade associada ao lugar 98
Dimensão da Localidade Categoria Cidade
(n=56) Vila ou
Aldeia (n=47) Total
(n=103) Segurança 9(16,1) 7(14,9) 16(15,5) Simpatia 12(21,4) 12(25,5) 24(23,3) Simplicidade 7(12,5) 7(14,9) 14(13,6) Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer 19(33,9) 8(17) 27(26,2) Tradições 10(17,9) 6(12,8) 16(15,5) Tranquilidade 25(45) 31(66) 56(54,4) Trânsito Diminuto 2(3,6) 1(2,1) 3(2,9) Trânsito Elevado 13(23,2) 5(10,6) 18(17,5) Transportes Públicos Insuficientes 3(5,4) 4(8,5) 7(6,8) Transportes Públicos Suficientes 7(12,5) 1(2,1) 8(7,8) Vinculação ao Local 6(10,7) 1(2,1) 7(6,8)
Departamento de Psicologia Social e das Organizações
5.º Mestrado em Psicologia Social e Organizacional
Percepção de Riscos Ambientais e de Saúde
Identidade associada ao lugar:
Conteúdos identitários e percepção de qualidade ambiental
em localidades de diferente dimensão.
Tese apresentada por: Ana Patrícia Pereira Duarte Baltazar
Sob orientação de: Profª. Doutora Maria Luísa Pedroso de Lima
15 de Novembro de 2002
Identidade associada ao lugar 2
Este projecto foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e pelo Fundo Social
Europeu no âmbito do III Quadro Comunitário de Apoio (SFRH/BM/4383/2001).
Identidade associada ao lugar 3
AGRADECIMENTOS
Desejo agradecer a um conjunto de pessoas sem o apoio das quais este projecto não
teria certamente sido concretizado:
– Ao Luís, meu marido, por ter abraçado este projecto como se de um projecto seu se
tratasse. O seu apoio e compreensão, ao longo destes últimos dois anos, foram cruciais
para a concretização do mesmo.
– À Profª. Luísa Lima, sem a orientação da qual não teria chegado a bom porto nesta
aventura. Agradeço-lhe a disponibilidade que demonstrou ao longo deste percurso, os
incentivos, as críticas e sugestões que ajudaram a dar corpo e a enriquecer este trabalho,
mas sobretudo a amizade que revelou para comigo.
– À Carla Mouro, amiga com quem partilhei a aventura da realização deste mestrado.
Agradeço-lhe precisamente esse facto: o ter partilhado comigo esta aventura. Sem a
permanente partilha de opiniões, de conhecimentos, de sugestões, mas também de
sentimentos e inquietações esta aventura não teria sido certamente a mesma.
– À Soraia Jamal que me ajudou na análise de conteúdo e à Manuela Moura que me brindou
com a sua amizade e apoio ao longo destes dois anos e me deu uma ajuda indispensável na
revisão desta dissertação.
– À minha Família e Amigos em geral, aos quais agradeço a amizade, o apoio incondicional
e a confiança que sempre revelaram e continuam a revelar nas minhas capacidades.
Bem hajam!
Identidade associada ao lugar 4
ÍNDICE
Página Resumo........................................................................................................................... 6 Abstract .......................................................................................................................... 7 Introdução....................................................................................................................... 8 Estudo 1
Objectivos.............................................................................................................. 27 Método.................................................................................................................. 27
Sujeitos......................................................................................................... 27 Instrumento e Procedimento........................................................................ 28 Análise de Conteúdo................................................................................... 30
Resultados............................................................................................................ 31 Identidade associada ao lugar...................................................................... 31 Conteúdos identitários................................................................................. 34
Conclusões............................................................................................................ 42 Estudo 2
Objectivos.............................................................................................................. 47 Método.................................................................................................................. 48
Sujeitos......................................................................................................... 48 Instrumento e Procedimento........................................................................ 51
Resultados............................................................................................................. 53 Estrutura factorial dos conteúdos identitários.............................................. 53 Identidade associada ao lugar: diferenças em função da dimensão da localidade.....................................................................................................
54 Conteúdos identitários: diferenças em função do grau de identidade associada ao lugar........................................................................................
56 Conteúdos identitários: diferenças em função da dimensão da localidade.....................................................................................................
57 Conteúdos identitários: efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da localidade...................................................................
59 Qualidade ambiental percebida: diferenças em função da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade..........................................
62 Relação entre identidade associada ao lugar, conteúdos identitários e qualidade ambiental percebida.....................................................................
63 Percepção de qualidade ambiental em indivíduos com diferentes graus de identidade associada ao lugar: capacidade preditiva dos conteúdos identitários...................................................................................................
65 Conclusões............................................................................................................. 67
Conclusões Gerais........................................................................................................... 73 Referências...................................................................................................................... 79 Anexos ........................................................................................................................... 84
Identidade associada ao lugar 5
ÍNDICE DE TABELAS
Página Tabela 1. Frequência das categorias em função da dimensão da localidade: categorias
com mais de 10 observações.......................................................
35 Tabela 2. Medidas de discriminação e coordenadas das categorias nas dimensões da
Homals..........................................................................................................
37 Tabela 3. Características sócio-demográficas da população por localidade................. 49 Tabela 4. Características sócio-demográficas da amostra por localidade..................... 49 Tabela 5. Características sócio-demográficas dos grupos constituídos........................ 50 Tabela 6. Estrutura factorial dos conteúdos identitários (rotação varimax).................. 55 Tabela 7. Diferenças nos conteúdos identitários em função do grau de identidade
associada ao lugar..........................................................................................
57 Tabela 8. Diferenças nos conteúdos identitários em função da dimensão da
localidade.......................................................................................................
59 Tabela 9. Correlações entre identidade associada ao lugar, conteúdos identitários e
qualidade ambiental percebida. ....................................................................
65 Tabela 10. Regressão múltipla dos conteúdos identitários sobre a qualidade
ambiental percebida por indivíduos com baixa e alta identidade associada ao lugar (método enter).................................................................................
66
ÍNDICE DE FIGURAS
Página Figura 1. Representação gráfica das categorias nas dimensões da Homals................... 39 Figura 2. Representação gráfica das características dos sujeitos nas dimensões da
Homals.......................................................................................................... 41
Figura 3. Efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da localidade sobre dimensão resposta a necessidades básicas.........................
60 Figura 4. Efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da
localidade sobre dimensão estética................................................................
61 Figura 5. Efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da
localidade sobre a percepção de qualidade ambiental.................................... 63
ÍNDICE DE ANEXOS
Página Anexo 1. Listagem das localidades referidas pelos sujeitos: número de observações e
classificação em função da dimensão.........................................................
85 Anexo 2. Dicionário de categorias................................................................................. 87 Anexo 3. Frequência das categorias apuradas através da análise de conteúdo............. 96
Identidade associada ao lugar 6
RESUMO
Nos últimos anos tem crescido o interesse pelo estudo da identidade associada aos lugares. Um dos aspectos que tem sido negligenciado pela literatura sobre o tema é a análise dos conteúdos subjacentes à identidade associada ao lugar, ou seja, das características atribuídas pelos indivíduos ou grupos ao seu ambiente que são incorporadas nos seus auto-conceitos. Neste projecto de investigação procurou-se identificar os conteúdos subjacentes à identidade associada ao lugar, atendendo nomeadamente à força da identidade associada ao lugar e à dimensão do lugar de identificação. Dado existir suporte empírico para a influência da identidade associada ao lugar sobre a percepção de qualidade ambiental, procurou-se ainda analisar, em primeiro lugar, a relação existente entre identidade, conteúdos e qualidade ambiental percebida, e em segundo, a capacidade preditiva dos conteúdos identitários sobre a qualidade ambiental percebida por indivíduos com diferente nível de identidade. Desenvolveram-se dois estudos exploratórios, o primeiro de natureza qualitativa junto de estudantes universitários, e o segundo de natureza correlacional junto de uma amostra de residentes do Grande Porto, cujos resultados apontam para a existência de cinco grandes dimensões de conteúdo: instrumental, estética, histórico-cultural, resposta a necessidades básicas e problemas ambientais e sociais. A utilização das mesmas na descrição dos lugares de residência é influenciada positivamente pela identidade dos indivíduos e pela dimensão do lugar, sendo que no segundo caso a influência não é linear. Relativamente à relação entre identidade, conteúdos e percepção de qualidade ambiental, verificou-se existir uma associação positiva entre as variáveis. A capacidade preditiva dos conteúdos relativamente à qualidade ambiental percebida por sujeitos com baixa vs. alta identidade é todavia diferente. A qualidade ambiental percebida pelos indivíduos menos identificados com o lugar onde vivem é explicada pela percepção de funcionalidade, beleza, capacidade de resposta a necessidades básicas e existência de problemas ambientais e sociais. No caso de indivíduos mais fortemente identificados, apenas as dimensões funcional e problemas ambientais e sociais contribuem para a explicação da variância na percepção de qualidade ambiental. Em ambas as situações, os julgamentos relativos à riqueza histórico-cultural do lugar não apresentam qualquer valor preditivo. Os resultados são discutidos à luz da literatura relevante. Apontam-se algumas linhas de futura investigação.
Identidade associada ao lugar 7
ABSTRACT
In the last years, the interest in the study of place related identity has been grown. One of the aspects that has been neglected by the literature in this area is the identity contents analysis or those features attributed by the individuals or groups to their environment which are incorporated in their self or group-concepts. In this investigation project the aim was to identify the place identity contents, taking into account the strength of the place identity and the dimension of the places. Since there is empirical support for the influence of place identity in the perception of environmental quality, it was also aim first to analyse the relationship
between place identity, identity contents and perceived environmental quality, and second to evaluate the predictive value of the identity contents concerning the environmental quality perceived by subjects with different degrees of place identity. Two exploratory studies were developed, the first was a qualitative one, with university students, and the second a correlacional, with a sample of residents living nearby Oporto. The results indicate that there are five big dimensions of identity contents: instrumental, aesthetic, historic and cultural dimension, basic necessities and environmental and social local problems. The way the subjects use those dimensions to describe or evaluate the places where they live is positively influenciated by the strength of their place identities and the by the dimension of the places, but in the second case the influence is not linear. The results also show that there is a positive relation between place identity, identity contents and perceived environmental quality. The predictive value of each identity content relatively to the environmental quality perceived by subjects with low vs. high place identity is different. The environmental quality perceive by individuals with low place identity is explained by their perceptions of place instrumentality, beauty, ability to satisfy their basic necessities and existence of environmental and social problems. In the case of subjects with high place identity only the dimensions instrumental and environmental and social local problems contribute to explain the variance in perception of environmental quality. In both situations, the judgements related to the historic and cultural richness of place don’t have any predictive value. Results were discussed in the light of relevant literature. Some lines for future investigation were drawn.
Identidade associada ao lugar 8
INTRODUÇÃO
A importância do ambiente que nos circunda para a construção e manutenção do
nosso sentido de identidade pessoal é evidente. De facto, muitas vezes para respondemos à
questão “quem sou eu?” contrapomo-la à questão “de onde sou?” ou “aonde é que pertenço?”
(Cuba e Hummon, 1993), uma manifestação de que muito do que nós somos depende de onde
vivemos e das experiências que temos nesse local (McAndrew, 1998). Os resultados de um
inquérito recentemente realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de
Lisboa, junto de uma amostra representativa da população portuguesa, demonstram bem a
importância de sermos de um lugar e da ligação que estabelecemos com o mesmo: 41% dos
inquiridos afirma que sente que pertence em primeiro lugar ao grupo das pessoas da
localidade onde vive, contra 35% que, em primeiro lugar, sente pertencer a Portugal e 18% à
região onde vive (Lima, Cabral, Vala e Ramos, 2002 citados por Lima, 2002).
O papel do ambiente na formação e manutenção do sentido de identidade tem sido
alvo de atenção por parte de teóricos de vários campos disciplinares, entre os quais a
Antropologia, Sociologia, Geografia Humana e Psicologia Ambiental, sendo geralmente
atribuída a iniciativa do estudo desta problemática aos geógrafos humanistas, com destaque
para os trabalhos de Relph (1976), Buttimer (1978) e Tuan (1980).
No campo da Psicologia Ambiental, o estudo desta questão tem recebido alguma
atenção por parte de diversos investigadores, particularmente nas últimas três décadas.
Todavia, os avanços realizados não deram ainda azo à constituição de um corpo teórico
coerente, sendo muitas as limitações que têm bloqueado severamente os avanços neste campo.
Uma das limitações apontadas frequentemente prende-se com a falta de consenso
relativamente aos conceitos utilizados e consequente confusão conceptual e terminológica que
se observa nos vários trabalhos (Giuliani e Feldman, 1993; Hidalgo e Hernandéz, 2001; Lalli,
1992). Proshansky, Fabian e Kaminoff (1983) propuseram, num trabalho charneira nesta área
Identidade associada ao lugar 9
(cf. Dixon e Durrheim, 2000; Krupat, 1983; Lalli, 1988), o termo identidade associada ao
lugar1 (place identity) para designar a relação que se estabelece entre identidade e ambiente.
Na sua essência a identidade associada ao lugar pode ser definida como uma subestrutura da
identidade pessoal resultante da apropriação no auto-conceito de características atribuídas ao
ambiente. A literatura sobre o lugar2, oferece todavia, um amplo conjunto de conceitos
similares e em parte sobreinclusivos que procuram dar conta dessa ligação, nomeadamente
sentido de lugar (sense of place) (Chawla, 1992; Hummon, 1992; Jorgensen e Stedman, 2001;
Relph, 1976), ligação ou vinculação ao lugar (place attachment) (Altman e Low, 1992;
Hidalgo e Hérnandez, 2001; Riley, 1992), dependência ou confiança no lugar (place
dependence) (Stokols e Shumaker, 1981) apenas para referir os mais relevantes. Embora estes
conceitos partilhem características comuns, apresentam naturalmente algumas características
específicas. Impõe-se, por isso, uma breve descrição dos conceitos. O conceito de sentido de
lugar, é o conceito mais geral, e refere-se genericamente ao significado atribuído a um lugar
por um indivíduo ou grupo (Chawla, 1992; Jorgensen e Stedman, 2001; Relph, 1976). Já o
conceito de ligação ao lugar procura dar conta da ligação emocional, na maior parte das vezes
positiva, que se estabelece entre indivíduos ou grupos e o seu ambiente, ligação essa que
ultrapassa muitas vezes os domínios da cognição, preferência ou avaliação (Altman e Low,
1992; Riley, 1992). Hidalgo e Hernandéz (2001) salientam o facto do conceito de ligação
envolver uma tendência ou desejo por parte do sujeito de permanecer próximo do objecto de
vinculação, neste caso, do lugar ou cenário físico ao qual se sente emocionalmente apegado.
Por sua vez, o conceito de dependência ou confiança no lugar foi proposto por Stokols e
Shumaker (1981) e prende-se com a avaliação que o indivíduo faz da capacidade que o seu
ambiente tem de satisfazer as suas necessidades ou objectivos, comparativamente com outros
1 O termo place identity surge também traduzido enquanto “identidade local” ou “identidade com o lugar” (cf.
Almeida e Castro, 2002; Lima, 2002 ).
Identidade associada ao lugar 10
cenários alternativos. Contrariamente à ligação ao lugar, este conceito implica uma relação
baseada na avaliação de objectivos concretos e não apenas numa ligação emocional. Como
apontam Hidalgo e Hernandéz (2001), a diversidade e sobreposição existente entre os termos
torna frequentemente difícil saber se se trata do mesmo constructo com outro nome ou de
conceitos efectivamente diferentes. A própria forma como os conceitos são aplicados não é
consensual, sendo que nalguns casos um dos conceitos é usado como conceito mais geral e
integrador (e.g. para Lalli (1992) a ligação ao lugar é uma componente da identidade
associada ao lugar; para Jorgensen e Stedman (2001) a ligação ao lugar, identidade associada
ao lugar e dependência ao lugar são componentes do sentido de lugar), noutras situações
verifica-se que os conceitos são usados como sinónimos (e.g. Brown e Werner (1985) citados
por Hidalgo e Hernandéz (2001) e Stedman (2002) falam de identidade e ligação sem
distinguir os conceitos).
Para além da diversidade e heterogeneidade dos termos aplicados para designar a
relação entre ambiente e identidade, também a diversidade de abordagens teóricas e
empíricas, a falta de instrumentos de medida adequados e a escassez de trabalho empírico têm
sido apontadas como limitações existentes ao desenvolvimento da teoria do lugar (e.g.
Devine-Wright e Lyons, 1997; Dixon e Durrheim, 2000; Hidalgo e Hernandéz, 2001; Krupat,
1983; Lalli, 1992; Twigger-Ross e Uzzell, 1996). De acordo com Lalli (1992), a teoria e
pesquisa sobre identidade associada ao lugar tem recebido a influência marcante de duas
grandes abordagens teóricas: a abordagem fenomenológica e a abordagem positivista.
Segundo a perspectiva fenomenológica, a identidade associada ao lugar é perspectivada como
uma forte ligação emocional e amplamente inconsciente aos cenários físicos em que o
indivíduo se movimenta, assumindo particular importância a casa, ligação essa que assenta
num sentido de pertença ao lugar e contribui para a manutenção da identidade, equilíbrio e
2 Por “lugar” entende-se um espaço ou contexto físico ao qual as pessoas ou grupos estão emocional ou
culturalmente ligados e ao qual atribuíram significados através de processos pessoais, grupais ou culturais (Low
Identidade associada ao lugar 11
bem estar emocional do indivíduo. Metodologicamente, são privilegiadas as metodologias
qualitativas e procuram-se captar os significados atribuídos subjectivamente pelos indivíduos
ao seu ambiente. Os trabalhos de Relph (1976), Tuan (1980) e Buttimer (1980) enquadram-se
nesta perspectiva. A perspectiva positivista distingue-se da anterior sobretudo por empregar
metodologias quantitativas no estudo da relação entre ambiente e identidade, e proceder ao
teste de hipóteses, formuladas muitas das vezes a partir dos trabalhos de natureza
fenomenológica. Os trabalhos de Lalli (1988, 1992), Shamai (1991) e Cuba e Hummon
(1993) são alguns exemplos dos estudos desenvolvidos neste âmbito.
Não obstante as limitações e condicionalismos existentes na literatura sobre o lugar,
importa para este trabalho apresentar as principais contribuições para a compreensão da
relação existente entre ambiente e indivíduo, particularmente no que se refere ao
desenvolvimento e manutenção da identidade associada ao lugar. Conforme se referiu
anteriormente, a publicação dos trabalhos de Proshansky (1978) e Proshansky e colaboradores
(1983) tem sido apontada como um marco fulcral no estudo da identidade associada aos
lugares. Saliente-se que o conceito de identidade associada ao lugar refere-se, neste contexto,
à relação que se estabelece entre o indivíduo e um lugar específico, e ao contributo desta
relação para a definição subjectiva da identidade pessoal, e não à identidade do lugar em si,
isto é, ao conjunto de características atribuídas ao lugar. Partindo da crítica à noção de
identidade descontextualizada (disembodied identity) das teorias do self e do auto-conceito, os
autores propuseram que os cenários físicos constituem parte inerente de qualquer contexto de
socialização e consequentemente exercem influência sobre a construção da identidade do
indivíduo. Na sua perspectiva, “o sentimento subjectivo de self é definido e expresso não
apenas pela relação do próprio com outras pessoas, mas também pelas relações do próprio
com os diversos cenários que definem e estruturam a vida quotidiana” (Proshansky et al.,
e Altman, 1992).
Identidade associada ao lugar 12
1983, p.58). Os autores conceptualizam a identidade associada ao lugar como “as dimensões
do self que definem a identidade pessoal do indivíduo em relação ao ambiente físico através
de um padrão complexo de ideias, crenças, preferências, sentimentos, valores, objectivos,
capacidades e tendências comportamentais conscientes e inconscientes relevantes para esse
ambiente” (p. 155). Enquanto estrutura cognitiva, a identidade associada ao lugar é
equacionada como uma sub-estrutura de uma identidade mais geral, equivalente è identidade
de género e outras. Pressupondo que os lugares variam na sua capacidade de satisfazer os
desejos e necessidades biológicas, psicológicas, sociais e culturais dos indivíduos, Proshansky
e colaboradores afirmam que os indivíduos associam às suas vivências nos lugares valências
que tornam possível estruturar a identidade associada aos mesmos. A identidade associada ao
lugar é, assim, teorizada como uma construção pessoal do indivíduo, derivada da experiência
quotidiana com o ambiente físico, que ultrapassa o mero sentimento de pertença ou ligação
emocional a determinados lugares, como proposto anteriormente pelos geógrafos humanistas.
Embora assumam que os outros indivíduos são importantes na modelação da identidade local
do indivíduo, o modelo que apresentam tem uma ênfase claramente cognitivista e individual.
De acordo com Proshansky e colaboradores (1983), a identidade associada ao lugar
desempenha cinco funções, nomeadamente: (a) função de reconhecimento, que fornece
informação acerca do passado ambiental do indivíduo; (b) função de atribuição de significado,
que dá indicações sobre como actuar no cenário físico em causa; (c) função de expressão,
relativa à moldagem do ambiente pelo indivíduo; (d) função de mediação da mudança,
atinente ao grau em que o ambiente pode ser apropriado; e (e) função de defesa da ansiedade,
que garante ao indivíduo um sentimento de segurança.
Apesar da sua importância para a teorização do constructo de identidade associada ao
lugar, o modelo proposto por Proshansky e colaboradores tem sido alvo de algumas críticas,
nomeadamente por não adiantar qualquer informação relativamente aos processos subjacentes
Identidade associada ao lugar 13
à formação e manutenção da identidade associada ao lugar (cf. Korpela, 1989) e por
equacionar a identidade associada ao lugar enquanto construção individual negligenciando a
sua componente social e cultural (cf. Lalli, 1992; Altman e Low, 1992).
Um outro contributo importante para a compreensão da identidade associada aos
lugares foi dado por Lalli (1988, 1992), que veio salientar precisamente a sua dimensão
social. Defendendo que a identidade se pode relacionar com espaços situados em diferentes
pontos de um continuum micro-macro espacial (e.g. da casa ao continente inteiro), e que a
especificação do nível estudado é vital para a construção de uma teoria apropriada da
identidade, optou por fazer referência às cidades aquando da contextualização da identidade.
Neste sentido, o seu trabalho centrou-se sobre aquilo que designou de identidade urbana
(urban related identity), que considera ser “o produto de uma associação complexa entre o
self e o ambiente urbano”(p.294). Com base nos trabalhos de Graumann (1983, citado por
Lalli, 1992), estabelece que o desenvolvimento da identidade ocorre ao longo de três fases. A
primeira, que designa de processo de identificação, consiste na atribuição subjectiva de
determinadas propriedades aos lugares em resultado da experiência e da percepção de
semelhanças entre objectos, indivíduos, grupos e lugares. No caso concreto da cidade implica
a reconstrução subjectiva da mesma, isto é, a criação de uma imagem associada à cidade e aos
seus habitantes, com base em elementos como o nome do lugar, características de espaços
simbólicos, acontecimentos culturais, elementos geográficos e qualquer outra particularidade
que esteja associada ao lugar e lhe confira distintividade. Esta imagem é socialmente
partilhada, tem uma determinada valorização, e pode ou não ter uma correspondência com a
realidade, o que permite que, por exemplo, os habitantes de uma cidade industrial considerem
a mesma como “verde”. Embora não implique o desenvolvimento da identidade associada ao
lugar pelo indivíduo, esta primeira fase constitui uma base para a mesma. Para além deste
processo é necessário que decorram igualmente os processos de ‘identification with’ e ‘being
Identidade associada ao lugar 14
identified with’, mediante os quais o indivíduo se identifica com a cidade e constrói a sua
identidade com base na consciência da pertença a um grupo definido pela partilha de um
espaço, apropriando-se das características que lhe são atribuídas.
Para o autor, a identidade urbana desempenha duas funções, permitindo, por um
lado, ao indivíduo diferenciar-se de outros indivíduos e obter uma auto-estima positiva, e por
outro, manter um sentimento de continuidade temporal. No primeiro caso, a identidade urbana
permite ao indivíduo que, enquanto residente de determinada localidade, integre determinadas
características associadas à mesma no seu auto-conceito e se distinga dessa forma dos
indivíduos que não residem na mesma. Uma vez que a imagem da localidade é uma
construção subjectiva dos indivíduos ou grupos, e se encontra na maioria das situações
enviesada favoravelmente, possibilita ainda que o indivíduo mantenha uma auto-estima
positiva. No segundo caso, a cidade pode se tornar um símbolo das experiências pessoais,
funcionar como pista para o passado individual e fornecer consequentemente um sentimento
subjectivo de continuidade ao indivíduo, independente das experiências quotidianas.
Em colaboração com outros investigadores, Lalli desenvolveu uma escala de
identidade urbana destinada a quantificar os níveis de identidade urbana, operacionalizada em
cinco dimensões: (a) avaliação externa, relativa à função de self-enhancement dos residentes;
(b) continuidade com passado pessoal, que avalia a importância do ambiente urbano para o
sentimento subjectivo de continuidade com passado; (c) ligação geral, que aponta para o
sentimento geral de pertença ao lugar ou enraizamento; (d) compromisso, que avalia a
importância percebida da cidade para o futuro do indivíduo; e, finalmente (e) percepção de
familiaridade, que cobre os efeitos das experiências diárias na cidade, e se assume como uma
expressão de uma orientação cognitiva eficiente. Os resultados obtidos a partir da sua
aplicação em vários estudos confirmam a importância que os lugares, mais especificamente as
Identidade associada ao lugar 15
cidades, têm para o desenvolvimento e manutenção da identidade pessoal do indivíduo (Lalli,
1988; Lalli e Thomas, 1988, 1989 citados por Lalli, 1992).
Na mesma linha de tentar compreender os aspectos sociais da identidade associada
ao lugar, têm sido feitas adaptações quer das teorias da identidade social e auto-categorização
social (Tajfel, 1978, 1981; Tajfel e Turner, 1979; Turner, 1987) quer da teoria dos processos
identitários (Breakwell, 1986, 1992,1993, 2001) para o contexto ambiental, que merecem
referência.
Segundo as teorias da identidade e auto-categorização social decorrentes dos
trabalhos de Tajfel e Turner sobre grupos humanos, os indivíduos desenvolvem uma
identidade social com base nos grupos sociais a que pertencem. Esta identidade social pode
ser definida como “os aspectos do auto-conceito de um indivíduo baseados no seu grupo
social ou pertença a uma categoria, junto com os correlatos emocionais, avaliativos e outros,
isto é, o self definido como masculino, europeu, londrino, etc.” (Turner, 1987, p.29).
Turner (1987) defende que os níveis de identidade social podem variar entre níveis mais
específicos (e.g. identidade associada ao lugar) a níveis mais inclusos ou abstractos (e.g.
identidade nacional), sendo que cada nível de identidade pode mediar as percepções e
julgamentos ocorridos no mesmo. Desta forma, a identidade associada ao lugar é
conceptualizada como uma sub-estrutura da identidade social do indivíduo, constituída por
aspectos do auto-conceito baseados na sua pertença a grupos definidos geograficamente.
Encontra-se por detrás desta concepção a ideia de que o ambiente pode ser visto como uma
categoria social, como um produto social resultante da interacção entre as pessoas que o
partilham e não apenas como um mero cenário físico onde essa interacção ocorre ( Valera,
1994). Enquanto sub-estrutura da identidade social, pressupõe-se que os princípios e
estratégias utilizadas em relação à identificação com o lugar são semelhantes às utilizadas no
caso da identificação social com um grupo (e.g. Hogg e Abrams, 1988; Hogg, 1992, citados
Identidade associada ao lugar 16
por Bonaiuto, Breakwell e Cano, 1996). Desta forma, sempre que os diversos aspectos do
ambiente forem, de algum modo, importantes para a auto-identificação dos indivíduos, estes
poderão aplicar os processos sócio-cognitivos e psicossociais que são despoletados pelos
estímulos sociais tradicionalmente relevantes para a identidade social, nomeadamente
enviesamentos na percepção e avaliação de características do ambiente relevante para o auto-
conceito e identidade social. Os estudos de Cortês e Aragonés (1991) e de Aragonés,
Corraliza, Cortês e Amérigo (1992), sobre percepção do território e identidade social,
desenvolvidos em duas regiões agrárias da Comunidade de Madrid, mostram que as pessoas
se identificam com o ambiente a vários níveis (ex.: identidade social madrilena e identidade
social castelhana), e que este funciona como uma categoria social. Bonaiuto e colaboradores
(1996) desenvolveram um estudo sobre a influência da identidade associada ao lugar e do
nacionalismo sobre a percepção de qualidade ambiental. Os autores constataram que os
residentes com maiores níveis de identificação com o lugar percepcionavam as praias locais
como menos poluídas do que os residentes com menores níveis de identidade associada ao
lugar, registando-se o mesmo padrão de resultados no que se refere à relação entre níveis de
nacionalismo e percepção da poluição das praias nacionais. Face a estes resultados, os autores
concluíram que o ambiente em que as pessoas vivem e ao qual pertencem pode ser
considerado como parte do seu auto-conceito, uma vez que é tratado de acordo com o mesmo
tipo de princípios que operam geralmente para outros aspectos da identidade do indivíduo,
nomeadamente enviesamento ou favoritismo pelo endogrupo.
A teoria dos processos identitários desenvolvida por Breakwell
(1986,1992,1993,2001) salienta a natureza eminentemente social dos processos identitários. A
teoria propõe que a estrutura da identidade é um produto social dinâmico resultante da
interacção entre as capacidades de memória, consciência e organização do constructo
(características dos organismos biológicos), as estruturas físicas e sociais, e os processos de
Identidade associada ao lugar 17
influência que constituem o contexto social. A estrutura da identidade pode ser descrita em
dois planos: dimensão de conteúdo e dimensão avaliativa. A dimensão de conteúdo consiste
nas características que definem a identidade ou, de outra forma, nas características que o
indivíduo considera que o descrevem e que, no seu conjunto, o tornam uma pessoa única.
Mesmo que muito dos elementos da dimensão de conteúdo sejam partilhados com outras
pessoas, o seu arranjo será sempre específico e distintivo do indivíduo. A organização destes
conteúdos é dinâmica e altera-se de acordo com o contexto social na qual a identidade é
situada, podendo ser caracterizada tendo em conta a força das relações entre os conteúdos e a
sua centralidade ou saliência. Cada elemento de conteúdo tem um valor/afecto positivo ou
negativo associado, que é atribuído com base nas crenças e valores sociais em interacção com
valores pessoais previamente estabelecidos, que constitui precisamente a dimensão avaliativa.
Esta encontra-se constantemente sujeita a revisões em consequência de mudanças nos
sistemas de valores pessoais e sociais. A estrutura da identidade é regulada por processos
dinâmicos de acomodação, assimilação e avaliação. A assimilação refere-se ao modo através
do qual os novos elementos são integrados na estrutura da identidade, enquanto que a
acomodação se prende com os ajustamentos que ocorrem na estrutura existente para permitir a
inclusão dos novos elementos. Quanto ao processo de avaliação, consiste na alocação de
significado ou valor aos conteúdos, novos e velhos, da identidade. Verifica-se assim que, na
perspectiva da autora a estrutura da identidade é fluída, dinâmica e reage ao seu contexto
social.
De acordo com a autora, os processos identitários mencionados são guiados por
princípios que definem o estado desejável para a estrutura da identidade. Breakwell (1986)
propôs inicialmente a existência de três princípios de identidade distintos, a saber
distintividade, continuidade e auto-estima, tendo posteriormente em 1992 acrescentado um
quatro princípio, o da auto-eficácia.
Identidade associada ao lugar 18
O princípio da distintividade, refere-se ao desejo de manter uma distintividade
pessoal ou singularidade. No caso da identidade associada ao lugar está relacionado com a
percepção dos aspectos únicos da localidade (e.g. em termos físicos, ambientais, de serviços,
estilo de vida ou características das pessoas), que permitem distingui-la positivamente de
outras. Existem evidências de que os lugares podem funcionar de forma similar a uma
categoria social. Nesse sentido, as identificações com o lugar podem ser pensadas como
comparáveis às identificações sociais. Desta forma, possibilitam aos seus residentes a
aquisição de determinadas características simbólicas que lhes permite distinguir-se dos não
residentes, ideia também presente na já abordada perspectiva de Lalli (1992).
O princípio da continuidade constitui um segundo motivador da acção, sendo
definido como o desejo de manter a continuidade ao longo do tempo e situação, ou de outra
forma, entre auto-conceitos passados e presente. Num desenvolvimento feito à sua teoria,
Twigger-Ross e Uzzell (1996) sugeriram a existência de dois tipos distintos de continuidade,
nomeadamente a continuidade referente ao lugar, em que os lugares servem como forma de
ligação ao passado individual e do grupo funcionando como pistas ou ajudas para a memória,
e a continuidade congruente com o lugar, em que o indivíduo procura estabelecer-se em
lugares com características semelhantes às suas ou moldar o ambiente de forma ao mesmo se
aproximar destas. Embora estas relações não sejam mutuamente exclusivas é sugerido que
elas estão relacionadas com padrões distintos de residência (Feldman, 1990; Rowles, 1983).
O princípio da auto-estima, refere-se à avaliação positiva do self ou do grupo de
pertença, estando relacionado com o sentimento de valor que é atribuído ao mesmo. O desejo
de manter uma concepção positiva do self tem sido vista como motivo central para a acção
por muitos teóricos da identidade, nomeadamente por Tajfel e Turner (1979). No que toca ao
ambiente, implica a avaliação positiva do self através da pertença a um lugar e a assimilação
de características atribuídas ao mesmo. Korpela (1989), num estudo qualitativo acerca da
Identidade associada ao lugar 19
identidade associada ao lugar enquanto produto da auto-regulação ambiental do indivíduo,
demonstrou que os lugares favoritos, para além de desempenharem uma função reguladora do
stress e contribuirem para a continuidade do auto-conceito, favorecem o aumento dos níveis
de auto-estima em crianças. Outros estudos mostram que ao viver numa cidade histórica as
pessoas podem sentir orgulho por associação (Lalli, 1992; Uzzell, 1995, citado por Twigger-
Ross e Uzzell, 1996). No entender de Twigger-Ross e Uzzell (1996) esta ocorrência difere da
realização de simples avaliações positivas do lugar (e.g. gosto de X), dado que sugere que a
pessoa ganha um aumento da sua auto-estima a partir das qualidades do meio (e.g. viver em X
faz-me sentir bem comigo mesmo).
O último princípio proposto por Breakwell refere-se à auto-eficácia e prende-se com
as crenças do indivíduo relativamente à sua capacidade de gerir e responder às exigências
situacionais, e à medida em que o ambiente satisfaz as suas necessidades. Nas situações em
que a auto-eficácia é nula, isto é, em que os constrangimentos associados ao ambiente são de
tal modo elevados que não permitam aos sujeitos levar a cabo as suas actividades, a
identidade do sujeito pode ser comprometida. O mesmo ocorre se qualquer um dos outros
princípios for comprometido. Twigger-Ross e Uzzell (1996) confirmam este facto tendo os
participantes do seu estudo indicado como constrangimentos à sua relação com o ambiente
aspectos como a criminalidade, a poluição sonora e atmosférica.
A teoria dos processos identitários tem sido utilizada como enquadramento teórico na
realização de diversos estudos, que comprovam a sua aplicabilidade ao estudo da identidade
associada ao lugar. Twigger-Ross e Uzzell (1996) num estudo efectuado sobre identidade
associada ao lugar numa zona submetida a mudanças sociais, económicas e ambientais,
verificaram que os sujeitos discutiam a sua relação com o ambiente de forma diferente em
função do seu grau de identidade. Mais concretamente, os indivíduos identificados com o seu
ambiente falavam no mesmo de um forma que apoiava os princípios identitários propostos por
Identidade associada ao lugar 20
Breakwell, o mesmo não se passando com os sujeitos pouco identificados. Da mesma forma,
Speller, Lyons e Twigger-Ross (1996) num estudo sobre o impacto do realojamento de uma
comunidade mineira, constataram que a avaliação das mudanças no ambiente divergiam
conforme as mesmas eram percepcionadas ou não como uma ameaça à identidade e conforme
os princípios identitários ameaçados. Devine-Wright e Lyons (1997) num estudo realizado
sobre a importância dos monumentos históricos para a construção da identidade irlandesa,
constataram que os mesmos, através dos significados que lhe são associados por diversos
grupos, contribuem para a manutenção de uma identidade nacional positiva e distinta e
fornecem um sentido de continuidade com o passado.
Dos contributos até ao momento apresentados, destacam-se três pontos:
(a) a identidade associada ao lugar pode ser genericamente definida como uma sub-
estrutura da identidade pessoal do indivíduo, construída com base na assimilação de
características atribuídas individual, social e culturalmente aos lugares;
(b) implica dessa forma a construção de uma imagem acerca do lugar, assente
nomeadamente nas características físicas, estilo de vida, serviços e infra-estruturas que
disponibiliza e nas características dos seus habitantes. Enquanto construção subjectiva implica
uma determinada valorização do lugar (positiva ou negativa) e pode não corresponder
necessariamente à realidade, sendo influenciado por vários processos sócio-cognitivos;
(c) a identificação do indivíduo com os lugares permite-lhe distinguir-se de outros,
manter um sentido de continuidade, de auto-estima e auto-eficácia positiva; caso tal não se
verifique, o indivíduo pode sentir a sua identidade ameaçada.
Embora a investigação empírica sobre identidade associada ao lugar realizada até à
data não seja extensa, existe suporte empírico quanto à influência da força da identidade
associada ao lugar sobre as percepções (e.g. Bonaiuto et al., 1996; Lalli, 1988, 1992), atitudes
(e.g. Lalli e Thomas, 1988, 1989, citados por Lalli, 1992; Lima, 1994, 1997 citada por
Identidade associada ao lugar 21
Lima,1998) e opções comportamentais dos indivíduos face ao seu ambiente (e.g. Nordenstam,
1994, citado por Bonaiuto et al., 1996), bem como quanto à sua importância para o bem estar
dos mesmos (e.g. Lima e Palma-Oliveira, 2001). A maioria destes estudos assume uma
perspectiva quantitativa, preocupando-se essencialmente com a medição do grau de identidade
global manifestado pelos sujeitos, recorrendo a operacionalizações e instrumentos diversos
(cf. Lalli, 1992), e a analisar posteriormente a sua relação com outras variáveis. Pouca atenção
tem sido dada ao estudo do papel dos conteúdos identitários subjacentes à identidade
associada ao lugar, dimensões da identidade que integram as propriedades e características
que definem a própria identidade conforme salientado por Breakwell (1986,1992,1993, 2001).
Os estudos de Lima (1999), Bonaiuto, Aiello, Perugini, Bonnes e Ercolani (1999) e Gustafson
(2001), embora não directamente direccionados pelos autores para esta questão, merecem
alguma atenção na medida em que os seus resultados são sugestivos e podem ser transferidos
analogicamente para este campo. Lima (1999) demonstrou empiricamente num estudo sobre
percepção de riscos associados à construção de uma incineradora, que subjacente ao mesmo
grau de identidade associada ao lugar podem existir concepções diferentes da localidade,
construídas a partir da valorização de diferentes características e qualidades do lugar, que
podem determinar, por sua vez, as atitudes e opções comportamentais dos residentes.
Concretamente, a autora verificou que entre residentes com o mesmo grau de identidade
existiam dois tipos de conteúdos identitários, rural vs. industrial, e que estes se relacionavam
de forma diferente com a percepção do risco associado à construção de uma incineradora.
Enquanto a identidade associada ao lugar edificada com base numa representação rural da
localidade se relacionava significativa e negativamente com a percepção de riscos, a
identidade associada ao lugar consubstanciada numa visão industrial não apresentava qualquer
relação significativa com a percepção de risco. Neste caso, a simples medição do grau de
identidade não bastava para a compreensão das posições dos residentes, sendo o
Identidade associada ao lugar 22
conhecimento dos seus conteúdos imprescindível. Em nosso entender, tal reforça a
importância de se encetar estudos que permitam identifica-los.
O estudo de Bonaiuto e colaboradores (1999), por seu turno, foi desenvolvido com o
objectivo de analisar a relevância da satisfação residencial para o desenvolvimento da ligação
ao lugar. Na medida em que definem a ligação ao lugar como a “relação global entre a
identidade da pessoa e as avaliações afectivas do seu ambiente” (p.333) e operacionalizam a
satisfação residencial enquanto percepção de qualidade ambiental, considera-se que pode ser
re-interpretado extensivamente como um estudo sobre a relevância da percepção da qualidade
ambiental para a identidade associada ao lugar. Aplicaram, a uma amostra de habitantes de
Roma, 20 escalas sobre arquitectura e planeamento (e.g. beleza estética dos edifícios, volume
excessivo dos edifícios, contraste estético entre construções, funcionalismo interno da cidade,
espaços verdes ), características das relações sociais (e.g. características dos residentes,
presença de relações sociais), serviços (e.g. serviços de saúde, assistência social a idosos,
educação, desporto) e características do contexto (e.g. estilo de vida, tranquilidade, poluição,
preservação do espaço público). A partir dos resultados obtidos concluíram que as dimensões
utilizadas são importantes para prever a ligação ao lugar e que existe uma hierarquia no poder
preditivo das mesmas, assumindo as características do contexto e as características sociais
maior importância comparativamente com as características arquitectónicas e de planeamento
e os serviços. Neste sentido, é possível concluir que as diferentes dimensões de avaliação do
ambiente, que interpretamos como possíveis dimensões de conteúdos identitários, determinam
de forma diferente a relação que se estabelece entre o indivíduo e o seu ambiente.
Gustafson (2001) desenvolveu um estudo bastante interessante sobre os significados
dos lugares. A partir da análise de significados espontaneamente atribuídos a lugares
considerados importantes pelos sujeitos, constatou que os mesmos podiam ser mapeados em
torno de três pólos que designou de Eu, Outros e Ambiente. O primeiro pólo compreende
Identidade associada ao lugar 23
significados derivados de memórias e experiências pessoais (e.g. trajecto de vida, raízes,
sentimentos, actividades). O segundo pólo compreende significados atribuídos com base nas
características, traços e comportamentos percebidos dos habitantes, baseados muitas das vezes
em estereótipos. O terceiro pólo inclui significados atinentes às características físicas,
históricas, institucionais e geográficas dos lugares (e.g. localização, centralidade, clima). Para
além disso, constatou que outros significados poderiam ser mapeados entre os pólos, por
exemplo, relações sociais e de vizinhança entre os pólos Eu e Outros; temas que discutem o
clima social e a atmosfera no lugar entre os pólos Outros e Ambiente; significados baseados
no conhecimento formal e informal do indivíduo acerca do lugar (e.g. geografia, história,
familiaridade) em torno dos pólos Eu e Ambiente; e, finalmente, alguns temas entre todos os
pólos (e.g. cidadania, tradições, participação social em instituições locais). Para além do
amplo número de significados que os lugares podem ter para diferentes pessoas, constatou que
os significados atribuídos aos lugares divergiam com alguma coerência conforme a dimensão
dos mesmos. Basicamente, aos lugares de menor dimensão (e.g. residências, bairros, vilas ou
pequenas cidades) eram atribuídos muitas vezes significados situados nos pólos Eu, Eu e
Outros e Eu e Ambiente, que implicam uma referência directa à pessoa; aos lugares de maior
dimensão (e.g. cidades grandes, regiões, continente) eram atribuídos com maior frequência
significados situados nos pólos Outros e Ambiente sem referência directa ao sujeito. Estes
resultados alertam, em nossa opinião, para o facto de que subjacente à identidade com locais
de diferente dimensão poderão se encontrar conteúdos identitários diferentes.
Esta questão encontra-se, todavia, pouco explorada em termos empíricos, apesar de
Altman e Low (1992) entre outros autores, terem afirmado há sensivelmente uma década que
os lugares a que as pessoas se ligam e identificam variam em escala, especificidade e
tangibilidade. A maioria dos estudos efectuados sobre identidade associada ao lugar focam-se,
primordialmente, sobre o significado que determinados contextos físicos têm para o
Identidade associada ao lugar 24
desenvolvimento e manutenção da identidade do sujeito (e.g. casa, local de trabalho, escola,
bairro, cidade), sendo pouco os que analisam a relevância de diferentes espaços físicos em
simultâneo. O estudo de Cuba e Hummon (1993) constitui uma excepção nesta matéria, tendo
os autores constatado que os sujeitos se identificam, embora em graus diferentes, com vários
espaços em simultâneo (residência, cidade e região), e que a identificação com cada um dos
lugares é determinada por diferentes conteúdos afiliativos resultantes da interpretação do lugar
e das experiências no mesmo. Recentemente, também Hidalgo e Hernadéz (2001) estudaram
a questão da ligação a diferentes espaços (residência, bairro e cidade), introduzindo duas
dimensões de ligação ao lugar: ligação física (relacionada com a mudança de ambiente físico
e manutenção do ambiente social: como se sentiria o sujeito se mudasse de residência
acompanhado pelas pessoas que o rodeiam) e ligação social (relacionada com a mudança de
ambiente social e manutenção do ambiente físico: como se sentiria o sujeito se as pessoas que
o rodeiam mudassem de residência, mas ele permanecesse no lugar). Os resultados relativos à
identificação com vários locais vão no sentido dos de Cuba e Hummon (1993). Relativamente
às dimensões da ligação, mostram que a ligação física é mais forte quando o foco de ligação é
a cidade, enquanto que a ligação social é mais forte quando o foco de ligação é a residência.
Na nossa perspectiva, este resultado sugere que a identificação com um lugar de menor
dimensão poderá resultar da avaliação dos seus aspectos e características sociais, enquanto
que a identificação com um lugar maior dimensão poderá ter subjacente uma avaliação mais
genérica, orientada para as características físicas do lugar, nomeadamente as apontadas por
Bonaiuto e colaboradores (1999).
Tendo por base a revisão de literatura efectuada, considera-se então que a análise dos
conteúdos e significados que subjazem à identificação dos indivíduos com o seu ambiente é
vital para a compreensão da relação que entre estes se estabelece. Da mesma forma,
considera-se pertinente analisar a existência de diferenças nos conteúdos identitários quer em
Identidade associada ao lugar 25
função do grau de identificação local dos sujeitos, quer em função da dimensão do próprio
lugar. Face à negligência a que estas questões têm sido votadas pela literatura, estabelece-se,
como objectivo central deste projecto, o estudo dos conteúdos subjacentes à identidade
associada ao lugar e a análise da relação existente entre este, o grau de identidade reportado
pelos sujeitos e a dimensão dos locais de identificação. Para além disso, e na medida em que
existe, por um lado, um conjunto de estudos que constatam a existência de uma relação
positiva entre a identidade associada ao lugar reportada pelos indivíduos e a percepção da
qualidade do ambiente local (e.g. Bonaiuto et al., 1996; Lalli e Thomas, 1998, 1999 citados
por Lalli, 1992), e por outro, o estudo de Lima (1999) demonstra que conteúdos identitários
diferenciados se encontram associados de forma distinta à percepção de riscos, estabelece-se
ainda como objectivo deste projecto analisar em que medida o grau de identidade associada ao
lugar e os conteúdos identitários se encontram relacionados com a percepção da qualidade
ambiental do lugar, procurando nomeadamente determinar o seu valor preditivo.
Sistematizando, os objectivos do presente projecto de investigação são:
1. Identificar os conteúdos identitários subjacentes à identidade associada ao lugar;
2. Analisar em que medida o grau de identidade associada ao lugar difere em função da
dimensão da localidade em que os indivíduos residem;
3. Analisar em que medida os conteúdos identitários diferem em função da força
identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade em que os indivíduos residem;
4. Analisar em que medida a qualidade ambiental percebida é influenciada pela força da
identidade associada ao lugar e pela dimensão da localidade em que os indivíduos
residem;
5. Analisar em que medida o grau de identidade associada ao lugar e os diferentes
conteúdos identitários se encontram relacionados com a percepção da qualidade
ambiental local.
Identidade associada ao lugar 26
6. Analisar em que medida conteúdos identitários diferem na sua capacidade de prever a
qualidade ambiental percebida de indivíduos com diferentes níveis de identidade
associada ao lugar.
De forma a cumprir os objectivos estabelecidos, foi desenvolvido um plano de
trabalho que englobou a realização de dois estudos de natureza exploratória. No Estudo 1,
recorrendo a uma metodologia qualitativa, procurou-se identificar os conteúdos identitários
subjacentes à identidade associada ao lugar. A recolha de informação acerca da dimensão das
localidades com as quais os sujeitos expressaram a sua identidade e do grau de identidade
associada ao lugar permitiu desenvolver algumas análises quanto à relação entre estas
variáveis e os conteúdos identitários. Com base nos conteúdos identitários identificados neste
estudo, foi construída uma escala de conteúdos identitários aplicada no Estudo 2. Este estudo
visou analisar a estrutura dos conteúdos identitários e a sua relação com o grau de
identificação dos sujeitos e com a dimensão da localidade de residência, bem como responder
aos objectivos estabelecidos para a análise da relação entre qualidade ambiental percebida e as
restantes variáveis em estudo, assumindo uma natureza correlacional. Nas páginas seguintes
apresenta-se com detalhe os estudos efectuados e sintetizam-se os principais achados. No final
da exposição, apresentam-se as considerações e conclusões gerais do projecto.
Identidade associada ao lugar 27
ESTUDO 1
Objectivos
O presente estudo teve como objectivo principal identificar os conteúdos identitários
subjacentes à identidade associada ao lugar, tendo em conta nomeadamente o grau de
identidade associada ao lugar e a dimensão da localidade objecto de identificação.
Método
Sujeitos
Pretendeu-se neste estudo obter a colaboração de indivíduos provenientes de
localidades de diferente dimensão, mais concretamente de cidades, vilas e aldeias diferentes.
Tendo em conta a diversidade de localidades de onde os estudantes universitários provêem,
optou-se por recorrer à sua colaboração. Para além das questões de conveniência na recolha de
dados, adiante-se que os estudantes universitários constituem um grupo que se encontra num
momento transaccional das suas vidas, em que a mudança de residência e o corte de antigas
relações está mais saliente, o que facilita a reflexão e pensamento necessário ao
desenvolvimento da consciência de ligação ao lugar (McAndrew, 1998).
Participaram no presente estudo 110 estudantes dos 1.º e 2.º anos da licenciatura em
Psicologia, de duas instituições do ensino superior de Lisboa, dos quais 7 foram
posteriormente excluídos da análise por não responderem às questões abertas (n= 4) ou por
indicarem como suas terras uma localidade não portuguesa (n= 3).
Os 103 sujeitos remanescentes são maioritariamente do sexo feminino (84,0%) e têm
idades compreendidas entre os 18 e os 36 anos (M= 21,5; DP= 3,99). A maioria dos mesmos
(54,4%) indicou uma cidade portuguesa como sendo a sua terra, 35,9% uma vila e 9,7% uma
Identidade associada ao lugar 28
aldeia. A maioria dos participantes reside actualmente na localidade por si indicada (63,4%),
embora não seja natural da mesma (55,7%).
De referir que, no conjunto, as respostas obtidas têm por base a referência a
localidades distribuídas geograficamente por todo o país, incluindo os arquipélagos da
Madeira e dos Açores, o que vai de encontro às pretensões iniciais (Anexo 1).
Instrumento e Procedimento
A recolha de dados foi realizada mediante a aplicação de um questionário construído
para o efeito. De referir que a primeira questão deste questionário solicitava ao sujeito que,
independentemente da localidade em que actualmente residia, indicasse a localidade que
considerava ser a sua terra. Após responder a esta questão, o sujeito eram solicitados a
responder às seguintes medidas:
Ligação ao lugar. A natureza da ligação do indivíduo à sua terra e os motivos
subjacentes à mesma foram identificados mediante as questões “Sente-se ligado à sua terra?”
(Sim, Não) e “Porquê?”.
Identidade associada ao lugar. A identidade associada ao lugar foi avaliada através de
dois tipos de medida, nomeadamente uma escala de identidade que permitiu quantificar o grau
de identificação com o lugar e um conjunto de questões de resposta aberta que permitiram
identificar os conteúdos simbólicos ou as dimensões de avaliação subjacentes a essa
identificação.
A escala de identidade associada ao lugar é composta pelos items “sinto que pertenço
a esse lugar”, “sinto-me orgulhoso por pertencer a esse lugar” e “gosto muito desse lugar” e
apresenta uma boa consistência interna (α=.87). A resposta aos items é dada numa escala de
cinco pontos, que varia entre 1 (discordo totalmente) e 5 (concordo totalmente), sendo que o
resultado da escala é dado pela média dos 3 items.
Identidade associada ao lugar 29
Através das questões de resposta aberta procurou-se identificar os conteúdos
identitários ou às dimensões de avaliação, acedendo à representação que os indivíduos
possuem da localidade. Foram colocadas sete questões abertas, sendo uma adaptada de
Krupat (1985/1999) e as restantes elaboradas tendo por base os princípios da identidade
propostos por Breakwell (1986, 1992, 1993, 2001). A questão adaptada do trabalho de Krupat
(1985/1999) permite aceder à representação geral da localidade: “Imagine que se encontra a
conversar com alguém que ainda não conhece a sua terra. Como descreveria a sua terra a essa
pessoa? Indique o maior número de características possível”. As restantes procuram obter
informação acerca das características únicas da localidade e dos seus habitantes ( “Considera
que a sua terra possui características únicas que a tornam diferente das outras localidades? Se
sim, quais?”; “Considera que os mesmos [habitantes] possuem características únicas que os
tornam diferentes dos habitantes de outras localidades? Se sim, quais?”), recordações
associadas à terra ( “Tem recordações do seu passado que estejam intimamente ligadas à sua
terra? Dê alguns exemplos.”), vantagens e desvantagens associadas à mesma ( “Indique, por
favor, quais os aspectos da sua terra de que mais gosta.”; “ E quais os que menos gosta? ”) e
infra-estruturas, serviços e oportunidades a criar (“que condições gostaria que fossem ainda
criadas?”). De referir que as respostas relativas às recordações do passado foram
posteriormente excluídas da análise, por se verificar a existência de dificuldades na
compreensão da questão por parte dos sujeitos.
Caracterização sócio-demográfica. A este nível foram colocadas questões sobre o
sujeito (sexo, idade, habilitações académicas, naturalidade, local de residência actual, anos de
residência no mesmo) e sobre a localidade indicada (concelho a que pertence, dimensão –
aldeia, vila ou cidade).
Os questionários foram preenchidos individualmente pelos sujeitos em sala de aula,
após se ter obtido o seu consentimento relativamente à participação num estudo sobre a
Identidade associada ao lugar 30
opinião dos portugueses acerca das suas terras. De referir que a resposta ao questionário
oscilou entre os 10 e os 20 minutos.
Análise de Conteúdo
As respostas obtidas às questões abertas foram submetidas a uma análise de
conteúdo, uma técnica de investigação comum na investigação empírica (Vala, 1987), que de
acordo com Krippendorff (1980) “permite fazer inferências, válidas e replicáveis, dos dados
para o seu contexto” (p.21). Procurou-se através desta análise identificar os conteúdos
subjacentes à identidade associada ao lugar, ou de outra forma, as dimensões, motivos,
elementos ou características salientes para os indivíduos na avaliação da sua localidade. O
sistema de categorias utilizado foi totalmente construído a posteriori, através da leitura e
levantamento dos conteúdos contidos no corpus, definindo-se como unidade de registo o
tema. É constituído por 73 categorias, agrupadas em oito dimensões:
(a) Dimensão Social, que agrega oito categorias relacionadas com aspectos sociais
da relação do indivíduo com o meio, entre as quais a existência de Redes Sociais, Raízes e
Espírito de Comunidade;
(b) Caracterização dos Habitantes, que agrega nove categorias utilizadas para a
caracterização dos habitantes, das quais quatro são positivas ( e.g. Mentalidade Aberta,
Simpatia), quatro negativas (e.g. Mentalidade Fechada, Impessoalidade) e uma neutra
(Pronúncia Específica);
(c) Caracterização do Património Histórico e Cultural, que agrega cinco categorias
que permitem realizar a caracterização histórica e cultural da localidade, entre as quais os
Monumentos, Tradições e a Gastronomia;
Identidade associada ao lugar 31
(d) Caracterização do Património Natural, que agrega sete categorias referentes ao
património natural da localidade, entre as quais a Beleza da Paisagem, Proximidade com a
Natureza, Espaços Verdes Suficientes e Insuficientes;
(e) Caracterização do Ambiente Físico e Social, que agrega oito categorias que
permitem caracterizar o ambiente físico e social da localidade, entre as quais Avaliação
Positiva da Localidade, Qualidade Ambiental, Poluição, Bulício e Tranquilidade;
(f) Caracterização Económica, que agrega oito categorias relacionadas com a
caracterização económica da localidade, nomeadamente Desenvolvimento da Localidade,
Estagnação da Localidade, Maiores Oportunidades de Emprego, Menor Custo de Vida;
(g) Caracterização Sócio-Demográfica, que engloba nove categorias que permitem
caracterizar sócio-demograficamente a localidade, nomeadamente Pequena Dimensão,
População Jovem, Dormitório, Segurança, Diversidade/Heterogeneidade de Pessoas;
(h) Caracterização das Infra-Estruturas e Serviços Locais, que agrega 19 categorias
que permitem caracterizar as infra-estruturas e serviços locais a vários níveis incluindo a
saúde, o ensino, o trânsito, os transportes públicos, as infra-estruturas rodoviárias e
desportivas entre outras. No anexo 2 apresenta-se na íntegra o sistema de categorias utilizado.
De forma a garantir a exaustividade e exclusividade das categorias e
consequentemente a sua confirmabilidade, procedeu-se à realização do acordo interjuizes,
solicitando-se para tal a colaboração de um cotador independente que categorizou 177
unidades de análise, correspondentes a 14 questionários retirados aleatoriamente do corpus.
Obteve-se um K de Cohen de .90 para o conjunto das oito dimensões, valor considerado
excelente, mas que dada a natureza relativamente objectiva da categorização não se considera
surpreendente. Dado se ter verificado que as discordâncias ocorriam com maior incidência na
categorização de unidades relativas à Dimensão Social, e de forma a validar a mesma,
realizou-se um novo acordo apenas para a categorizarão destes itens, verificando-se a
Identidade associada ao lugar 32
existência de um K de Cohen de .72, inferior ao do sistema de categorias global, mas mesmo
assim considerado bom (Robson, 1993).
Após a análise de conteúdo, registou-se em base de dados a utilização de cada uma
das categorias por sujeito, criando-se uma matriz de presenças e ausências. De salientar, que
não se teve em linha de conta o número de vezes que cada categoria foi utilizada pelo sujeito,
mas apenas a sua utilização ou não, por parte deste, ao longo das respostas.
Identidade associada ao lugar 33
Resultados
Os dados recolhidos foram analisados com recurso à estatística descritiva univariada
(percentagem, média e desvio-padrão) e multivariada (análise de homogeneidade), bem como
à estatística indutiva (análise de variância e teste do χ2).
Quanto à ordem de apresentação, reportam-se em primeiro lugar os resultados
atinentes à identidade associada ao lugar e à sua relação com a dimensão das localidades.
Seguidamente expõe-se os resultados relativos aos conteúdos identitários, nomeadamente no
que se refere às categorias mais frequentes, diferenças na saliência das categorias em função
da dimensão da localidade e do grau de identidade dos sujeitos, forma como as categorias se
associam entre si e se localizam num espaço definido por duas dimensões e características da
amostra associadas às mesmas.
Identidade associada ao lugar
Constata-se que os sujeitos reportam uma forte identidade associada ao lugar (M=
4,18; DP= 0,76). Embora inicialmente se pretendesse comparar simultaneamente o grau de
identidade associada ao lugar e os conteúdos identitários associados a localidades de diferente
dimensão, concretamente a cidades, vilas e aldeias, o reduzido número de referências a
aldeias (n=10), levou a que se optasse por constituir apenas dois grupos, cidades (n= 56) e
vilas/aldeias (n=47), respectivamente. Através da realização de uma análise de variância,
procurou-se indagar a existência de diferenças significativas no grau de identidade associada
ao lugar apresentado por indivíduos que se referem a cidades e aqueles que se referem a
vilas/aldeias. O resultado obtido sugere que todos os sujeitos estão bastante identificados com
as suas terras, independentemente da sua dimensão, não tendo se verificando diferenças
significativas entre os grupos no grau de identidade reportado (F(1,102)=0,03, n.s.).
Identidade associada ao lugar 34
Conteúdos Identitários
A análise da frequência das categorias permitiu verificar grandes discrepâncias no
número de ocorrências das mesmas (mínimo1; máximo 63). As categorias Raízes (61,2%),
Tranquilidade (54,2%), Redes Sociais (52,2%) e Avaliação Positiva da Localidade (45,6%)
assumem um papel central na descrição das localidades, sendo referidas por mais de 45,0%
dos sujeitos como factores de ligação à terra. Outras categorias salientes são a Centralidade,
Espaços Verdes Suficientes, Praia e Mar, Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer,
Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer, Simpatia e Qualidade Ambiental, cujas frequências
oscilam entre os 30 e 20%. A tabela 1 apresenta as frequências das categorias com mais de 10
observações. O anexo 3 apresenta as frequências da totalidade das categorias identificadas.
De forma a verificar se existiam diferenças entre os conteúdos associados a
localidades de diferente dimensão, procedeu-se à realização de testes do qui-quadrado entre
cada categoria e a variável dimensão da localidade. Verificou-se a existência de diferenças
significativas entre as localidades em função da sua dimensão em apenas seis categorias,
assinaladas na tabela 1 a negrito, nomeadamente Tranquilidade (χ2(1)=4,68, p=.031),
Proximidade com a Natureza (χ2(1)=13,39, p=.000) e Espírito de Comunidade (χ2(1)=9,09,
p=.003) a favor das vilas/aldeias e Bulício (χ2 (1)=3,44, p=.05), Suficientes Espaços Verdes
(χ2(1)=7,03, p=.008) e Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer (χ2 (1)=3,78, p=.05) a favor
das cidades. Neste sentido, verifica-se que as cidades comparativamente com as vilas/aldeias
são vistas como localidades com um ritmo de vida mais agitado e menos tranquilo, onde o
espírito de comunidade e a proximidade com a natureza são menores, mas que oferecem aos
seus habitantes melhores ofertas culturais e de lazer e mais espaços verdes construídos,
compensando de certa forma os seus habitantes pela menor proximidade com a natureza.
Identidade associada ao lugar 35
Tabela 1. Frequência das categorias em função da dimensão da localidade: categorias com
mais de 10 observações.
Categoria Cidade (%)
Vila ou Aldeia (%)
Total (%)
Raízes 34(60,7) 29(66,7) 63(61,2) Tranquilidade * 25(45,0) 31(66,0) 56(54,4) Redes Sociais 26(46,4) 28(59,6) 54(52,4) Avaliação Positiva da Localidade 22 (39,3) 25(53,2) 47(45,6) Centralidade 17(30,4) 14(29,8) 31(30,1) Espaços Verdes Suficientes * 23(41,1) 8(17,0) 31(30,1) Praia e Mar 14(25,0) 15(31,9) 29(28,2) Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer *
19(33,9) 8(17,0) 27(26,2)
Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer
13(23,2) 11(23,4) 24(23,3)
Simpatia 12(21,4) 12(25,5) 24(23,3) Qualidade Ambiental 9(16,1) 12(25,5) 21 (20,4) Espírito de Comunidade * 4(7,1) 14(29,8) 18(17,5) Insegurança 11(19,6) 7(14,9) 18(17,5) Trânsito Elevado 13(23,2) 5(10,6) 18(17,5) Menores Oportunidades de Emprego 10(17,9) 7(14,9) 17(16,5) Beleza da Paisagem 10(17,9) 7(14,9) 16(15,5) Proximidade com a Natureza ** 2(3,6) 14(29,8) 16(15,5) Segurança 9(16,1) 7(14,9) 16(15,5) Tradições 10(17,9) 6(12,8) 16(15,5) Acessibilidade de Serviços 8(14,3) 7(14,9) 15(14,6) Espaços Verdes Insuficientes 5(8,9) 9(19,1) 14(13,6) Monumentos 8(14,3) 6(12,8) 14(13,6) Simplicidade 7(12,5) 7(14,9) 14(13,6) Passado Histórico 6(10,7) 6(12,8) 12(11,7) Bulício * 9(16,1) 2(4,3) 11(10,7) Falta de Privacidade 6(10,7) 5(10,6) 11(10,7) Infra-Estruturas Rodoviárias Insuficientes
9(16,1) 6(12,8) 11(10,7)
Património Arquitectónico 8(14,3) 3(6,4) 11(10,7) Clima 6(10,7) 4(8,5) 10(9,7) Infra-Estruturas de Ensino Insuficientes
7(12,5) 4(8,5) 10(9,7)
Poluição 8(14,3) 2(4,3) 10(9,7)
As categorias onde se verificam diferenças significativas entre localidades estão assinaladas a negrito: * p <.05, ** p<.000
Identidade associada ao lugar 36
Procurou-se também verificar a existência de diferenças na utilização das categorias
em função da identidade associada ao lugar reportada. Com base na média da amostra neste
indicador criaram-se dois grupos que se designaram de baixa (42,7%) e alta (57,3%)
identidade associada ao lugar. Os resultados dos testes do qui-quadrado efectuados entre os
níveis de identidade e as diversas categorias apuradas apresentam valores significativos
apenas nas categorias Qualidade Ambiental (χ2(1)=8,72, p= .003) e Espírito de Comunidade
(χ2 (1)=3,75, p= .05), revelando que os indivíduos mais identificados com a localidade
utilizam mais frequentemente estas categorias na descrição das suas terras, o que mostra que a
percepção de qualidade ambiental e de um espirito de comunidade forte está mais saliente
para os sujeitos que se identificam fortemente com as suas terras que para os que se
identificam menos com as mesmas.
Procurando perceber como se associam as diversas categorias apontadas pelos
sujeitos em referência às suas terras, procedeu-se à realização de uma análise de
homogeneidade (Homals). Note-se que, para esta análise, apenas foram utilizadas as
categorias com 10 ou mais ocorrências, as quais constam na tabela 1. Os resultados da
Homals são resumidos em duas dimensões, em que a primeira é mais explicativa do que a
segunda (valores próprios de 0,11 e 0,09 respectivamente), e que convergiu numa solução ao
fim de 12 iterações. A tabela 2 apresenta as medidas de discriminação e as coordenadas das
categorias nas dimensões.
As medidas de discriminação mostram que as categorias que mais contribuem para a
definição do primeiro eixo são as categorias Tranquilidade, Poluição, Bulício, Suficientes
Ofertas Culturais e de Lazer, Trânsito Elevado e Monumentos. Através das coordenadas das
categorias podemos verificar que a primeira dimensão opõe uma representação da localidade
assente na Tranquilidade a uma representação associada ao Bulício e à Poluição ambiental.
Identidade associada ao lugar 37
O segundo eixo é definido pelas categorias Acessibilidade de Serviços, Centralidade
e Passado Histórico e opõe uma visão mais prática/instrumental da localidade, assente
essencialmente na caracterização das infra-estruturas e serviços locais indispensáveis à vida
quotidiana, a uma visão essencialmente estética apoiada na beleza da paisagem e na riqueza
do seu passado histórico.
Tabela 2. Medidas de discriminação e coordenadas das categorias nas dimensões da Homals
Medidas de Coordenadas s discriminação nas dimensões s
Categoria Dimensão 1
Dimensão 2
Dimensão 1
Dimensão 2
Qualidade Ambiental ,051 ,057 -0,45 -0,47 Poluição ,407 ,003 1,95 0,17 Clima ,097 ,049 -0,95 -0,68 Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer
,289 ,050 0,90 -0,38
Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer
,064 ,033 -0,46 0,33
Bulício ,303 ,053 1,59 0,67 Tranquilidade ,463 ,009 -0,62 0,09 Avaliação Positiva da Localidade
,000 ,050 -0,02 -0,24
Segurança ,098 ,097 -0,73 0,73 Insegurança ,115 ,118 0,74 0,75 Menores Oportunidades de Emprego
,029 ,034 -0,39 -0,41
Redes Sociais ,078 ,003 -0,27 -0,05 Falta de Privacidade ,136 ,011 -1,07 -0,30 Raízes ,025 ,010 -0,13 0,08 Espírito de Comunidade ,174 ,005 -0,91 0,16 Simpatia ,078 ,079 -0,51 -0,51 Simplicidade ,088 ,030 -0,75 -0,44 Espaços Verdes Insuficientes ,001 ,144 -0,06 0,96 Centralidade ,000 ,329 0,03 0,87 Acessibilidade de Serviços ,065 ,485 0,62 1,69 Infra-estruturas Rodoviárias Insuficientes
,008 ,133 -0,22 0,88
Trânsito Elevado ,254 ,024 1,09 0,33 Infra-estruturas de Ensino Insuficientes
,009 ,076 0,28 0,80
Monumentos ,236 ,187 1,22 -1,09 Património Arquitectónico ,103 ,070 0,93 -0,77 Passado Histórico ,133 ,225 1,01 -1,31 Tradições ,008 ,053 -0,20 -0,54 Beleza da Paisagem ,056 ,195 0,55 -1,03 Proximidade com a Natureza ,056 ,102 -0,55 -0,74 Praia e Mar ,021 ,019 -0,23 0,22 Espaços Verdes Suficientes ,000 ,001 0,03 0,05
Identidade associada ao lugar 38
A observação mais cuidada dos quatro quadrantes resultantes do cruzamento das
duas dimensões identificadas revela a existência de quatro formas distintas de conceber as
localidades (Figura 1).
A primeira, resultante da intersecção dos pólos Tranquilidade e Visão
Prática/Instrumental, integra as categorias espírito de comunidade, praia e mar, segurança,
ofertas culturais e de lazer insuficientes, infra-estruturas rodoviárias insuficientes (estradas e
estacionamentos) e espaços verdes insuficientes.
A segunda, resultante da intersecção dos pólos Tranquilidade e Visão Estética,
integra as categorias avaliação positiva da localidade, simpatia, tradições, simplicidade, redes
sociais, clima, proximidade com a natureza, qualidade ambiental, falta de privacidade, uma
combinação que aponta para a localidade como, no fundo, um meio onde as pessoas e as
relações que se estabelecem entre estas assumem um papel central, embora alguns excessos
possam originar a falta de privacidade.
A terceira, resulta da intersecção dos pólos Bulício e Visão Prática/Instrumental,
reunindo as categorias acessibilidade de serviços, centralidade, insuficientes infra-estruturas
de ensino, insegurança, bulício, trânsito e poluição.
Por último, a quarta resulta da intersecção dos pólos Bulício e Visão Estética e
constitui essencialmente uma visão positiva da localidade, assente nas ofertas culturais e de
lazer suficientes, na riqueza de monumentos e do património arquitectónico local e na beleza
da paisagem.
Identidade associada ao lugar 39
Figura 1. Representação gráfica das categorias nas dimensões da Homals3
Para associar as características dos participantes às dimensões encontradas na
Homals calcularam-se, para cada indivíduo os scores em cada uma das dimensões. Deste
modo foi possível projectar as pertenças dos indivíduos no espaço definido pelos dois eixos.
A figura 2 apresenta as coordenadas das variáveis que apresentam diferenças significativas.
Assim, a primeira dimensão (Tranquilidade- Bulício) diferencia significativamente os
indivíduos com alta e baixa identidade associada ao lugar (F(1,102) = 5,25, p=.02), os
indivíduos que se referem a vilas/aldeias dos que se referem a cidades (F(2,102)= 6,73,
p=.002), e ainda, os que actualmente não residem na sua terra dos que presentemente o fazem
(F(1,100)= 13,86, p=.000). A segunda dimensão (Prática/Instrumental- Estética) apenas
3 IF= Infra-Estrutura; Suf.= Suficiente; Insuf.= Insuficiente; Av.Pos.= Avaliação Positiva; Qual.= Qualidade;
OP.= Oportunidade.
Raízes Praia e Mar
Qual.Ambiental
Av.Pos.Localidade Redes Sociais
Espaços Verdes Tranquilidade
Menor Op.Emprego Simplicidade
Simpatia Tradições Clima
Serviços
Beleza da Paisagem
Passado Histórico
Monumentos
Património Arquitectónico
Bulício
Poluição Trânsito Elevado
Ofertas Culturais Suf.
Insegurança Centralidade
IF.Ensino Insuf. IF.Rodoviárias Insuf.
Espaços Verdes Insuf.
Segurança Ofertas Culturais
Insuf.Espírito de Comunidade
Falta de Privacidade
Proximidade à Natureza
-1,5
-1,0
-0,5
0,0
0,5
1,0
1,5
2,0
-1,5 -1,0 -0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5
Quadrante 1
Quadrante 2 Quadrante 4
Quadrante 3
Identidade associada ao lugar 40
diferencia significativamente os indivíduos que actualmente não residem na sua terra dos que
presentemente o fazem (F(1,102)=11,92, p=.001), não se verificando diferenças entre
indivíduos que se referem a cidades, vilas e aldeias (F(2,102)=6,73, n.s.) nem entre indivíduos
com alta e baixa identidade associada ao lugar (F(1,102)=2,24, n.s.). Não foram encontradas
diferenças significativas no que se refere ao sexo dos sujeitos em nenhuma das dimensões
(F(1,99)= 2,27, n.s. e F(1,99)= 0,92, n.s., respectivamente).
Em suma, são os indivíduos que (a) vivem presentemente nas suas terras, (b)
referem-se a cidades, (c) e apresentam uma menor identidade associada ao lugar que
consideram que a sua terra apresenta mais características associadas ao bulício e à poluição,
por oposição aos sujeitos que (d) não vivem presentemente nas suas terras, (e) referem-se a
aldeias, e (f) apresentam uma maior identidade associada ao lugar, que consideram que a sua
terra é mais tranquila. Para além disso, são também os indivíduos que presentemente vivem
nas suas terras que estão mais atentos às questões práticas e funcionais da localidade,
relacionadas com a vida quotidiana, por oposição aos sujeitos que presentemente não vivem
nas suas terras, que possuem uma representação essencialmente estética da localidade, assente
nomeadamente na beleza da paisagem e na riqueza do património histórico, consequência
provável do distanciamento da realidade quotidiana local e da elaboração de uma visão
romanceada da localidade.
Identidade associada ao lugar 41
Figura 2 – Representação gráfica das características dos sujeitos nas dimensões da Homals
Analisando conjuntamente as figuras 1 e 2, e tendo em conta a dimensão da
localidade, observa-se que as aldeias estão posicionadas no Quadrante 2 (Tranquilidade-Visão
Estética), as vilas no Quadrante 1 (Tranquilidade-Visão Prática/Instrumental) e as cidades no
Quadrante 3 (Bulício- Visão Prática/Instrumental), o que corresponde amplamente à
representação geralmente partilhada pelo senso comum acerca destes locais. As aldeias
surgem então como os locais onde a tranquilidade, a proximidade com natureza e os aspectos
sociais da vida em comunidade assumem maior destaque, face à menor oferta de serviços e de
infra-estruturas locais. As cidades, por seu turno, são representadas como um meio agitado e
poluído em que a maior oferta de serviços e de infra-estruturas coexiste com problemas
ambientais e sociais. As vilas surgem, de certa forma, como ponte entre estes dois tipos de
localidade, apresentando a tranquilidade, o espírito de comunidade e a segurança como
principais características positivas, embora sejam salientes para os seus habitantes as
limitações existentes a nível de infra-estruturas e serviços locais.
Aldeia
Não vive na terra
Alta Identidade
Vila
Vive na terraBaixa Identidade Cidade
-0,6 -0,5 -0,4 -0,3 -0,2 -0,1
0 0,1 0,2 0,3
-1 -0,5 0 0,5
Identidade associada ao lugar 42
Conclusões
O presente estudo assumiu uma natureza qualitativa exploratória e teve como
principal objectivo identificar os conteúdos identitários subjacentes à identidade associada ao
lugar. A análise dos mesmos teve em linha conta a dimensão da localidade e o grau de
identidade reportado pelos sujeitos. Foi também analisada a existência de diferenças entre o
grau de identidade dos indivíduos em função da dimensão da localidade, não se tendo
encontrado a este nível diferenças significativas.
Os resultados obtidos demonstram que os sujeitos atendem a diversos aspectos do
seu ambiente urbano para o caracterizar, nomeadamente a características da vida social, dos
habitantes, do património histórico- cultural, do património natural, do ambiente físico e
social, e ainda a aspectos económicos, sócio-demográficos e outros relacionados com as infra-
estruturas e serviços locais. Muitas das categorias expressas pelos sujeitos neste estudo são
semelhantes às dimensões de avaliação da qualidade residencial utilizadas por Bonaiuto e
colaboradores (1999) e aos significados dos lugares atribuídos pelos sujeitos de Gustafson
(2001), embora obedeçam a uma estruturação, por vezes, diferente. Neste sentido, as
categorias incluídas: (a) na dimensão infra-estruturas e serviços locais (e.g. serviços médicos
e educativos), (b) nas dimensões social (e.g. raízes, privacidade, redes sociais) e
características dos habitantes (e.g. simpatia, mentalidade aberta ou fechada), (c) na dimensão
relativa à caracterização do ambiente físico e social (e.g. tranquilidade, poluição), e (d)
património histórico-cultural (e.g. património arquitectónico, monumentos) e natural (e.g.
espaços verdes, beleza da paidagem) têm correspondência com as dimensões utilizadas por
Bonaiuto e colaboradores (1999) para avaliar a qualidade residencial percebida pelos
habitantes de Roma, designadamente (a) serviços, (b) relações sociais, (c) características do
contexto e (d) arquitectura e planeamento. Da mesma forma, os resultados do presente estudo
revelam que os motivos mais frequentemente apontados pelos sujeitos como factores de
Identidade associada ao lugar 43
ligação ao lugar são a existência de raízes e redes sociais, bem como o facto de considerarem
o lugar tranquilo e bonito, o que vai no sentido dos resultados encontrados por Bonaiuto e
colegas que apontam para uma maior importância dos aspectos sociais e de contexto,
comparativamente com as características arquitectónicas e os serviços locais, sobre a ligação
ao lugar. No que concerne ao estudo de Gustafson (2001) as semelhanças nos conteúdos ou
significados identificados são também visíveis. Categorias como a existência de raízes estão
presentes entre os temas mapeados em torno do pólo Eu; outras como aquelas referentes às
características dos habitantes, como a simpatia, estão presentes entre os temas mapeados em
torno do pólo Outros; e categorias como o clima, a poluição, a centralidade fazem parte dos
temas mapeados em torno do pólo Ambiente. Muitas das categorias extraídas da análise de
conteúdo realizada encontram-se também entre os temas mapeados em torno de mais do que
um destes pólos. Refira-se a titulo ilustrativo, apenas a categoria espírito de comunidade
situada entre os pólos Eu e Outros. No seu conjunto, a existência de similaridades entre os
conteúdos identificados no presente estudo, os de Bonaiuto e colaboradores (1999) e os de
Gustafson (2001) apontam para a existência de constância nas características e dimensões
com base nas quais as pessoas avaliam e edificam a sua identidade associada ao lugar.
Os resultados obtidos neste estudo revelam, ainda, que a multiplicidade de categorias
identificadas através da análise de conteúdo se associam com base em duas dimensões, que se
designaram de Tranquilidade- Bulício (opõe uma representação da localidade assente na
tranquilidade a uma representação associada ao bulício e à poluição ambiental) e Prática/
Instrumental – Estética (opõe uma representação assente essencialmente na caracterização das
infra-estruturas e serviços locais indispensáveis ao dia-a-dia a uma representação assente na
beleza da paisagem e na riqueza do passado histórico). A associação destas dimensões à
própria dimensão das localidades revela que são as pessoas que se identificam com cidades
que se encontram mais atentas às questões práticas e funcionais, utilizando mais elementos
Identidade associada ao lugar 44
deste nível para caracterizar as suas terras do que aquelas que se identificam com vilas e
aldeias. No seu conjunto, os sujeitos possuem representações diferentes de cidades, vilas e
aldeias assentes em categorias distintas, representações essas que correspondem em larga
medida aquelas que são geralmente essas partilhadas pelo senso comum. Assim, as aldeias
são representadas como lugares tranquilos, próximos da natureza, nos quais os aspectos
sociais e comunitários assumem maior destaque. As cidades, pelo contrário, são representadas
como meios agitados e poluídos em que a maior oferta de serviços e infra-estruturas locais
coexiste com problemas sociais e ambientais. As vilas surgem como lugares intermédios,
como uma ponte entre os dois mundos, apresentando a tranquilidade, o espírito de
comunidade e a segurança como principais atractivos, e limitações a nível das infra-estruturas
e serviços locais como aspectos a melhorar. Em nosso entender, estes resultados vão no
sentido da tendência identificada por Gustafson (2001) para se atribuírem significados
diferentes aos lugares em função da sua dimensão. Tal como sugerido pelo autor, as
características atribuídas aos lugares de maior dimensão, neste estudo às cidades, têm
essencialmente a ver com aspectos em que o indivíduo não controla ou não intervém
directamente, como é o caso dos diversos serviços e infra-estruturas existentes, a poluição e a
insegurança (pólo Ambiente), enquanto que as características atribuídas aos lugares de menor
dimensão, neste estudo às aldeias, encontram-se mais fortemente relacionadas com aspectos
em que o indivíduo participa e tem uma intervenção directa, como é o caso das redes sociais,
da privacidade e do espírito de comunidade (pólos Eu, Eu e Outros). No caso das vilas essa
atribuição não é tão linear, sendo atribuídos significados de todos os pólos. O facto das
representações dos três tipos de localidades englobarem tanto aspectos positivos como
negativos, mas não se encontrarem diferenças significativas no que toca à identidade
associada ao lugar que permanece bastante elevada ao longo da amostra, leva a que se
interprete os mesmos de acordo com Fried (1982, 2000). Segundo o autor, a maioria das
Identidade associada ao lugar 45
pessoas tem uma visão positiva dos locais em que vive porque se habitua ou se torna
insensível às fontes de insatisfação com o continuar da vivência no lugar. Saliente-se que não
é uma questão de ficar “cego à realidade” (a atribuição de características negativas os lugares
assim o comprova), mas de minimizar os aspectos negativos e valorizar os positivos, por
forma a apreciar favoravelmente o lugar de residência. Existe paralelamente um conjunto de
estratégias que permite moderar o impacto das fontes de insatisfação, como seja mudar as
condições da residência ou escolher as pessoas com quem se pretende interagir. Estes
processos de coping e adaptação ao meio residencial são bastante importantes, atendendo
nomeadamente ao facto da escolha do lugar de residência ser na maioria das vezes
condicionada por factores económicos e sociais que limitam a mobilidade residencial dos
indivíduos, e a incongruência ou insatisfação com o lugar de residência se poder traduzir em
problemas de saúde e bem estar psicológico (Stokols e Shumaker, 1985).
Outro aspecto interessante dos resultados obtidos neste primeiro estudo resulta da
associação das características dos sujeitos às dimensões que estruturam o conjunto global das
categorias identificadas. Em relação à dimensão Tranquilidade- Bulício, verifica-se que são os
sujeitos que vivem presentemente nas suas terras e também aqueles que apresentam uma
menor identidade associada ao lugar que consideram que as mesmas são mais poluídas e
agitadas, por oposição aos sujeitos que presentemente não vivem nas suas terras e aos sujeitos
com elevada identidade associada ao lugar que caracterizam as suas terras como mais
tranquilas. No que respeita à dimensão Prática/ Instrumental- Estética, constata-se que são os
sujeitos que presentemente vivem nas suas terras que estão mais atentos às questões práticas e
funcionais, por oposição aqueles que não vivem nas mesmas e que as caracterizam com base
na beleza da paisagem e na sua riqueza histórica. Estes resultados sugerem que o facto das
pessoas viverem ou não na localidade que consideram ser a sua terra traduz-se numa avaliação
qualitativamente diferente da mesma. As que vivem na sua terra estão mais atentas aspectos
Identidade associada ao lugar 46
específicos da sua experiência directa com o meio (e.g. poluição, serviços existentes),
enquanto que as que não residem nas suas terras as avaliam com base em aspectos ou
atributos gerais do lugar recorrendo às memórias que possuem do mesmo (e.g. beleza,
património histórico). Futuramente, será importante desenvolver uma investigação centrada
neste domino afim de apurar concretamente qual influência desta variável sobre a avaliação
dos lugares e sobre o desenvolvimento da identidade associada ao mesmos.
Não obstante o interesse e relativa abrangência dos resultados obtidos neste primeiro
estudo, os mesmos deverão ser interpretados e transferidos com alguma moderação para
outros grupos, uma vez que a literatura indica que a identidade associada ao lugar não é
apenas um produto das características do lugar mas também das características das pessoas e
da sua relação com o meio (Cuba e Hummon, 1993). A existência de correspondência entre as
categorias identificadas neste estudo e as reportadas por outros autores (e.g. Bonaiuto et al.,
1999; Gustafson, 2001) fornece todavia algumas garantias relativamente ao seu valor. Não
obstante, as categorias identificadas poderão não cobrir a totalidade dos conteúdos identitários
existentes e reflectir as preocupações e interesses deste grupo, marcadamente jovem,
escolarizado e de sexo maioritariamente feminino. Refira-se, por exemplo, que as infra-
estruturas e serviços locais ligados ao apoio à terceira idade não foram referidas pela amostra,
apesar da importância que assumem num país com tão grande número de idosos. De forma a
salvaguardar esta questão pretende-se num alargamento futuro deste projecto proceder à
replicação do estudo junto de uma amostra tanto quanto possível representativa da população
portuguesa.
Identidade associada ao lugar 47
ESTUDO 2
Objectivos
Partindo da análise da estrutura dos conteúdos identitários, avaliados com base na
aplicação de uma escala construída a partir dos resultados do estudo anterior a uma amostra de
residentes na área do Grande Porto, o presente estudo teve como objectivos:
1. Analisar a estrutura factorial dos conteúdos identitários;
2. Analisar em que medida o grau de identidade associada ao lugar difere em função da
dimensão da localidade em que os indivíduos residem;
3. Analisar em que medida os conteúdos identitários diferem em função da força da
identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade em que os indivíduos residem;
4. Analisar em que medida a qualidade ambiental percebida é influenciada pela força da
identidade associada ao lugar e pela dimensão da localidade em que os indivíduos
residem;
5. Analisar em que medida o grau de identidade associada ao lugar e os diferentes conteúdos
identitários se encontram relacionados com a percepção da qualidade ambiental local.
Face aos resultados de Lalli (1988) e Bonaiuto et al. (1996), que revelam a existência de
uma relação positiva entre o grau de identidade dos sujeitos e a qualidade ambiental
percebida, e especificamente quanto à relação entre identidade associada ao lugar e
percepção de qualidade ambiental, estabeleceu-se a seguinte hipótese:
H1: Existe uma relação positiva entre o grau de identidade associada ao lugar e a qualidade
ambiental percebida, no sentido em que quanto maior for a identidade associada ao lugar
reportada pelo sujeito maior será a qualidade percebida do ambiente local.
6. Analisar em que medida conteúdos identitários diferem na sua capacidade de prever a
qualidade ambiental percebida de indivíduos com diferentes níveis de identidade
associada ao lugar.
Identidade associada ao lugar 48
Dada a inexistência de suporte teórico-empírico, não se estabelecem neste projecto
outras hipóteses, assumindo o mesmo um carácter essencialmente exploratório apenas
orientado pelos objectivos propostos.
Método
Sujeitos
Este estudo foi realizado no âmbito da monitorização dos impactes psicossociais da
construção e funcionamento da incineradora LIPOR II, na região do Porto.
A recolha de dados realizou-se em Julho de 2002, tendo por base a entrevista directa
a 300 indivíduos de ambos os sexos, com mais de 18 anos, residentes nos concelhos do Porto
(Freguesias de Aldoar, Foz, Paranhos e Ramal), Maia (Freguesia de Moreira: lugares de
Sendal, Monte das Pedras e Crestins; Freguesia da Maia) e Matosinhos (Freguesia de Leça do
Bailio: lugares de Araújo e Custió; Freguesia de Custóias: lugares de Santiago de Custóias e
Esposade; Freguesia de Senhora da Hora). De referir que, na zona em que este estudo foi
realizado se assiste a um forte crescimento urbano e industrial, dado nomeadamente a sua
proximidade ao aeroporto internacional das Pedras Rubras. Os lugares e localidades mais
pequenas apanhadas no meio do processo de crescimento urbano da cidade do Porto e das
cidades em redor, nomeadamente Maia e Matosinhos, bem como pelo desenvolvimento
industrial na zona desenvolveram consequentemente características muito próprias, distintas
daquelas que tradicionalmente se associam aos lugares dessa dimensão.
As tabelas 3 e 4 sumariam as características sócio-demográficas da população e da
amostra deste estudo, respectivamente. Conforme se observa, os sujeitos possuem idades
compreendidas entre os 18 e os 86 anos, oscilando a média de idades por localidade entre os
45 e os 56 anos. Verifica-se que a maioria dos sujeitos residem na localidade há bastante
Identidade associada ao lugar 49
tempo, oscilando as médias por localidade entre os 16 e os 43 anos. O nível de instrução da
amostra é baixo, tendo sensivelmente metade da mesma frequentado a escola apenas até à 4.ª
classe.
Tabela 3. Características sócio-demográficas da população por localidade4
Localidade População % Homens Sendal 205 46.8 Crestins 569 47.8 Monte das Pedras 471 48.4 Esposade 2357 60.0 Araújo 1123 49.1 Custió 1034 48.5 Maia 16535 48.3 Senhora da Hora 19608 47.5 Santiago de Custóias 4699 58.0 Porto - Paranhos 53022 47.0 Porto – Ramalde 36517 46.2 Porto – Aldoar 15030 47.5 Porto - Foz 12523 46.7
Tabela 4. Características sócio-demográficas da amostra por localidade
Idade Anos de Residência Escolaridade Localidade N %
Homens Média Desvio
Padrão Média Desvio
Padrão % até 4.ª classe
Sendal 16 31,3 53,7 13,5 40,0 15,4 81,3 Crestins 39 53,8 47,1 15,6 32,2 16,0 51,3 Monte das Pedras 13 46,2 49,5 15,9 38,8 17,5 53,8 Esposade 16 43,8 45,3 22,2 25,7 16,5 50,0 Araújo 28 66,7 51,1 17,2 41,3 17,0 55,6 Custió 22 40,9 48,8 17,6 33,9 20,6 50,0 Maia 45 53,3 46,9 16,4 21,0 11,2 55,6 Sr.ª da Hora 28 57,1 52,9 16,2 37,5 18,8 53,6 Santiago de Custóias 21 52,4 46,8 18,6 16,2 8,3 30,0 Porto - Paranhos 21 57,1 56,1 19,9 43,7 14,5 42,9 Porto – Ramalde 23 52,2 50,3 19,1 29,3 14,9 43,5 Porto – Aldoar 16 50,0 56,3 20,3 35,6 17,6 43,5 Porto - Foz 22 45,5 51,9 20,7 42,6 22,2 45,5 Total 300 51,0 50,0 17,9 32,4 17,9 51,5
Identidade associada ao lugar 50
Tendo como critério o número de habitantes de cada localidade constituíram-se três
grupos de localidades, que se designaram de: (a) pequena dimensão, que integra as aldeias de
Sendal, Crestins, Monte das Pedras, Esposade, Araújo e Custió; (b) média dimensão, que
integra localidades de Senhora da Hora, Maia e Santiago de Custóias; e (c) grande dimensão,
que integra as quatro freguesias da cidade do Porto. Na tabela 5 apresentam-se as
características sócio-demográficas dos grupos constituídos. De referir que existem diferenças
significativas entre os grupos no que respeita à antiguidade de residência no lugar. Em média,
os sujeitos que residem nas localidades de média dimensão fazem-no há significativamente
menos tempo (F(2,299)= 14,13, p<.000) que os residentes nas localidades aldeias e no Porto.
Uma vez que na literatura existem indícios de que a antiguidade de residência num lugar se
encontra relacionada positivamente com a identidade associada ao lugar (e.g. Bonaiuto et
al.,1999; Hidalgo e Hernandéz, 2001), controlou-se posteriormente o efeito desta variável
durante a análise de dados.
Tabela 5. Características sócio-demográficas dos grupos constituídos
Idade Anos de Residência Escolaridade Dimensão da localidade N %
Homens Média Desvio
Padrão Média(*) Desvio
Padrão % até 4.ª classe
Pequena 124 48,4 48,9 17,1 34,7a 17,6 55,6 Média 94 54,3 48,7 16,9 24,8b 15,8 49,5 Grande 82 51,2 53,4 19,9 37,8a 17,0 47,6 Total 300 51,0 50,0 17,9 32,4 17,9 51,5
(*)F(2,299)= 14,13, p<.000.
4 Em virtude dos dados dos Census 2001 por lugar não estarem à data disponíveis, utilizaram-se os dados
resultantes dos Census 1991, embora se coloque a hipótese de estarem bastante desactualizados em função do crescimento urbano que se assistiu nos últimos anos na zona em questão.
Identidade associada ao lugar 51
Instrumento e Procedimento
Os dados foram recolhidos utilizando a técnica de entrevista directa e pessoal,
conduzida na residência dos participantes, mediante um questionário estruturado que inclui as
seguintes medidas:
Conteúdos Identitários. Introduziu-se um conjunto de 38 itens construídos a partir
das categorias obtidas no Estudo 1, solicitando-se aos sujeitos que, pensando no lugar em que
vivem, indicassem o seu grau de acordo relativamente aos mesmos. A resposta aos itens foi
dada numa escala de cinco pontos que varia entre 1 (discorda totalmente) e 5 (concorda
totalmente). Oito dos itens referem-se a aspectos sociais (e.g. “é onde tenho a minha família”,
“é um local onde a maioria das pessoas se conhece”), dois itens estão relacionados com
características dos habitantes ( e.g. “é um local onde vivem pessoas simpáticas”, “é um local
onde vivem pessoas pacatas”), quatro itens estão relacionados com a riqueza histórico-cultural
da localidade (e.g. “ é um lugar culturalmente rico”, “é um local onde ainda se mantêm vivas
as tradições”), três itens estão relacionados com o património natural da localidade (e.g. “é um
local rodeado de paisagens bonitas”, “é um local onde existem jardins e parques em número
suficiente”), cinco itens estão relacionados com o ambiente físico e social da localidade (e.g. “
é um local muito poluído”, “é um local agitado e com vida”, “é um local agradável para se
viver”), dois itens referem-se a aspectos relacionados com a caracterização sócio-demográfica
da localidade (e.g. “é um local onde existem problemas sociais”, “é um local inseguro”), um
item está relacionado com a caracterização económica da localidade (e.g. “é um local onde
existem poucas oportunidades de emprego”), e os 13 itens remanescentes prendem-se com
infra-estruturas e serviços locais (e.g. “é um local onde existem os serviços essenciais para o
dia-a-dia”, “é um local onde existem instalações adequadas para praticar desporto”, "é um
local com muito trânsito”, “é um local onde se realizam espectáculos com frequência”). De
referir que foi introduzido um item relativo às infra-estruturas e serviços de apoio ao idoso,
Identidade associada ao lugar 52
que se considerou pertinente face às características etárias da presente amostra e que não tinha
sido apurado no Estudo 1.
Identidade associada ao lugar. De forma a poder quantificar o grau de identidade
associada ao lugar dos sujeitos, utilizou-se uma medida semelhante à aplicada no Estudo 1,
composta por dois items (“sinto que pertenço a este local”, “sinto-me orgulhoso por pertencer
a esse local”), que apresenta uma boa consistência interna (α=.79). A resposta aos items é
dada numa escala de cinco pontos, que varia entre 1 (discordo totalmente) e 5 (concordo
totalmente), e o resultado da escala é dado pela média dos 2 items.
Qualidade Ambiental Percebida. Para avaliar a qualidade ambiental percebida pelos
sujeitos utilizou-se a escala de Lima e Palma-Oliveira (2001) composta por 10 items (e.g.
“acho que o ar nesta zona é mau para a saúde”, “esta zona é tranquila, tem pouco barulho”,
“nesta zona há muitos ratos”), cuja consistência interna para a presente amostra é de .84. A
resposta aos itens é dada numa escala de cinco pontos, que varia entre 1 (discorda totalmente)
a 5 (concorda totalmente), sendo o resultado da escala dado pela média dos items após se
inverter os itens negativos. Consequentemente, a maiores níveis de concordância com a escala
correspondem maiores níveis de qualidade ambiental percebida.
Caracterização Sócio-demográfica. Recolheu-se informação acerca da idade, sexo,
nível de instrução completa, e anos de residência no local.
Identidade associada ao lugar 53
Resultados
Os dados recolhidos foram analisados com recurso à estatística descritiva univariada
(percentagem, média e desvio-padrão), bivariada (correlação de Pearson) e multivariada
(análise factorial), bem como à estatística indutiva (análise de variância, regressão).
Os resultados são reportados segundo a ordem dos objectivos previamente
estabelecidos. Assim, apresentam-se primeiramente os resultados atinentes à estrutura
factorial dos conteúdos identitários. Seguidamente, os resultados respeitantes à identidade
associada ao lugar e à sua análise em função da dimensão da localidade, e os resultados
respeitantes à análise das dimensões de conteúdos identitários em função da identidade
associada ao lugar e da dimensão da localidade. Registam-se os resultados concernentes à
percepção de qualidade ambiental, analisando-a em função da identidade associada ao lugar e
da dimensão da localidade. Por fim, expõem-se os resultados da relação entre a percepção de
qualidade ambiental, identidade associada ao lugar e dimensões de conteúdos identitários,
bem como os resultados relativos ao valor preditivo destes mesmos conteúdos sobre a
qualidade ambiental percebida por indivíduos com diferentes graus de identidade.
Estrutura factorial dos conteúdos identitários
A análise de frequências dos itens, prévia à realização da análise factorial,
determinou a eliminação de sete itens das análises posteriores em virtude de apresentarem
mais de 80% de concordância e se revelarem consequentemente pouco discriminativos (“é um
local onde vivo há muito tempo”, “é um local bem situado, perto de tudo”, “é um local onde a
maioria das pessoas se conhece”, “é um local onde vivem pessoas simpáticas”, “é um local
onde tenho as minhas raízes”, “é um local onde tenho a minha família”, “é um lugar com bons
acessos”). De salientar o facto de cinco dos mesmos dizerem respeito a aspectos sociais,
Identidade associada ao lugar 54
demonstrando a existência de um grande consenso relativamente à existência de redes sociais
no lugar.
Os restantes 31 itens foram submetidos a uma análise factorial em componentes
principais, com rotação varimax, que convergiu numa solução ao fim de seis iterações. Foram
eliminados 10 itens por apresentarem pesos factoriais baixos (<.40) ou por contribuirem para
a explicação de dois ou mais factores (“é um local com poucos sítios para estacionar”, “é um
local servido por uma boa rede de transportes”, “é um local agitado e com vida”, “é um local
tranquilo”, “é um local onde vivem pessoas pacatas”, “é um local muito poluído”, “é um local
com interesse turístico”, “é um local rico em monumentos”, “é um local culturalmente rico”,
“é um local com sítios onde se podem passar os tempos livres”).
A tabela 6 apresenta os resultados finais. Foram extraídos cinco factores que
explicam no seu conjunto 70,62% da variação existente. O factor 1, designado de Dimensão
Instrumental, inclui oito itens relativos às infra-estruturas e serviços locais, ofertas culturais e
de lazer e oportunidades de emprego e explica 25,04% da variação. O factor 2, designado de
Dimensão Estética, é composto por quatro itens relativos ao património natural e à avaliação
positiva da localidade e explica 15,24% da variação. O factor 3, designado de Dimensão
Histórico-cultural agrega três itens relativos ao sentido de comunidade e riqueza histórico-
cultural da localidade, explicando 11,15% da variação. O factor 4, designado de Resposta a
Resposta a Necessidades Básicas, agrega três itens relativos às redes sociais, privacidade e
existência de serviços essenciais, explicando 10,20% da variação. Por fim, o factor 5,
designado de Problemas Ambientais e Sociais, reúne três itens relacionados com problemas
ambientais e sociais e explica 8,99% da variação. Os factores apresentam os seguintes valores
de consistência interna (alfa de Cronbach): .86, .89, .77, .64 e .60, respectivamente.
Identidade associada ao lugar 55
Tabela 6. Estrutura factorial dos conteúdos identitários (rotação varimax)
Factor 1 Dimensão
Instrumental
Factor 2 Dimensão Estética
Factor 3 Dimensão Histórico- Cultural
Factor 4 Resposta a
Necessidades Básicas
Factor 5 Problemas
Ambientais e Sociais
É um local onde existem instalações adequadas para praticar desporto.
0,86
... onde existem jardins e parques em número suficiente.
0,82 0,31
...com jardins de infância, escolas e outras instituições de ensino em número suficiente.
0,81
...onde existem cuidados e serviços médicos adequados.
0,77
...onde existem actividades e ocupações para o fim de semana.
0,77 0,37
...onde se realizam espectáculos com frequência.
0,76 0,40
...onde existem poucas oportunidades de emprego.
-0,61
É um local bonito. 0,83 ...rodeado de paisagens bonitas. 0,77 0,40 ...onde nos sentimos perto da natureza.
0,74 0,42
...agradável para viver. 0,69 0,32
...onde ainda se mantêm vivas tradições antigas.
0,81
...onde a população é unida. 0,70 0,37
...com um passado histórico interessante.
0,39 0,69
...onde tenho as minhas amizades, os meus amigos.
0,82
...onde existem os serviços essenciais para o dia-a-dia.
0,31 0,71
...onde não temos privacidade porque as pessoas se intrometem na vida dos outros.
-0,66
...onde existem problemas sociais. 0,82 É um local com muito trânsito. 0,70 É um local inseguro. -0.35 0,56 Alfa .86 .89 .77 .64 .60 % Variância explicada 25,04% 15,24% 11,15% 10,20% 08,99% % Variância explicada total: 70,62%
Identidade associada ao lugar 56
Identidade associada ao lugar: diferenças em função da dimensão da localidade
No que se refere à força da identidade associada ao lugar, constata-se que, de uma
forma geral, os sujeitos se apresentam bastante identificados com as suas localidades
(M=4,23; DP= 0,76). Controlando o efeito dos anos de residência no local, através de uma
análise de variância univariada, verifica-se que existem diferenças no grau de identificação
dos sujeitos em função da dimensão da localidade onde residem (F(2,300)=3,24, p<.05).
Assim, embora todos se identifiquem bastante com os lugares onde residem, os sujeitos que
vivem em localidades pequenas e médias identificam-se ainda mais com a sua localidade do
que os que vivem no Porto (M= 4,31 e M=4,25 vs. M= 4,09, respectivamente).
Conteúdos identitários: diferenças em função do grau de identidade associada ao lugar
De forma a se poder analisar a existência de diferenças nos conteúdos identitários
em função do grau de identidade associada ao lugar dos sujeitos, constituíram-se com base na
média da amostra, dois grupos que se designaram de baixa (45,7%) e alta identidade associada
ao lugar (54,3%).
A realização de análises de variância univariadas para cada um dos conteúdos
identitários, controlando o efeito dos anos de residência no lugar, revela a existência de
diferenças significativas nos níveis de concordância com os mesmos (tabela 7). Assim, os
indivíduos mais identificados mostram-se mais concordantes relativamente à dimensão
instrumental (F(1,273)= 20,94, p<.000), dimensão estética (F(1,273)= 50,31, p<.000),
dimensão histórico-cultural (F(1,273)= 25,39, p<.000) e dimensão resposta a necessidades
básicas (F(1,273)= 67,01, p<.000) do que os menos identificados. Relativamente à dimensão
problemas ambientais e sociais, que reúne características marcadamente negativas do lugar,
são os sujeitos menos identificados que revelam um nível mais elevado de concordância
comparativamente com os mais identificados (F(1,273)= 11,95, p<.001). Estes resultados
Identidade associada ao lugar 57
sugerem que os sujeitos mais identificados com a localidade em que residem percepcionam a
mesma de forma, globalmente, mais positiva do que os menos identificados, maximizando as
características positivas e minimizando as características negativas quando comparados com
os sujeitos menos identificados, que apresentam o comportamento inverso.
Tabela 7. Diferenças nos conteúdos identitários em função do grau de identidade associada ao lugar
Baixa Identidade Alta Identidade Total da Amostra Média DP Média DP Média DP Dimensão Instrumental 2,88 0,78 3,30* 0,80 3,08 0,81 Dimensão Estética 3,47 0,93 4,19* 0,70 3,80 0,90 Dimensão Histórico-cultural 3,42 0,82 3,92* 0,72 3,65 0,78 Resposta a Necessidades Básicas 3,51 0,71 4,20* 0,70 3,82 0,83 Problemas Ambientais e Sociais 3,23 0,78 2,89** 0,84 3,08 0,71
* p<.000; **p<.05.
Conteúdos Identitários: diferenças em função da dimensão da localidade
A realização de análises de variância para cada um dos conteúdos identitários em
função da dimensão da localidade de residência, revela a existência de diferenças
significativas na forma como os sujeitos utilizam os conteúdos para avaliarem as suas
localidades, conforme se observa na tabela 8.
Relativamente às dimensões instrumental e estética, verifica-se que, em termos
gerais, os sujeitos consideram que as localidades onde vivem oferecem genericamente
razoáveis oportunidades de emprego e boas infra-estruturas e serviços locais (M= 3,08; DP=
0,81) e são locais bonitos e agradáveis para se viver (M= 3,80; DP= 0,90). Não obstante, os
sujeitos residentes na Maia, Senhora da Hora e Santiago de Custóias, localidades de média
dimensão, atribuem, por um lado, uma ainda maior instrumentalidade à sua localidade,
mostrando-se mais satisfeitos com as oportunidades de emprego e com as várias infra-
estruturas e serviços disponíveis, e por outro, percepcionam as suas localidades como mais
Identidade associada ao lugar 58
belas e agradáveis do que os restantes sujeitos (F(2,272)= 62,21, p<.000; e (F(2,272)= 8,18,
p<.000, respectivamente). A realização de correlações de Pearson entre as variáveis revela a
existência de uma relação não significativa entre as mesmas (funcional: r=.08, n.s.; estética: -
.06, n.s.).
No que respeita às dimensões histórico-cultural e resposta a necessidades básicas,
observa-se que, na globalidade, os sujeitos consideram igualmente que nas suas terras a
população é unida e preserva a riqueza das tradições e do passado histórico (M=3,65;
DP=0,81) e que são locais onde têm os seus amigos, privacidade e os serviços essenciais ao
dia a dia (M= 3,82; DP= 0,78). Mesmo assim, verificam-se diferenças significativas em
função da dimensão da localidade, com os sujeitos residentes nas aldeias e nas localidades de
média dimensão a fazer uma avaliação mais positiva das suas localidades nestas dimensões do
que os sujeitos residentes na cidade do Porto (F(2,272)= 7,69, p<.001 e F(2,272)= 24,47,
p<.000, respectivamente). O resultado da correlação de Pearson entre as variáveis revela a
existência de uma relação negativa entre as mesmas (histórico- cultural: r=-.15, p<.05;
resposta a necessidades básicas: r=-.34, p<.01).
Quanto à dimensão problemas ambientais e sociais, verifica-se que na globalidade os
sujeitos consideram que existe insegurança, tráfego elevado e problemas sociais nas
localidades onde vivem (M= 3,08; DP= 0,83). Todavia, a percepção de problemas ambientais
e sociais parece aumentar com a dimensão da localidade, uma vez que todos os grupos
apresentam diferenças significativas entre si nesta dimensão (F(2,272)= 15,16, p <.000). O
resultado da correlação de Pearson entre as variáveis comprova a existência de uma
associação positiva entre as mesmas (r=.32, p<.01).Os residentes nas aldeias são os que
percepcionam a existência de menos problemas a este nível, seguidos dos residentes nas
localidades médias e, finalmente, dos residentes do Porto, que são os que percepcionam a
existência de mais problemas ambientais e sociais na sua zona de residência.
Identidade associada ao lugar 59
Tabela 8. Diferenças nos conteúdos identitários em função da dimensão da localidade
Dimensão da Localidade Pequenas Médias Grandes Total da
Amostra Média DP Média DP Média DP Média DP Dimensão Instrumental 2,76a 0,75 3,76b 0,52 2.79a * 0,69 3,08 0,81 Dimensão Estética 3,74a 0,96 4,10b 0,66 3,55a * 0,97 3,80 0,90 Dimensão Histórico-cultural 3,70a 0,85 3,84a 0,54 3,36b ** 0,93 3,65 0,81 Resposta a Necessidades Básicas 4,02a 0,74 4,00a 0,75 3,32b * 0,66 3,82 0,78 Problemas Ambientais e Sociais 2,81a 0,86 3,11b 0,73 3,45c * 0,73 3,08 0,83
* p<0.000; **p<0.001
Conteúdos identitários: efeito de interacção entre identidade associada ao lugar e
dimensão da localidade
A análise dos efeitos de interacção entre identidade associada ao lugar e dimensão da
localidade sobre os conteúdos identitários foi realizada mediante o cálculo de análises
univariadas de variância para cada uma das dimensões identificadas.
Os resultados revelam apenas um efeito de interacção significativo na dimensão
resposta a necessidades básicas (F(2,272)=2,99, p<.05). A figura 3 permite visualizar este
resultado. A comparação dos níveis médios de concordância com a dimensão resposta a
necessidades básicas apresentados pelos sujeitos com baixa identidade revela que existe uma
diferença significativa entre os que habitam em localidades pequenas (M=3,73; DP=0,77) e
médias (M=3,61; DP=0,65) e os que habitam no Porto (M=3,22; DP=0,71) (F(2,147)=8,20,
p<.000), ocorrendo o mesmo entre os que apresentam alta identidade (pequenas: M=4,22;
DP=0,65; médias: M=4,49; DP=0,58; Porto: M=3,60; DP=0,73; F(2,124)=12,81,p<.000).
Assim, os sujeitos que habitam no Porto, independentemente do grau de identidade com a
cidade, consideram que a mesma satisfaz menos as suas necessidades básicas do que os
sujeitos que vivem nas localidades de pequena e média dimensão.
Identidade associada ao lugar 60
Dimensão da localidade
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Identidade
Baixa
Alta
Figura 3. Efeito da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade sobre a
Dimensão Resposta a Necessidades Básicas.
Os resultados revelam ainda a existência de um efeito de interacção marginalmente
significativo a .07 na dimensão estética (F(2,272)=2,67, p<.07) (figura 4). A comparação dos
níveis médios de concordância com esta dimensão apresentados pelos sujeitos com baixa
identificação revelam uma diferença significativa entre os que vivem nas localidades de média
dimensão (M=3,87; DP=0,55) e os que vivem nas aldeias (M=3,15; DP=0,97) e no Porto
(M=3,39; DP=1,03) (F(2,174)=8,07,p.000), sendo que os primeiros consideram a sua
localidade como mais bonita que os restantes. Entre os sujeitos que reportam alta identidade,
o efeito é apenas marginal (F(2,124)=2,92, p<.06) mas vai no mesmo sentido (médias:
M=4,39; DP=0,68; pequenas: M=4,16; DP=0,71; Porto: 3,95; DP=0,65). No seu conjunto
estes resultados sugerem que, independentemente do grau de identidade manifestado, os
Identidade associada ao lugar 61
Dimensão da localidade
grandesmédiaspequenas
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2,5
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1,5
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Identidade
Baixa
Alta
sujeitos que vivem nas localidades de média dimensão consideram os lugares onde vivem
como mais bonitos e agradáveis, do que os restantes sujeitos.
Figura 4. Efeito da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade sobre a Dimensão Estética.
Identidade associada ao lugar 62
Qualidade ambiental percebida: diferenças em função da identidade associada ao lugar e
dimensão da localidade
Constata-se que, de uma forma geral, os sujeitos consideram que os locais onde
vivem apresentam uma razoável qualidade ambiental (M =3,06; DP= 0,71). Para analisar o
efeito da força da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade sobre a
percepção de qualidade ambiental procedeu-se ao cálculo de análises de variância univariadas,
controlando o efeito dos anos de residência no local. Os resultados indicam que ambas as
variáveis exercem influência sobre a percepção da qualidade ambiental.
No que respeita à força da identidade local, verifica-se que os sujeitos mais
identificados com as suas terras consideram que as mesmas apresentam uma melhor qualidade
ambiental (M=3,29; DP=0,69) do que os sujeitos que menos se identificam com os lugares em
que vivem (M=2,85; DP=0,65) (F(2,1,299)=28,68, p<.000).
Relativamente às diferenças na percepção da qualidade ambiental em função da
dimensão da localidade, constata-se que os sujeitos que vivem em localidades de média
dimensão e no Porto consideram que a qualidade ambiental das suas terras é maior (M=3,14;
DP=0,73 e M=3,07; DP=0,60, respectivamente) do que os sujeitos que residem nas
localidades pequenas (M= 3,00; DP=0,76) (F(2,299)=3,37, p<.05).
Os resultados revelam também um efeito de interacção sobre a percepção de
qualidade ambiental (F(2,299)=3,95, p<.05). A comparação dos níveis médios de qualidade
ambiental percebida pelos sujeitos com baixa identidade revelam uma diferença significativa
entre os que vivem nas aldeias (M=2,56; DP=0,64) e os que vivem nas localidades de média e
grande dimensão (M=2,97; DP=0,63; e M=3,00; DP=0,62, respectivamente) (F(2,156)=7,91,
p<.001). Entre os sujeitos com alta identidade não se verificam diferenças na percepção da
qualidade ambiental em função da localidade em que vivem (F(2,142)=0,25, n.s.). Desta
forma, a dimensão do lugar em que se vive parece só ter impacto sobre a qualidade ambiental
Identidade associada ao lugar 63
Dimensão da localidade
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Identidade
Baixa
Alta
percebida por sujeitos que se identificam pouco com o lugar, não afectando os juízos daqueles
que se identificam mais fortemente com a localidade onde vivem.
Figura 5. Efeito da identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade sobre a
Qualidade Ambiental Percebida.
Relação entre identidade associada ao lugar, conteúdos identitários e
qualidade ambiental percebida
Para testar a hipótese 1, segundo a qual se prevê a existência de uma relação positiva
entre o grau de identidade associada ao lugar e a qualidade ambiental percebida, procedeu-se
ao cálculo da correlação de Pearson entre as duas variáveis. O resultado deste teste revela a
existência de uma associação positiva significativa entre as mesmas (r=.29, p<.000),
indicando que quanto maior é a identificação com o lugar mais positiva é a percepção da
Identidade associada ao lugar 64
qualidade ambiental do mesmo. Este resultado é consistente com os resultados de Bonaiuto et
al. (1996) e Lalli (1992) e apoia a hipótese inicialmente levantada.
Com vista à análise da relação existente entre os conteúdos identitários identificados
e a qualidade ambiental percebida, procedeu-se igualmente ao cálculo de correlações de
Pearson entre as variáveis. Os resultados da análise da correlação entre as dimensões de
conteúdo identitário e a qualidade ambiental percebida revelaram igualmente associações
significativas. A dimensão estética apresenta a mais forte correlação positiva com a qualidade
ambiental percebida (r=.60, p<.000), pelo que quanto mais positivos são os juízos a nível
estético maior é a percepção de qualidade ambiental, ou de outra forma, quanto mais o sujeito
considera a sua terra bonita e agradável menos percepciona problemas ambientais a vários
níveis (e.g. sonoro, atmosférico). As restantes dimensões revelam igualmente uma correlação
positiva com a qualidade ambiental percebida, indicando que quanto maior é a percepção de
funcionalidade da localidade (r=.52), riqueza histórico-cultural atribuída (r=.38) e existência
de resposta a necessidades básicas (r=.19) maior é a percepção de qualidade ambiental. A
dimensão problemas ambientais e sociais, apresenta um comportamento inverso, isto é, uma
relação negativa significativa com a percepção de qualidade ambiental (r= -.45), indicando
que quanto maior é a percepção de problemas sociais e sobretudo ambientais menor é a
percepção de qualidade ambiental pelos sujeitos. De relembrar que esta dimensão inclui itens
relativos à insegurança, problemas sociais e tráfego elevado, sendo que este último pode ser
visto como tendo uma relação directa com os níveis de poluição, por exemplo, sonora ou
atmosférica da localidade. No seu conjunto são itens que veiculam uma imagem menos
positiva da localidade, pelo que parece plausível que diminuam a percepção de qualidade do
ambiente físico local. A tabela 9 resume os valores obtidos.
Identidade associada ao lugar 65
Tabela 9. Correlações entre identidade associada ao lugar, conteúdos identitários e qualidade ambiental percebida
Qualidade Ambiental Percebida
r p Identidade Associada ao Lugar .29 .000 Dimensão Instrumental .52 .000 Dimensão Estética .60 .000 Dimensão Histórico-Cultural .38 .000 Dimensão Resposta a Necessidades Básicas .19 .000 Dimensão Problemas Ambientais e Sociais -.45 .000
Percepção de qualidade ambiental em indivíduos com diferente grau de identidade
associada ao lugar: poder preditivo dos conteúdos identitários
Para testar o efeito preditivo dos conteúdos identitários relativamente à qualidade
ambiental percebida por indivíduos com baixa e alta identidade associada o lugar, efectuou-se
uma análise regressão linear múltipla para cada um dos grupos, cujos resultados se
apresentam na tabela 10.
Relativamente aos sujeitos com baixa identidade associada ao lugar, verifica-se que
os conteúdos identitários contribuem com 49% para a explicação da variabilidade da
qualidade ambiental percebida. A dimensão estética é a que revela maior contribuição
(β=0,54, p<.000), seguindo-se das dimensões instrumental (β=0,23, p<.001), resposta a
necessidades básicas (β=-0,21, p<.001) e problemas ambientais e sociais (β=-0,17, p<.005). Conclui-se, portanto, que a qualidade ambiental percebida é tanto maior quanto maior for a
percepção de beleza e funcionalismo do lugar e menor a percepção de resposta a necessidades
básicas e de existência de problemas ambientais e sociais. A percepção de riqueza histórico-
cultural do lugar não contribui para a percepção da qualidade ambiental (β=-0,07, n.s.).
Identidade associada ao lugar 66
No que concerne aos sujeitos com alta identidade associada ao lugar, verifica-se que
os conteúdos identitários contribuem com 38% para a explicação da variabilidade da
qualidade ambiental percebida. Apenas duas das dimensões de conteúdos contribuem
significativamente para a percepção de qualidade ambiental, nomeadamente as dimensões
problemas ambientais e sociais (β=-0,42, p<.000) e instrumental (β=0,29, p<.001), sendo que a dimensão estética apresenta um contributo marginalmente significativo para a explicação da
variabilidade da variável dependente (β=0,17, p<.069). Consequentemente, a qualidade ambiental percebida é tanto maior quanto mais os sujeitos consideram que os lugares onde
vivem apresentam menos problemas ambientais e sociais e, por outro lado, mais os vêem
como lugares dotados de infra-estruturas locais, ofertas culturais e de lazer e também de
ofertas de emprego, isto é, quanto mais os percepcionam como lugares funcionais. As
percepções da riqueza histórico- cultural (β=-0,04, n.s.) e da capacidade do lugar para
responder às necessidades básicas dos sujeitos (β=0,02, n.s.) não contribuem para a percepção da qualidade ambiental.
Tabela 10. Regressão múltipla dos conteúdos identitários sobre a qualidade ambiental percebida por indivíduos com baixa e alta identidade associada ao lugar (método enter)
Baixa Identidade 1 Alta Identidade 2 Conteúdos β T Sig. T β T Sig. T
Dimensão Instrumental 0,23 3,26 .001 0,29 3,55 .001 Dimensão Estética 0,54 6,76 .000 0,17 1,84 .069 Dimensão Histórico- Cultural -0,07 -0,87 n.s. -0,04 -0,51 n.s. Resposta a Necessidades Básicas -0,21 -3,48 .001 0,02 0,25 n.s. Problemas Ambientais e Sociais -0,17 -2,85 .005 -0,42 -5,56 .000 1 R2Ajust.= 0,49; F(5, 147)=30,30, p<.000; 2 R2Ajust.= 0,38; F(5, 124)=16,19, p<.000.
Identidade associada ao lugar 67
Conclusões
O presente estudo visou analisar a estrutura dos conteúdos subjacentes à identidade
associada ao lugar de uma amostra de sujeitos residentes na área do Grande Porto, bem como
estudar a influência do grau de identidade associada ao lugar e da dimensão da localidade
sobre os mesmos. Para além disso, procurou analisar de que forma estas variáveis se
relacionam com a percepção de qualidade ambiental, assumindo uma natureza correlacional e
exploratória.
Relativamente à estrutura dos conteúdos identitários, os resultados demonstram que
os mesmos são complexos e estão agrupados em cinco dimensões, nomeadamente: Dimensão
Instrumental que reúne itens relativos a aspectos práticos do quotidiano; Dimensão Estética
definida por itens relativos à beleza do lugar em geral e do seu património natural em
particular; Dimensão Histórico-Cultural em que são agregados itens relativos quer ao sentido
de comunidade quer à riqueza do passado histórico do lugar; Dimensão Resposta a
Necessidades Básicas definida por itens que salientam aspectos centrais para a vivência do
indivíduo como os amigos, a privacidade e a existência dos serviços essenciais; e por último,
Dimensão Problemas Ambientais e Sociais que aponta para uma avaliação menos positiva do
lugar reunindo itens relativos ao tráfego, insegurança e problemas sociais. Tal como ocorreu
no Estudo 1, e em parte porque as categorias aqui utilizadas resultam do mesmo, as dimensões
de conteúdo apuradas integram uma vez mais itens que correspondem aos utilizados por
Bonaiuto et al. (1999) e aos significados dos lugares identificados por Gustafson (2001) (cf.
conclusões do Estudo 1). Por outro lado, estes mesmos itens traduzem ideias presentes na
proposta teórica de Breakwell (1986,1992,1993,2001). Verifica-se neste sentido que a
Dimensão Instrumental reúne um conjunto de itens que se prende com questões de auto-
eficácia, isto é, com questões relacionadas com a medida em que o lugar permite que os
indivíduos levem a cabo as suas actividades diárias. O mesmo ocorre com a dimensão
Identidade associada ao lugar 68
Problemas Ambientais e Sociais, que reúne itens relativos ao tráfego, insegurança e existência
de problemas sociais. De relembrar que itens desta natureza foram indicados pelos sujeitos
entrevistados por Twigger-Ross e Uzzell (1996) no âmbito do estudo sobre identidade
associada ao lugar numa zona submetida a mudanças sociais, económicas e ambientais como
constrangimentos à sua relação com o ambiente. Por seu turno, as dimensões Estética e a
Histórico-Cultural, parecem estar relacionados com as funções de distintividade, auto-estima e
também continuidade, pois os itens que encerram constituem uma base para que os indivíduos
distingam o lugar e a si próprios de outros (e.g. porque ainda mantêm tradições antigas),
desenvolvam a sua auto-estima (e.g. porque vivem num local bonito)e adquiram um sentido
de continuidade (e.g. porque vivem num local com um passado histórico interessante e ainda
mantêm tradições antigas).
A forma como estas dimensões são utilizadas pelos sujeitos para caracterizar os
lugares onde vivem é influenciada quer pela sua identidade com o lugar quer pela dimensão
do mesmo. Os sujeitos mais identificados consideram que a sua localidade é
significativamente mais funcional, mais bonita e agradável, possui uma maior riqueza
histórico-cultural, satisfaz melhor as suas necessidades básicas e possui menos problemas
ambientais e sociais do que os indivíduos que apresentam uma menor identidade. Tal sugere
que o percepcionam de forma globalmente mais positiva do que os menos identificados,
maximizando as características positivas e minimizando as negativas, ou por outras palavras,
apresentam um enviesamento ou favoritismo pelo endogrupo (Tajfel, 1978, 1981; Tajfel e
Turner, 1979; Turner, 1987), facto que pelo seu turno apoia a ideia de que o ambiente
residencial é importante para a identidade e auto-estima dos indivíduos.
No que se refere à dimensão da localidade, consta-se que a mesma influencia a forma
como os sujeitos caracterizam os lugares onde vivem mas não de uma forma linear, o que
aponta para a importância que as próprias características dos lugares possuem a este nível. Os
Identidade associada ao lugar 69
resultados revelam então que sujeitos residentes nas localidades pequenas e no Porto
consideram que o local onde vivem é menos bonito e funcional do que aqueles que vivem nas
localidades de dimensão média; no que toca à riqueza histórico-cultural e à satisfação de
necessidades básicas a clivagem verifica-se entre os habitantes de localidades pequenas e
médias, por um lado, e do Porto, por outro, sendo que estes consideram que a sua cidade é
menos rica a este nível; a forma como analisam a existência de problemas ambientais e
sociais nas suas localidades leva à identificação de diferenças entre os três grupos, sendo que
os sujeitos de localidades pequenas consideram existir menos problemas que os das
localidades médias, e estes menos do que os do Porto. Este resultado tem por base a existência
de uma relação positiva entre a percepção de problemas ambientais e sociais e a dimensão das
localidades, convergindo para os resultados de estudos que revelam que a qualidade percebida
dos ambientes urbanos decresce com o aumento do tamanho das localidades (e.g. Appelbaum,
1976, Dahnman, 1983, citados por Bonaiuto e Bonnes, 1996; Fried, 1982).
Para além de se verificarem efeitos principais da identidade associada ao lugar e da
dimensão do lugar sobre os conteúdos identitários, constata-se também que estas variáveis
interagem significativamente sobre a dimensão resposta a necessidades básicas e
marginalmente sobre a dimensão estética. No primeiro caso, verifica-se que os juízos
realizados acerca da capacidade de resposta da cidade do Porto às necessidades básicas dos
sujeitos é sempre menor do que os dos restantes sujeitos, independentemente do nível de
identidade associada ao lugar. Isto significa que as pessoas que aqui vivem, quer estejam
muito ou pouco identificadas com o mesmo, consideram ter menos amigos, sentem a sua
privacidade mais invadida e estão menos satisfeitos com os serviços essenciais
disponibilizados na sua área de residência do que os restantes sujeitos. Se se tiver em conta
apenas a questão da amizade e da privacidade, este resultado poderá ser interpretado
eventualmente como um indicador de que as redes sociais de apoio são mais fracas neste
Identidade associada ao lugar 70
lugar. No segundo caso, os resultados sugerem que independentemente do nível de identidade
associada ao lugar, os sujeitos que residem nas localidades de média dimensão consideram os
lugares onde vivem como mais bonitos e agradáveis do que os restantes sujeitos.
Outro conjunto interessante de resultados obtidos por este estudo está relacionado
com a análise da relação existente entre as variáveis anteriormente mencionadas e a percepção
de qualidade ambiental. Note-se que neste caso não está em causa a percepção da qualidade
de vida ou de qualidade do ambiente residencial, mas sim da qualidade ambiental do lugar
operacionalizada através de vários indicadores de poluição ambiental (e.g. ruídos, ratos,
qualidade das águas dos rios). Assim, verifica-se que nesta amostra a qualidade ambiental
percebida é influenciada pelo grau de identidade local e pela dimensão da localidade,
demonstrando os resultados que a dimensão do lugar em que se vive só tem impacto sobre a
qualidade ambiental percebida por sujeitos com baixa identidade associada ao lugar, não
afectando os juízos daqueles que se identificam mais fortemente com os lugares onde vivem.
Relativamente à relação entre qualidade ambiental percebida e identidade associada
ao lugar, os resultados apoiam a hipótese segundo a qual existe uma relação positiva entre as
variáveis. Embora os dados recolhidos não forneçam informação concreta relativamente à
direcção causal desta relação, assume-se que quanto maior for a identidade associada ao lugar
maior será a qualidade ambiental percebida. Este resultado converge para os resultados de
Bonaiuto e colaboradores (1996), Lalli e Thomas, (1988, 1989, citados por Lalli, 1992) e
também para os do Estudo 1, segundo os quais o grau de identidade local influencia a
percepção de qualidade ambiental, no sentido em que os sujeitos mais identificados
consideram que o lugar onde vivem apresenta sempre uma melhor qualidade ambiental do que
aquela que lhe é atribuída pelos indivíduos menos identificados. Subjacente a este fenómeno
parece estar presente novamente um enviesamento positivo a favor do endogrupo (Tajfel,
1978,1981;Tajfel e Turner, 1979; Turner, 1987).
Identidade associada ao lugar 71
Relativamente à relação existente entre os conteúdos identitários e a qualidade
ambiental percebida, os resultados demonstram que existe uma associação positiva entre a
qualidade ambiental percebida e as dimensões instrumental, estética, histórico-cultural e
resposta a necessidades básicas, e negativa com a dimensão problemas ambientais e sociais.
As dimensões avaliativas mais fortemente associadas à percepção de qualidade ambiental são,
pela positiva, a dimensão estética e funcional e, pela negativa, a dimensão de problemas
ambientais e sociais. Assim, quanto mais o sujeito percepciona o lugar onde vive como
bonito e agradável, funcional, rico em termos histórico-culturais, com capacidade de satisfazer
as necessidades básicas, e com menos tráfego, insegurança e problemas sociais maior é a sua
percepção de qualidade ambiental. Estes conteúdos identitários apresentam todavia um valor
preditivo diferente da qualidade ambiental percebida por indivíduos com baixa ou alta
identidade associada ao lugar, constatando-se que em ambos os grupos a percepção de riqueza
histórico-cultural do lugar não contribuiu para a percepção de qualidade ambiental percebida.
No caso de indivíduos com baixa identidade local todas as restantes dimensões contribuem
para a previsão da qualidade ambiental percebida, sendo que esta será tanto maior quanto
maior for a percepção de beleza e funcionalismo do lugar e menor a percepção de resposta a
necessidades básicas e de existência de tráfego, insegurança e problemas sociais. Quanto aos
indivíduos com alta identidade associada ao lugar apenas duas dimensões contribuem
significativamente para tal, verificando-se que a qualidade ambiental percebida será tanto
maior quanto menos os sujeitos considerarem que os lugares onde vivem apresentam
problemas sociais, de insegurança e de tráfego e mais os virem como lugares dotados de infra-
estruturas, ofertas culturais e de lazer, ofertas de emprego, isto é, como lugares funcionais.
A generalização destes resultados para outras populações deve ser feita com algum
cuidado, um vez que a validade externa do estudo não está totalmente garantida. A forma
como os indivíduos se relacionam com o seu ambiente e constróem a sua identidade é
Identidade associada ao lugar 72
influenciada não só pelas características que lhe são subjectiva ou socialmente atribuídas, mas
também pelas características objectivas dos próprios lugares. No caso da percepção de
qualidade ambiental este facto parece evidente. Como foi referido anteriormente, o local onde
se realizou esta pesquisa possui características específicas fruto do desenvolvimento urbano e
industrial a que se tem assistido nos últimos anos. Uma visita ao terreno permitiu identificar
um conjunto de indicadores de poluição local nas aldeias em questão (e.g. rio poluído,
emanação de cheiros nauseabundos por uma vacaria, ruídos provenientes da proximidade a
um itinerário complementar, fumos de fábricas instaladas na zona) ausentes nos outros
cenários, que parecem contribuir para tornar saliente a existência de uma baixa qualidade
ambiental para os sujeitos que aqui vivem e quotidianamente convivem com estas fontes de
poluição. Esta percepção, embora minimizada entre os sujeitos com maior identidade com o
lugar, acabou por se fazer sentir nos resultados da qualidade ambiental percebida em função
da dimensão da localidade, que mostram claramente ser os sujeitos que vivem nas aldeias
aqueles que atribuem uma menor qualidade ao seu ambiente. Este resultado é bastante
interessante, na medida em que é contrário à ideia generalizada de que nas aldeias a qualidade
ambiental é melhor, veiculada pelo povo em expressões como “nas aldeias o ar é mais puro”,
pelo que será merecedor de maior atenção em futuros desenvolvimentos deste projecto, onde
se procurará introduzir nomeadamente alguns indicadores objectivos de qualidade ambiental e
analisar o seu efeito sobre a relação entre as variáveis em estudo.
Identidade associada ao lugar 73
Conclusões Gerais
A ideia de que os indivíduos se apropriam de características e significados atribuídos
ao ambiente através de processos individuais, grupais e culturais, incorporando-as no seu
auto-conceito, está reconhecida na literatura de psicologia ambiental através do conceito de
identidade associada ao lugar (Proshansky et. al., 1983).
Embora tenha vindo a ser alvo de atenção por parte de alguns teóricos nas últimas
décadas, os avanços realizados no seu estudo não permitiram ainda dar azo a um corpo teórico
consistente, sendo muitas as limitações que têm sido apontadas como estando na base deste
bloqueio. Entre as mesmas encontram-se a existência de confusão e falta de consenso a nível
conceptual e terminológico, a diversidade de abordagens teóricas e empíricas, a falta de
instrumentos de medida adequados e escassez de trabalho empírico (e.g. Devine-Wright e
Lyons, 1997; Dixon e Durrheim, 2000; Giuliani e Feldman, 1993; Hidalgo e Hernandéz,
2001; Krupat, 1983; Lalli, 1992; Twigger-Ross e Uzzell, 1996).
Os trabalhos de Proshansky (1978) e Proshansky e colaboradores (1983), que
concebem a identidade associada ao lugar como uma construção do indivíduo, e os de Lalli
(1988,1992) posteriormente vieram salientar seu carácter social deram contributos
importantes para a compreensão da relação que se estabelece entre identidade e ambiente.
Também as recentes adaptações das teorias da identidade social e auto categorizarão social
(Tajfel, 1978;1981; Tajfel e Turner, 1979; Turner, 1987) e da teoria dos processos identitários
para contexto ambiental se têm mostrado férteis e proveitosas para a compreensão dos
aspectos sociais da identidade associada ao lugar.
A investigação empírica realizada à data sobre este tema, embora não seja extensa,
fornece suporte empírico quanto à influência da identidade associada ao lugar sobre as
percepções (e.g. Bonaiuto et al., 1996; Lalli, 1988, 1992), atitudes (e.g. Lalli e Thomas, 1988,
Identidade associada ao lugar 74
1989, citados por Lalli, 1992; Lima, 1994, 1997 citada por Lima,1998) e opções
comportamentais dos indivíduos face ao seu ambiente (e.g. Nordenstam, 1994, citado por
Bonaiuto et al., 1996), bem como quanto à sua importância para o bem estar dos mesmos (e.g.
Lima e Palma-Oliveira, 2001), mas tem negligenciado claramente o estudo dos conteúdos
simbólicos subjacentes à identidade associada ao lugar, ao assumir uma perspectiva
essencialmente quantitativa. Foi neste âmbito que surgiu o projecto de investigação descrito
nesta dissertação, tendo como objectivo central identificar os conteúdos subjacentes à
identidade associada ao lugar através de uma metodologia qualitativa, e contribuir dessa
forma para a superação da negligência a que o seu estudo tem sido votado. Alguns estudos
(e.g. Bonaiuto et al., 1999; Gustafson, 2001; Lima, 1999), embora não tenham sido realizados
com o intuito de estudar especificamente estes conteúdos, apresentam resultados bastante
sugestivos quando transferidos para este campo, que reforçam a necessidade de se atender aos
conteúdos identitários, isto é, às dimensões de identidade que integram as propriedades e
características que a definem (Breakwell, 1986,1992,1993,2001), por forma a melhor
compreender a relação que se estabelece entre os indivíduos e o seu meio. Sugerem
nomeadamente que indivíduos com o mesmo grau de identidade podem apresentar conteúdos
identitários diferentes que influenciam de forma distinta as suas percepções, atitudes e opções
comportamentais face ao ambiente (Lima, 1999); que as dimensões com base na qual os
indivíduos avaliam o seu ambiente determinam de forma diferente a relação que com o
mesmo estabelecem (Bonaiuto et al., 1999); e que subjacente à identidade associada a lugares
de diferente dimensão podem estar conteúdos simbólicos distintos (Gustafson, 2001). Face a
este conjunto de sugestões, a análise dos conteúdos identitários foi realizada atendendo ao
grau de identidade reportado pelos sujeitos e à dimensão das localidades onde estes vivem,
introduzindo-se ainda como objectivo analisar a relação existente entre as variáveis
anteriormente citadas e a percepção da qualidade ambiental.
Identidade associada ao lugar 75
A realização de um primeiro estudo, de natureza qualitativa, junto de estudantes
universitários permitiu identificar um conjunto bastante significativo de aspectos a que os
indivíduos atendem quando avaliam os lugares com que se identificam. Sendo que existe uma
correspondência entre muitos destes conteúdos e as dimensões e significados reportados por
Bonaiuto et al. (1999) e Gustafson (2001) nos seus estudos, conclui-se que existe alguma
consistência entre as características e dimensões com base nas quais as pessoas avaliam e
edificam a sua identidade associada ao lugar. A aplicação de uma escala de conteúdos
identitários a uma amostra de residentes do Grande Porto, construída com base nos conteúdos
identificados nesse primeiro estudo, revela que os mesmos se agrupam em cinco grandes
dimensões que se prendem genericamente com a funcionalidade do lugar, com a sua beleza
estética, com a riqueza do seu património histórico-cultural, com a capacidade de resposta a
necessidades básicas dos residentes em termos de amizades, privacidade e serviços mínimos,
e por último, a questões relacionadas com a existência de problemas ambientais e sociais.
A forma como os sujeitos caracterizam os lugares onde vivem através destas
dimensões é influenciada quer pela sua identidade com o lugar quer pela dimensão do mesmo.
Em relação à identidade verifica-se que os indivíduos mais identificados com os lugares onde
vivem apresentam sempre uma visão mais positiva do lugar, considerando que os mesmos são
mais funcionais, bonitos, ricos em património histórico e cultural, capazes de satisfazer
necessidades básicas e com menos problemas ambientais, enquanto que os menos
identificados apresentam um comportamento inverso. Quanto à dimensão da localidade, os
seus efeitos sobre as cinco dimensões de conteúdos não são tão lineares e parecem estar
relacionados com a própria dimensão em análise. Apenas na dimensão problemas ambientais
e sociais se verificam a existência de diferenças significativas entre os três tipos de localidade,
com um crescendo de concordância com a mesma em paralelo ao aumento da dimensão do
lugar, com base na existência de uma relação positiva entre as variáveis que é convergente
Identidade associada ao lugar 76
com os resultados de outros estudos que revelam que a qualidade percebida dos ambientes
urbanos decresce com o aumento do tamanho das localidades (e.g. Appelbaum, 1976,
Dahnman, 1983, citados por Bonaiuto e Bonnes, 1996; Fried, 1982). Estas variáveis
interagem significativamente apenas sobre a percepção da capacidade que a localidade possui
para satisfazer as necessidades básicas dos seus habitantes, levando a que os habitantes do
Porto, considerem que esta é menor que os restantes sujeitos, independentemente do seu grau
de identificação com a cidade.
Relativamente à percepção de qualidade ambiental, os resultados revelam que a
dimensão do lugar apenas afecta os juízos efectuados a este respeito por residentes com baixa
identidade com o lugar, acentuando nomeadamente a baixa qualidade percebida por residentes
de pequenos lugares. Para os sujeitos que se identificam bastante com o lugar onde vivem, a
dimensão deste parece não influenciar a percepção que os mesmos têm da qualidade
ambiental, sendo esta marcadamente mais elevada do que percepcionada por aqueles que
menos se identificam com o lugar. Mas os resultados que se consideram mais importantes
relativamente à percepção de qualidade ambiental dizem respeito à sua relação com os
conteúdos identitários e à capacidade destes determinarem a qualidade ambiental percebida
por indivíduos com diferentes níveis de identidade. De acordo com os mesmos, verifica-se a
existência de uma associação positiva com os conteúdos relativos à funcionalidade, beleza,
património histórico- cultural e capacidade de satisfação de necessidades básicas, mas
negativa com a relativa aos problemas ambientais e sociais, pelo que se conclui que a
existência de uma visão genericamente mais positiva do lugar, alicerçada em cada uma destas
dimensões, leva a que se efectuem juízos mais positivos acerca da sua qualidade ambiental.
Para além disso, os conteúdos diferem na sua capacidade de prever a qualidade percebida por
sujeitos com alta e baixa identidade com o lugar, sendo que as considerações relativas ao
património histórico- cultural do lugar não têm peso nesta matéria e merecem ser alvo de
Identidade associada ao lugar 77
maior investigação. No caso dos indivíduos com baixa identidade, a sua percepção de
qualidade do ambiente será tanto maior quanto maior for a percepção de beleza e
funcionalidade do lugar e menor a percepção de capacidade de resposta a necessidades básicas
e existência de problemas ambientais e sociais. Já para os indivíduos altamente identificados
com as suas localidades a qualidade ambiental percebida será maior apenas em função de dois
factores: uma menor percepção de existência de problemas ambientais e sociais e uma maior
percepção de funcionalismo do lugar.
Muito embora os resultados a que se chegou através deste projecto ajudem a elucidar
a relação que se estabelece entre identidade e ambiente, nomeadamente por constituir um
primeiro esforço no sentido da identificação das dimensões avaliativas que estão subjacentes à
mesma, a necessidade de desenvolver mais pesquisa sobre esta problemática persiste. Face à
literatura existente e aos resultados destes estudos, existem algumas linhas de investigação
sobre a problemática da identidade associada ao lugar que se pretende vir a seguir no
desenvolvimento deste projecto, nomeadamente ao nível do programa doutoral. Assim, por
forma a melhor compreender o impacto das características físicas e objectivas do ambiente
sobre a forma como as pessoas se relacionam com o mesmo e constróem as suas identidades,
pretende-se, futuramente, replicar este estudo junto de populações residentes em zonas do país
com características diferentes em termos de desenvolvimento urbano e industrial (e.g.
norte/sul, litoral/interior). A descoberta dos conteúdos identitários valorizados pelos
habitantes das várias regiões que se venham a estudar, poderão ajudar ao desenvolvimento de
projectos de intervenção destinados a, por exemplo, suster o êxodo rural através da promoção
da identidade das localidades e a fomentar o desenvolvimento da identidade com o lugar de
novos residentes ou de programas que visem a satisfação das necessidades reveladas pela
populações. Outra linha de investigação que se pretende vir a implementar prende-se com a
análise dos processos de identificação com vários lugares em simultâneo e escalpelização dos
Identidade associada ao lugar 78
conteúdos que favorecem a identificação com cada um dos mesmos (e.g. bairro, cidade,
região), no sentido dos trabalhos realizados por Cuba e Hummon (1993) e por Hidalgo e
Hérnandez (2001). Dado o crescimento urbano a que se assiste no litoral, resultante
nomeadamente de fenómenos de êxodo rural e imigração, as fronteiras entre os lugares estão a
torna-se progressivamente mais ténues, sobretudo nos grandes centros populacionais. Neste
contexto seria interessante avaliar também como as pessoas lidam com este facto, e em que
medida a percepção subjectiva das fronteiras dos lugares influencia o locus onde ancoram as
suas identidades, na linha dos trabalhos desenvolvidos por Cortês e Aragonés (1991) e por
Aragonés e colaboradores (1992) relativamente a percepção de território e identidade social.
Identidade associada ao lugar 79
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Identidade associada ao lugar 84
ANEXOS
Identidade associada ao lugar 85
Anexo 1
Listagem das localidades referidas pelos sujeitos: número de observações e classificação em função da dimensão.
Dimensão da Localidade
Total
Localidade
Cidade Vila Aldeia
Alenquer 1 1 Algés 1 1 Almada 2 2 Alverca 1 1 Amadora 3 3 Amora 1 1 Amoreira 1 1 Anças 1 1 Azambuja 1 1 Baixa da Banheira 3 3 Brotas 1 1 Cacém 2 2 Cadaval 1 1 Caldas da Rainha 1 1 Carcavelos 2 2 Carregado 1 1 Cascais 1 1 Castanheira do Ribatejo 1 1 Coimbra 3 3 Costa da Caparica 1 1 2 Cova da Piedade 1 1 Covilhã 1 1 Entrocamento 1 1 Feijó 1 1 Ferreira do Zézere 1 1 Feteira 1 1 Foros de Amora 1 1 Guarda 1 1 Lagoa 1 1 Linda a Velha 2 2 Lisboa 15 15 Maia 1 1 Massama 1 1 Mercês 1 1 Miratejo 1 1 Montijo 1 1 Odivelas 1 1 Oeiras 1 1 Paivas 2 2
Identidade associada ao lugar 86
Dimensão da Localidade
Total
Localidade
Cidade Vila Aldeia
Palmela 1 1 Parede 1 1 Portela da Azóia 2 2 Porto 1 1 Póvoa de Santo Adrião 1 1 Praia das Maças 1 1 Salvaterra de Magos 1 1 Santa Clara Nova 1 1 Santa Eugénia 1 1 Santa Maria de Lamas 1 1 Santarém 1 1 Sertã 1 1 Sesimbra 1 1 Setubal 4 4 Sines 1 1 Sintra 2 2 São Miguel 1 1 Tomar 1 1 Torre da Marinha 1 1 Torres Vedras 2 2 Unhais o Velho 1 1 Vendas Novas 2 2 Viana do Castelo 1 1 Vila Franca de Xira 1 1 Vila Nova de Santo André 2 2 Vila Nova de São Bento 1 1 Vila Verde de Ficalho 1 1 Vila Viçosa 1 1 Viseu 1 1 Óbidos 1 1
Total 56 37 10 103
Identidade associada ao lugar 87
Anexo 2
Dicionário de Categorias5
Dimensão Social Categoria Definição Vinculação ao Lugar
Referência ao facto de sentir saudades da localidade quando está ausente e não conceber viver noutro sítio definitivamente. Ex.: "não me imagino a viver noutro local do país" 09, C, N.S.;" não me imagino a viver definitivamente noutro sítio" 02, C, M; "sempre que me ausento de Lisboa acabo por sentir um desejo enorme de regresso" 47, C, H.
Ligação ao lugar
Referência ao sentimento de conforto, bem estar e segurança associado à localidade. Ex.: "onde encontro paz de espírito" 40, A, M; "onde me sinto melhor" 33, C, H;" o facto de me sentir em casa" 03, C, M;" uma pessoa sente-se segura estando lá" 11, C, M.
Participação Social
Referência à participação em actividades e iniciativas locais de índole cultural, recreativo, desportivo ou outro. Ex..: "sempre colaborei em projectos relativos à comunidade" 02, C, M; " ando nos escuteiros de Linda-a-Velha o que faz ligarmo-nos muito mais à localidade" 41, V, M.
Redes Sociais Referência ao desenvolvimento de laços afectivos na localidade (familiares, amigos ou vizinhos) e consequente sentimento de familiaridade social. Ex..: "criei laços afectivos muito fortes" 03, C, M; "onde tenho o meu grupo de amigos" 13, V, M; "ter estabelecido relações sociais coesas" 02, C, M; "onde os meus pais moram e tenho o meu grupo de amigos" 13, V, M.
Falta de Privacidade
Referência à existência de falta de privacidade decorrente da falta de anonimato e da intromissão de terceiros na vida do sujeito. Ex.: "falta de anonimato" 19, A, M; "há intromissões na vida alheia" 20, A, M; "as pessoas são um pouco intrometidas" 15, C, M; " mais coscuvilheiros" 51, C, M.
Privacidade Referência à existência de privacidade na localidade. Ex.: "não é tão pequena que todos saibam da vida dos outros" 02, C, M.
Raízes Referência há existência de raízes no local derivadas do facto de ter nascido, sido criado ou vivido durante muito tempo na localidade. Ex.: "facto de ter crescido lá" 02, C, M; "foi lá que nasci e tenho sido criada" 04, V, M; "morei lá bastantes anos" 50, C,M.
Espírito de Comunidade
Referência a características que remetem para a existência de um espírito de comunidade, como sejam a união, entreajuda, solidariedade, convívio entre a população e desenvolvimento de actividades em grupo. Ex.: “há um grande convívio entre todos", 16, V, M; "é uma população essencialmente unida" 32, V, M; "entreajuda entre vizinhos" 07, V, M; "têm tendência para desenvolver projectos em grupo" 02, C, M.
Identidade associada ao lugar 88
Caracterização dos Habitantes Categoria Definição Mentalidade Aberta
Caracterização dos habitantes da localidade como tendo uma mentalidade aberta e/ou menos retrógrada comparativamente com os de outras localidades. Ex.: " mente mais aberta"14, C, M; " a mentalidade não é tão retrógrada como noutros locais" 09, C, NS.
Simpatia Caracterização dos habitantes da localidade como sendo pessoas simpáticas, agradáveis, alegres, afáveis e respeitadoras. Ex.: "são pessoas agradáveis" 01, V, M; "pessoas respeitadoras" 65, C, M.
Hospitalidade Caracterização dos habitantes da localidade como sendo pessoas hospitaleiras e acolhedoras. Ex.: "os habitantes são muito hospitaleiros" 02, C, M, "acolhedores"18, V, H.
Simplicidade Caracterização dos habitantes da localidade como sendo pessoas humildes, sinceras, simples, calmas, pacatas, com pouca ambição e alguma ingenuidade. Ex.: "humildade, sinceridade, ingenuidade", 56, C, M.
Mentalidade Fechada
Caracterização dos habitantes da localidade como pessoas conservadoras e de mente fechada. Ex.: "mente das pessoas é muito fechada" 13, V. M; "conservadorismo" 33, C, H.
Impessoalidade Caracterização dos habitantes locais como pessoas menos abertas do ponto de vista social, menos simpáticas, indiferentes ao outro. Ex.: "pessoas mais fechadas" 08, V, M; "são menos acolhedoras e simpáticas", 93, C, M.
Ostentação Caracterização dos habitantes como pessoas de ostentação, consumistas. Ex.: "os habitantes daquela zona tornaram-se ostentativos" 77, V, M.
Ambição Caracterização dos habitantes como pessoas ambiciosas, dinâmicas e independentes. Ex.: "dinâmicos" 05, C, M..
Pronúncia Específica
Referência ao facto da população local possuir uma pronúncia própria ou fazer um uso particular da língua portuguesa. Ex.: "o sotaque", 97, C, H; "utilizam a língua portuguesa na sua forma mais correcta" 52, C, M.
5 O código que acompanha cada exemplo é constituído pelo número do questionário, seguido do tipo de
localidade a que o sujeito de refere (C- cidade, V- vila, A- aldeia), e do sexo do sujeito (M – Mulher, H- Homem, NS – não se sabe por falta de preenchimento deste campo no questionário).
Identidade associada ao lugar 89
Património Histórico e Cultural Categoria Definição Monumentos Referência geral a monumentos locais ou alusão a monumentos locais
específicos (castelos, mosteiros, igrejas, estátuas, outros). Ex.: "monumentos históricos" 08, V, M; "Cristo Rei", 71, C, M.
Património Arquitectónico
Avaliação positiva do património e dos traços arquitectónicos da localidade, bem como desejo da sua conservação. Ex.: "estética antiga" 03, C, M; "gostaria que se preservasse o ambiente histórico sendo mantidas as estruturas dos prédios antigos que caracterizam a nossa cidade" 14, C, M; "reabilitação da parte antiga" 13, V, M.
Passado Histórico
Alusão à existência de um passado histórico rico ou com forte carga cultural. Ex.: "carga histórica e cultural muito forte" 31, V, H; "Terra de reis e rainhas, de poetas e escritores" 48, V, M.
Tradições Referência a tradições locais (festas, feiras, romarias, iniciativas sazonais, outras), e avaliação positiva da sua preservação. Ex.: “a Festa dos Tabuleiros é uma tradição muito colorida que ainda não morreu", 03, C, M; "Feira da Agricultura" 72, V,M; "presépio em ponto grande no Natal", 13, V, M; "terra dos forcados" 80, C, M.
Gastronomia Avaliação positiva da gastronomia local, vinhos e outros produtos considerados singulares (ex.: pão, peixe). Ex.: O vinho da região é um dos melhores do país" 01, V, M; "adoro o pão que se faz lá, é único", 03, C, M; "a gastronomia é muito apreciada" 03, C, M.
Identidade associada ao lugar 90
Património Natural Categoria Definição Beleza da Paisagem
Avaliação positiva das paisagens locais e do património natural em geral. Ex.: " a paisagem que envolve a vila é idílica" 01, V, M; "vista linda sobre o Tejo" 14, C, M.
Proximidade com a Natureza
Referência ao facto da localidade se encontrar perto do campo, permitir ainda o contacto e proximidade com a natureza. Ex.: "onde ainda se pode ouvir os passarinhos", 60, V, M; "contacto com a natureza", 08, V, M; "o prazer do campo" 95, A, M.
Praia e Mar Referência à proximidade da localidade face a praias e ao mar como uma vantagem, e avaliação positiva destes cenários. Ex.: "está próxima da praia", 71, C, M; "terra que em termos naturais é muito bonita, principalmente a praia e o mar" 06, V, M.
Rios e Outros Recursos Hídricos
Referência à existência de rios, lagoas e cascatas locais e sua avaliação positiva. Ex.: "o rio Zézere" 39, V, M; "cascatas em lugares secretos" 12, C, M; "banhada por um rio maravilhoso" 47, C, H.
Serras Referência à existência de serras locais e avaliação positiva da proximidade da localidade às mesmas. Ex.: proximidade com a Serra da Estrela", 97, C, M; "o ambiente mítico da serra" 08, V, M.
Espaços Verdes Suficientes
Avaliação positiva dos espaços verdes construídos (jardins, parques) existentes na localidade. Ex.: "jardim bonito" 02, C, M.
Espaços Verdes Insuficientes
Avaliação negativa dos espaços verdes construídos existentes na localidade e referências à necessidade de preservar e construir mais espaços desta natureza. Ex.: "mais locais verdes" 05, C, M; "que fossem preservados mais espaços naturais" 18, V, H.
Identidade associada ao lugar 91
Caracterização do Ambiente Físico e Social Categoria Definição Qualidade Ambiental
Avaliação positiva da qualidade do ambiente local, com referência à existência de um bom ambiente físico, bom clima e inexistência de poluição a vários níveis. Ex.: "local limpo" 15, C, M; "ribeiras e rios limpos" 12, C, M; "ar puro que se respira" 17, V, M; " a poluição é diminuta" 01, V, M; "o tempo é bastante bom" 18, V, H.
Poluição Avaliação negativa da qualidade do ambiente local, com referência à existência de um mau ambiente físico e poluição a vários níveis. Inclui preocupação manifestada com a degradação do ambiente físico. Ex.: "muito barulhenta" 05, C, M; "fumo" 05, C, M; "a poluição é um ponto que tem vindo a preocupar-me" 04, V, M.
Clima Inclui descrições não avaliativas do clima da localidade. As avaliações positivas do clima são incluídas na categoria Qualidade Ambiental. Ex.: "frio" 51, C, M.
Bulício Caracterização da localidade como sendo agitada, alegre e com vida. Ex.: "tem muita vida" 09, C, NS; "grande agitação tanto de dia como de noite" 05, C, M; "alegre" 18, V, M.
Tranquilidade Caracterização da localidade como sendo calma, tranquila, relaxante e com pouco stress. Ex.: "muita tranquilidade" 43, V, M; " há pouco stress" 11, C, M.
Avaliação Positiva da Localidade
Avaliação positiva da localidade em geral, como o ser bonita, agradável, luminosa, simpática, linda, entre outras. Ex.: "terra muito bonita" 06, V,M; "é uma terra linda" 11, C, M; "local agradável" 16, V, M; "bonita, luminosa" 05, C, M.
Centralidade Avaliação positiva da localização geográfica da localidade e sua proximidade e centralidade face a outros centros populacionais. Ex.: "está bem situada" 04, V, M; "proximidade a Lisboa" 06, V, M.
Isolamento Geográfico
Avaliação negativa da localização geográfica da localidade e consequente isolamento geográfico ou distanciamento de centros urbanos importantes. Ex.:" a distância do centro urbano" 87, V, H; "é um pouco longe de Lisboa" 96, A, M.
Identidade associada ao lugar 92
Caracterização Económica Categoria Definição Desenvolvimento da Localidade
Caracterização da localidade como se encontrando em crescimento ou desenvolvimento. Ex.: "sítio em crescimento", 10, C, M.
Estagnação da Localidade
Referência ao baixo desenvolvimento observado na localidade. Ex.: "pouco desenvolvimento económico que se tem observado" 19, A, M.
Actividades do Sector Primário
Referência ao facto de, na localidade, ainda se desenvolverem com grande expressão actividades económicas pertencentes ao sector primário (e.g. agricultura e pescas). Ex.: "existem muitas actividades ligadas ao mar" 09, C, NS; "o sector predominante é talvez a agricultura" 20, A, M.
Actividades do Sector Terciário
Referência ao facto de, na localidade, se desenvolverem com forte expressão actividades relacionadas com o sector terciário (e.g. serviços e comércio). Ex.: "Falta ou quase ausência de outros sectores de actividade que não o terciário" 06, V, M; "actividades essencialmente comerciais" 04, V, M.
Maiores Oportunidades de Emprego
Referência à existência de maiores oportunidades de emprego na localidade comparativamente com outros locais. Ex.: "maior facilidade de emprego".
Menores Oportunidades de Emprego
Referência à existência de menores oportunidades de emprego na localidade e necessidade de criação de melhores condições e mais postos de trabalho na mesma. Ex.: "criação de condições de trabalho naquela zona" 08, V, M; "local com pouca oferta ao nível do mercado de trabalho" 19, C, M.
Menor Custo de Vida Referência à existência de um menor custo de vida na localidade, com a prática de preços mais acessíveis. Ex.: "preços dos produtos alimentares e vestuário são mais baratos" 11, C, M; "podes ir ao cinema por uma quantia insignificante" 17, V, M.
Maior Custo da Habitação
Referência ao elevado custo da habitação na localidade, sendo este aspecto visto como uma desvantagem. Ex.: "aquisição de habitação cada vez mais cara" 45, V, NS; "valor excessivo das casas" 47, C, H.
Identidade associada ao lugar 93
Caracterização Sócio-Demográfica Categoria Definição Pequena Dimensão Descrição da localidade como sendo de pequena dimensão.
Ex.: “é muito pequena”40, V, M; Grande Dimensão Descrição da localidade como sendo de grande dimensão.
Ex.: "grande" 26, C, H. Elevada Densidade Populacional
Referência ao povoamento excessivo da localidade. Inclui a preocupação com o crescimento da densidade populacional no futuro. Ex.: "densidade populacional" 08, V, M; "está a ficar cada vez mais habitado" 45, V, NS.
População Idosa Referência à existência de um número significativo de idosos na localidade. Ex.: Começa a haver muitos idosos" 13, V, M.
População Jovem Referência à existência de um número significativo de jovens na localidade. Ex.: "muita gente jovem" 18, V, H.
Dormitório Caracterização da localidade como sendo um dormitório ou subúrbio de outra localidade maior. Ex.: "dormitório" 07, V, M; "ambiente de subúrbio de uma cidade" 07, V, M; "essencialmente constituído por prédios e edifícios de moradias" 07, V, M.
Segurança Caracterização da localidade como sendo segura e bem frequentada. Ex.: "segurança nas ruas" 13, V, M; " terra bem frequentada" 75, V, M.
Insegurança Caracterização da localidade como sendo insegura, perigosa, com elevados níveis de violência e criminalidade, problemas sociais, bem como referência à necessidade de maior policiamento e vigilância na zona. Inclui referências à proximidade de zonas problemáticas. Ex.: "insegurança nas ruas" 07, V, M; "Bairro das Marianas faz com que as pessoas tenham medo desta zona" 66, V, M; "mais vigilância acima de tudo" 16, V, M; "problemas sociais" 08, V, M.
Diversidade/ Heterogeneidade de Pessoas
Referência à existência de diversidade ao nível das origens sociais e culturais dos habitantes da zona e à possibilidade de, em função disso, se poder conhecer pessoas bastante diferentes. Ex.: “centro de diversidade, é heterogénea” 05, C,M; “contacto com muita gente interessante" 36, C, M.
Identidade associada ao lugar 94
Caracterização das Infra-Estruturas e Serviços Locais Categoria Definição Acessibilidade de Serviços
Referência ao facto da localidade oferecer bons serviços e permitir um bom acesso à informação. Ex.: "fácil acesso a todos os serviços", 02, C, M; "acesso a maior número de informações" 05, C, M "tem tudo relativamente perto" 02, C, M.
Oferta Inadequada de Serviços
Avaliação negativa dos serviços existentes na localidade e referência à necessidade de aumentar a oferta e diversidade dos mesmos. Ex.: "Mais lojas" 19, A, M; "falta de determinados estabelecimentos e pouca variedade de serviços" 22, C, M; "fraco desenvolvimento comercial" 25, C, M; "poucos estabelecimentos comerciais" 28, A, M.
Infra-Estruturas Rodoviárias Insuficientes
Avaliação negativa das infra-estruturas rodoviárias existentes (estradas, acessos, ICs, auto-estradas) e referência à necessidade de conservação e criação de mais vias de comunicação. Inclui também referências ao problema do estacionamento. Ex.: "mais vias de comunicação" 12, C, M;" falta de sítios para estacionar" 94, V, H.
Infra-Estruturas Rodoviárias Suficientes
Avaliação positiva das infra-estruturas rodoviárias existentes (estradas, acessos, ICs, auto-estradas, estacionamentos) na localidade . Ex.: "Bons acessos", 53, C, H; "óptimos acessos" 104, C, M.
Trânsito Elevado Percepção de um alto nível de tráfego na localidade e sua avaliação negativa. Ex.:" tem imenso trânsito" e " o número de carros na estrada" 05, C, M.
Trânsito Diminuto Percepção de um reduzido nível de tráfego na localidade e avaliação positiva deste facto. Ex.:" tem um trânsito relativamente fácil" e "pouco trânsito" 80, C, M.
Transportes Suficientes
Avaliação positiva dos serviços de transportes existentes na localidade, ao nível da lotação, preço e cadência. Ex.: "tem imensos transportes públicos" 78, C, H; " os transportes públicos são frequentes e nunca estão lotados" 11, C, M.
Transportes Insuficientes
Avaliação negativa do serviço de transportes existentes e referência à necessidade do mesmo ser melhorado. Ex.: "melhores transportes" 03, C, M; "melhores ligações ferroviárias até Tomar" 39, V, M.
Infra-Estruturas de Ensino Insuficientes
Avaliação negativa das infra-estruturas de ensino existentes e desejo de ver construídos novos equipamentos. Inclui a falta de bibliotecas e centros de estudo. Ex.: "Queria que fosse construída uma escola secundária" 17, V, M.
Infra-Estruturas de Ensino Suficientes
Referência à existência de adequadas infra-estruturas de ensino na localidade. Inclui as referências à existência de bibliotecas e centros de estudo. Ex.: "boas escolas" 50, C,M; "bem desenvolvida no ensino académico" 97, C, H.
Identidade associada ao lugar 95
Caracterização das Infra-Estruturas e Serviços Locais (continuação) Categoria Definição Infra-Estruturas Desportivas Suficientes
Avaliação positiva das infra-estruturas desportivas existentes. Inclui referência a equipamentos e clubes locais. Ex.: "tem um clube desportivo e um campo de futebol" 76, A, M; "estádio nacional com imensas actividades desportivas para desfrutar" 41, V, M.
Infra-Estruturas Desportivas Insuficientes
Avaliação negativa das infra-estruturas desportivas existentes e referência à necessidade de criação das mesmas. Ex.: "piscinas sem condições" 02, C, M.
Infra-Estruturas e Serviços de Saúde Insuficientes
Percepção de falhas ao nível das infra-estruturas e serviços de saúde existentes na localidade (hospitais, centros de saúde) e referência à necessidade de criação e melhoramento dos mesmos. Ex.: "[que construíssem] um centro de saúde novo", 02, C, M; "a área da saúde também podia ser melhorada, as infra-estruturas estão saturadas" 04, V, M.
Infra-Estruturas e Serviços de Saúde Suficientes
Avaliação positiva das infra-estruturas e serviços de saúde existentes na localidade (hospitais, centros de saúde). Ex." bons recursos humanos (hospitais, centros de saúde)" 27, V, M; "centro de saúde novo (...)existência de três farmácias sempre abertas"02, C, M.
Falta de Controlo e de Planeamento Urbano Adequado
Referências à inexistência de planeamento urbano e controlo desadequado sobre a construção civil. Ex.: "desorganização urbanística" 08, V, M; "construção desenfreada de prédios de habitação e centros comerciais" 27, C, M.
Existência de Controlo e Planeamento Urbano Adequado
Caracterização da localidade como sendo estruturada e organizada, deixando antever a existência de um adequado controlo e planeamento urbano. Ex." tem um limite de desenvolvimento imposto pela câmara" 02, C, M; "bem organizada em termos de estrutura e funcionamento" 27, V, H; "organizada"49, C, M.
Infra-Estruturas Única no País
Referência à existência na localidade de uma infra-estrutura única em todo o país. Ex.: " tem o museu do comboio" 10, C, M; "cacilheiros" 71, C, M; 02, C, M; "única localidade que tem metro" 92, C, M; "é o terminal dos famosos eléctricos de Lisboa" 94, V, H.
Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer
Avaliação positiva da oferta existente a nível cultural, turístico e de lazer. Ex.: "disponibilidade e variedade de espectáculos" 59, C, M; "tem bares para sair à noite" 09, C, NS; "local turístico" 08, V, M.
Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer
Avaliação negativa da oferta existente a nível cultural, turístico e de lazer e expressão da necessidade de serem criadas mais condições, eventos e espaços com este fim. Ex.: "poucas ocupações ao fim de semana", 02, C, M; "cidade muito pobre em termos culturais" 34, C, M; "não tem grande interesse turístico" 17, V, M.
Identidade associada ao lugar 96
Anexo 3
Frequência das categorias apuradas através da análise de conteúdo ( percentagens em função da dimensão da localidade entre parêntesis)
Dimensão da Localidade Categoria Cidade
(n=56) Vila ou
Aldeia (n=47) Total
(n=103) Acessibilidade de Serviços 8(14,3) 7(14,9) 15(14,6) Actividades do Sector Primário 0 2(4,3) 2(1,9) Actividades do Sector Terciário 0 3(6,4) 3(2,9) Ambição 0 1(2,1) 1(1) Avaliação Positiva da Localidade 22 (39,3) 25(53,2) 47(45,6) Beleza da Paisagem 10(17,9) 7(14,9) 16(15,5) Bulício 9(16,1) 2(4,3) 11(10,7) Centralidade 17(30,4) 14(29,8) 31(30,1) Clima 6(10,7) 4(8,5) 10(9,7) Desenvolvimento da Localidade 7(12,5) 2(4,3) 9(8,7) Diversidade/ Heterogeneidade de Pessoas
2(3,6) 5(10,6) 7(6,8)
Dormitório 3(5,4) 4(8,5) 7(6,8) Elevada Densidade Populacional 3(5,4) 5(10,6) 8(7,8) Espaços Verdes Insuficientes 5(8,9) 9(19,1) 14(13,6) Espaços Verdes Suficientes 23(41,1) 8(17) 31(30,1) Espírito de Comunidade 4(7,1) 14(29,8) 18(17,5) Estagnação da Localidade 2(3,6) 4(8,5) 6(5,8) Existência de Controlo e Planeamento Urbano Adequado
3(5,4) 2(4,3) 5(4,9)
Falta de Controlo e Planeamento Urbano Adequado
6(10,7) 3(6,4) 9(8,7)
Falta de Privacidade 6(10,7) 5(10,6) 11(10,7) Gastronomia 3(5,4) 5(10,6) 8(7,8) Grande Dimensão 5(8,9) 1(2,1) 6(5,8) Hospitalidade 4(7,1) 5(10,6) 9(8,7) Impessoalidade 5(8,9) 1(2,1) 6(5,8) Infra-Estruturas de Ensino Insuficientes 7(12,5) 4(8,5) 10(9,7) Infra-Estruturas de Ensino Suficientes 3(5,4) 1(2,1) 4(3,9) Infra-Estruturas Desportivas Insuficientes
3(5,4) 4(8,5) 7(6,8)
Infra-Estruturas Desportivas Suficientes 0 3(6,4) 3(2,9) Infra-Estruturas e Serviços de Saúde Insuficientes
3(5,4) 6(12,8) 9(8,7)
Identidade associada ao lugar 97
Dimensão da Localidade Categoria Cidade
(n=56) Vila ou
Aldeia (n=47) Total
(n=103) Infra-Estruturas e Serviços de Saúde Suficientes
2(3,6) 0 2(1,9)
Infra-Estruturas Rodoviárias Insuficientes
9(16,1) 6(12,8) 11(10,7)
Infra-Estruturas Rodoviárias Suficientes 5(8,9) 0 5(4,9) Infra-Estruturas Únicas no País 5(8,9) 1(2,1) 6(5,8) Insegurança 11(19,6) 7(14,9) 18(17,5) Insuficientes Ofertas Culturais e de Lazer
13(23,2) 11(23,4) 24(23,3)
Isolamento Geográfico 0 2(4,3) 2(1,9) Ligação ao lugar 5(8,9) 3(6,4) 8(7,8)% Maior Custo da Habitação 2(3,6) 2(4,3) 4(3,9) Maiores Oportunidades de Emprego 2(3,6) 0 2(1,9) Menor Custo de Vida 1(1,8) 1(2,1) 2(1,9) Menores Oportunidades de Emprego 10(17,9) 7(14,9) 17(16,5) Mentalidade Aberta 3(5,4) 1(2,1) 4(3,9) Mentalidade Fechada 1(1,8) 2(4,3) 3(2,9) Monumentos 8(14,3) 6(12,8) 14(13,6) Oferta Inadequada de Serviços 3(5,4) 5(10,6) 8(7,8) Ostentação 1(1,8) 1(2,1) 2(1,9) Participação Social 2(3,6) 1(2,1) 3(2,9) Passado Histórico 6(10,7) 6(12,8) 12(11,7) Património Arquitectónico 8(14,3) 3(6,4) 11(10,7) Pequena Dimensão 1(1,8) 5(10,6) 6(5,8)% Poluição 8(14,3) 2(4,3) 10(9,7) População Idosa 0 1(2,1) 1(1) População Jovem 1(1,8) 1(2,1) 2(1,9) Privacidade 1(1,8) 1(2,1) 2(1,9) Pronúncia Específica 2(3,6) 1(2,1) 3(2,9) Proximidade com a Natureza 2(3,6) 14(29,8) 16(15,5) Praia e Mar 14(25) 15(31,9) 29(28,2) Serras 4(7,1) 3(6,4) 7(6,8) Qualidade Ambiental 9(16,1) 12(25,5) 21 (20,4) Raízes 34(60,7) 29(66,7) 63(61,2) Redes Sociais 26(46,4) 28(59,6) 54(52,4) Rios e Outros Recursos Hídricos 5(8,9) 4(8,5) 9(8,7)
Identidade associada ao lugar 98
Dimensão da Localidade Categoria Cidade
(n=56) Vila ou
Aldeia (n=47) Total
(n=103) Segurança 9(16,1) 7(14,9) 16(15,5) Simpatia 12(21,4) 12(25,5) 24(23,3) Simplicidade 7(12,5) 7(14,9) 14(13,6) Suficientes Ofertas Culturais e de Lazer 19(33,9) 8(17) 27(26,2) Tradições 10(17,9) 6(12,8) 16(15,5) Tranquilidade 25(45) 31(66) 56(54,4) Trânsito Diminuto 2(3,6) 1(2,1) 3(2,9) Trânsito Elevado 13(23,2) 5(10,6) 18(17,5) Transportes Públicos Insuficientes 3(5,4) 4(8,5) 7(6,8) Transportes Públicos Suficientes 7(12,5) 1(2,1) 8(7,8) Vinculação ao Local 6(10,7) 1(2,1) 7(6,8)
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